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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A Torta de Cerejas




   Era um dia bonito como qualquer outro dia bonito. O sol queimava minha pele descuidada e sem nenhum protetor solar porque, francamente!, usar protetor solar nessa cidade subtropical de merda é um insulto ao meu senso comum desorientado que acha que o uso de protetor solar se limita ao verão e à praia.
   Eu tinha acabado de descer do ônibus, um transversal que parecia que ia se desmontar, de tanto solavanco e barulho e nheco-nheco. O pedaço da torta de cerejas no fundo da sacola, mumificada em papel alumínio, vinha sacolejando conforme eu caminhava. Cuidado nunca foi o meu forte, ainda mais com coisas renegadas. Dobrei uma esquina, atravessei a rua seguinte. Faltava pouco, faltava pouco. As pessoas passavam e eu nadava no sentido oposto. Só mais uma quadra, e mais uma rua, e ploft.
   Em parte por culpa do salto, em parte porque não sei caminhar e pensar ao mesmo tempo, tropecei e caí quase que de cara no chão, salva apenas pelos meus cotovelos. Ainda bem que fui de jeans, e não de vestido!, pensei. Ainda bem. Eu não queria olhar em volta, tinha pessoas por perto, então eu sabia que não ia querer olhar em volta. Isso não aconteceu, nada aconteceu, continuem a nadar, foi só um arranhãozinho nos cotovelos. Foi só um arranhãozinho. A sacola nem se despendeu do meu braço, a torta continuou lá no fundo, talvez um pouco mais amassada, mas foi só um tropeção e ainda bem que eu fui de jeans.
   Eu já estava de joelhos, quase me levantando quando alguém estendeu a mão, e consegui ficar em pé de novo. Agradeci, a gente sempre agradece e reza pra não acontecer de novo, mas não fiquei muito reparando no rosto, acho que era um cara de terno e gravata -- não sei por que, não gosto de encarar pessoas desconhecidas por muito tempo, algo me diz que posso acabar sendo mal interpretada. Agradeci de novo e continuei rumo à minha casa, e ele continuou na direção oposta.
   Acho que dei uns dois passos com a pulga atrás da orelha. Então virei para trás, para ver o cara de terno mais uma vez, e percebi que ele fazia o mesmo. Desvirei rapidamente. Nenhum de nós voltou ao ponto de intersecção, cada um seguiu, mas agora eu tinha certeza quase absoluta.
   Larguei as chaves de casa em cima da mesa, ao lado da sacola com a torta, e sentei no sofá.
   Devo ter ficado uma meia hora ouvindo aquele zunido da chaleira até guardar tudo nas gavetas imaginárias, levantar e ir desligar o fogão. Nada melhor que uma boa água fervente com ervas goela abaixo para ajudar a torta de cerejas esmagada, sangrenta e disforme a descer pela minha garganta seca e contraída.
   Eu não ia chorar. A essa altura, acho ridículo chorar, acho objetivamente estúpido chorar, e esse é o tipo de coisa que só se faz no banho, longe da civilização e sem dar soluços altos, porque se ecoar pelo poço de luz, alguém pode ficar sabendo. Nesse tipo de situação, a única coisa aceitável a se fazer é tapar os ouvidos, ignorar o ruído ensurdecedor, fechar os olhos, ignorar as luzes piscantes, e engolir uma múmia de torta de cereja intragável com um chá exterminador do passado e de cordas vocais.
   Talvez se a cidade fosse maior, se as minhas rotas de fuga fossem mais diversas, se eu limitasse ainda mais meu campo de visão dos joelhos alheios para baixo, talvez assim eu estaria livre de encontrar conhecidos no meio do caminho. Essa não era nem a primeira vez.
   E ele? Será que lembrava? Provavelmente não, nem era tão importante. O cara de terno era só mais um desses que ia chegar em casa depois do insólito encontro, tirar os sapatos e a gravata, abrir a geladeira por uma lata de refri ou cerveja, ligar a TV pelo noticiário -- e depois pelo futebol --, desligar o computador e pensar “é, era aquela mina bizarra mesmo”, ou talvez nem isso; talvez ele fosse só ir dormir sem pensar em nada relacionado a encontros do acaso, destino, relações cármicas do universo ou falha na matriz. Talvez aquela viradinha para trás tivesse sido instintiva, nada de mais.
   Eu tentei desenrolar o alumínio da torta devagar, mas sempre tive essa coisa de tentar combinar a velocidade interna à externa e falhar miseravelmente. O alumínio rasgou. Eu dei uma mordida na ponta da torta. Aquele gosto doce, doce demais pro meu gosto, quase artificial de tão doce, inundou meu paladar. Nunca gostei de cereja, mas a minha tinha se esmerou tanto em fazer essa torta que eu tive pena de dizer que não queria um pedaço, dois pedaços, levar o que sobrou pra casa. Ela se deu ao trabalho de misturar a massa, forrar a fôrma, comprar as cerejas em calda, controlar o forno, e depois ainda de embrulhar o pedaço restante e de colocá-lo no fundo daquela sacola de supermercado... Talvez seja algo que as pessoas façam sem intenção, mas pra mim, é quase como uma chantagem emocional, como se a única saída fosse aceitar uma parte de todo esse trabalho sem fazer cara feia.
   Eu engoli a torta em grandes pedaços, tomei o chá em grandes goles, meio arrepiada e a contragosto. Era uma questão de honra terminar aquilo ali, no momento, e não jogar no lixo e depois pensar “que desperdício!”, nem guardar na geladeira e me enganar “daqui a dez anos eu certamente vou tomar o gosto pela cereja em calda”. E que alívio quando engoli o último naco daquele negócio! Fiz uma bolinha com o alumínio e a arremessei no lixo.
   Será que o cara do terno me reconheceu? Eu espero que não.
   Fui tomar um banho.

sábado, 15 de outubro de 2011

De Inertia

Éramos mais ou menos quinze na fila do ônibus, seis horas e pouquinho, mais um monte de transeuntes passando perto da parada. Não saiu no jornal – provavelmente porque não valia a manchete, “era coisa pequena”, e eu sei que você também diria exatamente assim, “coisa pequena”, porque a verdade é que nós nos tornamos uns insensíveis a tudo isso (se é que algum dia nós já fomos sensíveis).

A primeira da fila era uma mulher, negra, aparência normal, um pouco cansada. Uma camiseta, um jeans surrado (não surrado de marca, surrado de uso mesmo), uns tênis bem simples, uma bolsa no ombro. Acho que ela foi o alvo mais pela posição e pela facilidade do que por qualquer outra coisa. Por ser mulher, magra e estar lá, cansada de um dia estafante de trabalho.

Eles chegaram em três. Já percebeu que esse bostas sempre chegam em bando? Vivem em bando, caçam em bando, provavelmente até se comem entre si só porque é mais cômodo. Com aqueles tênis cor de neon, de marca, calça caída, sempre falando no último volume e gordos, ocupando espaço em todos os sentidos. Nosso sistema é muito bom para engordar vagabundo, e isso vale pra qualquer classe social, dos que comem dez vezes o seu salário aos que ganham “Bolsa Explore O Seu Filho Com O Apoio Do Governo”. Até porque a única maneira que eles têm de chamar a sua atenção é ocupando espaços físicos e sonoros e incomodando o máximo possível; não são inteligentes, bonitos, agradáveis, só resta serem estupidamente incômodos. E eles foram chegando perto dela como se fossem conhecidos.

E no início, parecia isso. Parecia que eles se conheciam, foram se encostando nela como velhos conhecidos, como amigos. Daí ela olhou para nós todos e eu soube. Eu soube que eles não eram conhecidos porra nenhuma e me lembrei que já tinham usado a mesma tática com uma amiga que tinha sido assaltada mês passado... Com essa moça, era o mesmo. Ela me olhava, assustada, apavorada, suplicante. 

Eu tenho vergonha, tenho vontade de me matar só de me lembrar daquele olhar. Ela olhou para todos nós, todos os 15 ou 16, mais os transeuntes, o mundo!... e todo mundo se encolhendo, fazendo cara de paisagem, baixando o rosto, ignorando, passando, dando espaço pra que aqueles três merdinhas de, o quê?, dezesseis, dezessete anos?, fizessem o que eles estavam fazendo ali.
A moça ficou em choque enquanto eles pegavam a bolsa dela, abriam, olhavam, na maior calma porque sabiam que ninguém ia fazer nada mesmo. Um deles chegava a se virar para nós, sorrindo malicioso, como quem diz “valeu pela cooperação”. Ela começou a chorar, e algum deles fez uma piadinha. Ela perguntou, com a voz trêmula, talvez juntando um fiapo de coragem dos frangalhos em que situações como essa transformam a nossa sanidade: “Posso só pegar as fotos dos meus pequenos na carteira?”, e foi só isso mesmo que ela disse.

Uma pergunta inocente dessa e foi o que bastou para um dos assaltantes dar um soco direto no rosto dela - eu cheguei a ouvir o barulho de um dente caindo no chão. Tudo isso pelo quê? Por uma carteira, por um celular, por algum dinheiro magro, que provavelmente sequer cobriria um plano dentário pra que ela consertasse os dentes quebrados? A verdade é que isso não é pelo dinheiro pra comprar os Nikes, os Adidas, etc., pra bancar o churrasquinho de quarta-feira que acompanha o jogo, não é pelo crack, pela cerveja, pelos cigarros, não é sequer pra sustentar os filhos que eles provavelmente já tem – e que criam no mesmo abandono no qual foram criados. A partir daquele momento, ficou bem claro que o assalto não era por nada disso, era pela violência, sempre foi pela violência. Porque a violência é o único modo de esses filhos-da-puta sentirem que têm algum poder sobre algo, mesmo que seja sobre uma mulher cansada em uma parada de ônibus, que seja sobre uma criança indefesa, que seja sobre um cachorro sarnento na rua. A violência é a única capacidade democrática em toda a raça humana, e infelizmente até esses chinelões sabem disso.

Mas você sabe que não é isso que me perturba. O que me perturba é que naqueles minutos nenhum de nós foi capaz de mover um dedo para ajudar a moça sendo assaltada. Eram três! Nós éramos quinze, até mais gente! Questão numérica! E o que é pior: eu não estou me excluindo dessa maioria burra e covarde. Eu estava lá e desviei o olhar, fiquei quieta, fingi que não era comigo! (E seria inocente acreditar que nada daquilo “era comigo”...) Justo eu!

Talvez eu até conseguisse perdoar os outros por saber que a maioria é composta de cordeiros. Séculos de cultura, religião, filosofia, ficção, etc. que nos dizem que existem “bons” e “maus”, que estes são distinguíveis sem muita dificuldade, e que os “bons” são passivos, inertes, oferecem a cara a tapa, perdoam, esquecem, são cândidos, pobres, submissos, silenciosos e aceitam todos... Os “bons” somos nós, daquela fila da parada do ônibus, perdoando os três coitadinhos porque eles nasceram na vila, provavelmente não tiveram uma família estruturada, não tiveram uma boa educação, e agora cobram da sociedade a sua “dívida” – o que para mim sempre foi uma desculpa de merda, criada por uma classe média-alta com aquela inerente culpa judaico-cristã-ocidental por ter algum dinheiro; porque, seja qual for o seu status social ou a sua etnia, ser filho-da-puta não é desculpa para nada. E se você enxerga com esses seus olhos algum tipo de justiça social no que aqueles três fizeram, então eu realmente espero que algum assaltante faça o favor de espancá-lo até você perder a sua visão, já que ela obviamente é um sentido inútil em você.

Eu sei que, no fim, não conseguiria perdoar a multidão de covardes também. Mas eu nunca acreditei nessa coisa de justiça social, e de que nós “merecemos” ser assaltados, porque é o nosso pagamento e porque Deus é maior que isso tudo e porque o Reino dos Céus é daqueles que sofrem, e que são pobres, e que são dependentes, e que choram em vez de tentarem algo. Não, isso não sou eu. Por isso mesmo sei que, naquele momento em que a moça era assaltada, eu não estava pensando em justiça social, em justificativas e etc. Não. Eu estava agindo pelo instinto vergonhoso de defender o meu próprio umbigo e esperar que “os outros” dessem o primeiro passo. Eu estava na mesma expectativa que todos ali: a expectativa de que um suposto “alguém” chamaria a polícia, que então passaria a responsabilidade para a “Justiça”, que então entregaria os criminosos para os carcereiros, que por fim deixariam que os próprios presos se encarregassem de exercer a tal da “Justiça”. Funciona da mesma maneira que alguns pais esperam que as babás ou - mais modernamente - as professoras se encarreguem da educação de seus filhos; é uma delegação infinita de responsabilidades que culmina na não-resolução de problema algum.

Eu não tenho desculpa, não tenho desculpa mesmo. Meu instinto me disse que me meter naquilo poderia resultar negativamente, e eu me coloquei acima daquela pobre mulher, mesmo também havendo a possibilidade de que, se eu desse o primeiro passo, mais duas ou três pessoas também se animassem a correr com os assaltantes dali. Eu também sabia disso inconscientemente, mas fiquei ali, inerte, olhando como quem olha um capítulo de novela se desenrolar. 

Não, eu não me perdôo por isso. Mas também sei que estou propensa a fazer o mesmo em uma próxima situação semelhante, tendo plena consciência disso tudo. Então por que estou contando isso? Porque não quero que o olhar aterrorizado daquela mulher se perca no tempo. Não quero que aqueles dentes quebrados sejam “coisa pequena”, indigna de nota. Não quero que você esqueça – e também não quero me esquecer – de que nós também podemos ser os primeiros da fila um dia, e que nosso olhar aterrorizado vai ser só a entrada para mais um desses banquetes de demonstrações de poder.


 Esse texto foi escrito para a cadeira de Produção Textual, em que a proposta era reescrever o conto "Pai contra mãe", de Machado de Assis. Eu, pessoalmente, acho que reescrever Machado não só é impossível como é praticamente um insulto - e chorei sangue por isso.
A minha interpretação desse conto é a de que o autor, sim, tratou o tema social, a estrutura escravagista estúpida (cinco "vivas!" para aliterações/assonâncias, por favor) da época; mas o que eu enxergo como foco principal é a questão individual, da violência, do descaso com o outro. 
E foi isso que eu resolvi trabalhar, com alguma inspiração débil em The Boondock Saints. Mas mais pela parte da moral do que pela parte da fodasticidade.:(
Também não gosto tanto de trabalhar com crítica social em ficção, mas às vezes é inevitável. Tive que rezar alguns pai-nossos para o São Rubem Fonseca nesse quesito.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O Blackbook do Fulano de Tal

(Por um 2010 mais sincero no que realmente interessa.)

O ano passado já acabou faz um tempinho, mas demorei pra comprar uma agenda para 2010. Já falei que sou louca-tarada-demente por agendas? Pois é.
Não que eu as use todos os dias; normalmente, utilizo minhas agendas como scrapbook, algo do tipo "vou colar essa figura bonita aqui", "vou escrever essa frase bonita com créditos errados ali", "vou rabiscar esse desenho homoerótico satírico acolá" etc. Fora todos os ingressos de cinema, os catálogos de chás, perfumes, restaurantes de Caxias do Sul, entre outras recordações do ano correspondente.

Por exemplo, no primeiro dia do ano, costumo anotar a última playlist do ano passado - só pra ter uma ideia das músicas ouvidas. Este ano não fiz isso. Aliás, este ano, comecei escrevendo um conto looooongo que ainda não terminei, pra variar. Ahem. :P

Enfim, olhando todas as "features" das minhas agendas, pensei: "e se alguém resolvesse fazer uma agenda menos artificial"? "Bom, provavelmente acabaria sendo o 'livro negro' de cada um"...

01. A capa
No meu livro negro, a capa não seria feia, porque isso é muito clichê. E já tem agendas o suficiente com capas feias por aí.
Talvez fosse uma paisagem - para não desvirtuar completamente o objetivo do negócio, poderia ser um deserto, ou uma geleira. Algum lugar árido, inóspito, ou, para efeitos cômicos, uma daquelas fotos motivacionais com pessoas de várias etnias se dando as mãos e sorrindo. Em algum canto da capa, uma citação bíblica - de preferência do Apocalipse ou inventada; algo como "E disse Deus em sua ira: 'Olha o que fizeram com o meu guri, bando de putos!' Judas I. 23,1-13".
Logo de cara teria aquele espaço para pôr o nome: "Este livro negro pertence a (Fulano de Tal)".

02. Cartela de adesivos
Nada de viadagens do tipo "Te adoro!", "Estudar", "Urgente", "Médico", "Prova", "Oba!", "Curti!", "Para/de...".
Adesivos de bichinhos, tudo bem. Mas tudo voltado para o propósito da agenda: adesivo fofo de sapinho estilo Keroppi? Só se vier com a legenda "Para botar na boca do sapo". Borboletas? Legenda "Enrustido". Cãezinhos? Tag "Mijou fora do penico". Gatinhos? "Deu pra todo mundo". Peixinhos? "Se fez de peixe morto". E assim por diante.:)
Os adesivos de "Telefonar" virariam "Arranjar desculpa pra cancelar". Os de "Prova" seriam "Fingir estudar para". Incluiria alguns outros interessantes: "Falta de laço", "Me aguarde", além de uns mais positivos como "Diversão adulta fácil e gratuita" e "Amigo rico".
De um modo geral, passaríamos dos adesivos de florzinha para adesivos de cocozinhos.:)
Os únicos adesivos normais seriam os de "Lembrar". Veremos por que no quarto item.

03. Dados pessoais
Pra quê dados pessoais? Isso é um blackbook! Você não quer que as pessoas saibam o seu endereço pra mandar ratos mortos, nem o seu telefone para passar trotes de madrugada, nem o seu e-mail para mandar spams e correntes "da paz", muito menos o seu tipo sanguíneo para melarem com o seu teste de HIV!
O nome (caso você tenha sido burro de colocar um de verdade) ou pseudônimo da capa deve bastar.

04. Componentes
Calendário: nenhum feriado marcado, de modo a dar liberdade para seu usuário escolher quais os dias serão feriados. Afinal de contas, não é todo o vagabundo que tem o dia 12 de outubro como feriado (médicos, taxistas, motoristas de ônibus, atendentes de 1,99, spammers...). Por outro lado, para alguns, segunda-feira pela manhã é feriado em qualquer dia, mês e ano. Dias que sucedem festas universitárias também.
Agenda de telefones e aniversários: 1 (uma) página, no máximo. Pra quê agenda se o seu celular provavelmente já tem gravado todo mundo (especialmente aqueles que você tem gravado com a única função de ignorar as chamadas)? E aniversários o Orkut/Facebook avisa (afinal de contas, os que interessam você provavelmente já tem na cabeça).
Planejamentos financeiros: meia página, no máximo. Você é pobre; vai planejar o quê, com que dinheiro? E não queira me provar o contrário, porque rico não tem agenda; tem secretária, contador, personal stylist e carolho a quatro.:)
Lista de livros: inexistente. A maior parte da população brasileira não lê nem rótulo de cerveja e você acha que vai ler livro, que é coisa de bichinha aviadada? A outra parte acha livro muito caro e prefere comprar TV de LCD pra ver a novela das oito ou pei-per-viu pornô.
Lista de CDs: inexistente. Já ouviu falar em download? Mas se bem que ainda tem camelô, peraí... Tá, concedo meia página pra você colocar aquela coletânea do Furacão 2000 que o tiozinho tá fazendo por um preço camarada...
Lista de filmes: uma página com umas dez linhas pra você enumerar todos os seus preferidos, a maioria provavelmente da Sessão da Tarde (que com muita sorte, e contando a continuação de Lagoa Azul, deve dar dez mesmo).
Amigos legais: você tem três linhas e dez segundos para preencher com nomes antes que a página se autodestrua. E não vale olhar no Orkut nem escolher entes familiares, imaginários ou não-humanos!
Lista negra: o grande filé da agenda. Aqui você tem cerca de 50 (cinqüenta com trema porque eu quero!) páginas para preencher com os nomes dos seus desafetos, gente que vai de inimigo íntimo a vizinho desconhecido, celebridade fatalmente odiada e atendente de telemarketing do Bradesco. Aqui você pode usar aquela cartela de adesivos do início conforme lhe aprouver. E antes que me digam que isso é ideia das "Mean Girls", eu digo que é verdade! Mas listas negras são mais antigas do que esse filme... Além disso, aqui nós teríamos uma agenda completa, com adendos ultracharmosos, sempre privilegiando a sinceridade destrutiva de seus usuários.
Páginas dos dias do mês: componentes de uma agenda normal. Mas com um charme a mais: adicionada a seção "Incomodação do dia" com a subseção "Responsáveis". Aqui seriam usados aqueles adesivos de "Lembrar" supracitados, para que você JAMAIS esqueça os nomes dos filhos-da-puta que já atravancaram sua vida. Nem que seja para preencher com "Sr. Bill Gates" naquele dia em que seu Windows executar uma operação ilegal e fechar sua monografia de 200 páginas não salvas.

05. Plus
Botão de autodestruição: você certamente não gostaria de se desgastar com explicações sobre um ou outro beltraninho mencionado na agenda. Processo por difamação deve ser chato, muito embora o Brasil seja uma das capitais mundiais da fofoca e do boato infundado iniciado por recalcado fracassado (sigla BIIRF).
Espelho interativo: na contracapa interior da agenda, um espelhinho no melhor estilo "rainha-bruxa-malvada-da-Branca-de-Neve". Interativo por causa de algum mecanismo toscamente desenvolvido (provavelmente um disco giratório de papelão, ou algo assim), com a função de escolher frases aleatórias para presenteá-lo com um pouco de autocrítica após tanto falar mal dos outros. Sugestões de frases: "Sintoma: cara de cu; diagnóstico: falta de foda"; "Já arranjou trabalho? Dica: é nos classificados, não no espelho"; "O que você chama de poros eu chamo de crateras"; "Inchado? A não ser que você seja um baiacu, meu filho, você tá é gordo!:)"; "Se existe alguém mais belo? Erro: excesso de informação" etc.

Minha agenda de 2009, com pensamentos elevados.:)


Um Feliz 2010 pra todos vocês! :)

(E façam(-se) o favor de priorizar a própria vida sobre a vida dos outros. Tenham certeza de que os problemas de vocês são bem piores do que os de qualquer um dos "brothers" de qualquer um dos 10 Big Brothers.)

Jaa!o/

terça-feira, 14 de julho de 2009

Pecados sociais?

A Igreja Católica sempre gostou de ter a imagem de reduto moral, mesmo porque isso lhe conferia grande influência entre os fiéis. Hoje, com o surgimento sem resistência e a rápida popularização de inúmeras igrejas evangélicas, ela tenta reaver a sua fama atualizando a lista de pecados para se adequar a uma realidade que os antigos parâmetros não previam. Na prática, pelo menos dois dos novos "atos pecaminosos" são revestidos de um pensamento simplista que pode interferir em questões importantes de maneira negativa.

Um dos novos pecados incorporados à lista diz respeito às modificações genéticas, as quais a Igreja considera erradas. A idéia por trás disso é simples, mas denota falta de visão e de conhecimento do assunto: o alto clero não quer que seres humanos "brinquem" de Deus. Todavia, ser capaz de manipular genes e criar ou modificar espécies em laboratório não significa criar quimeras ou monstros, diferente do que muitos pensam. O rebaixamento de uma técnica a pecado demonstra que a Igreja não sabe muito bem do que está falando. A modificação genética, em geral, diz respeito ao melhoramento de vegetais ou animais para produção em larga escala e sem perdas, com finalidade de abastecer o consumo humano. Assim, a Igreja ignora que, se não existissem essa e outras técnicas semelhantes, o mundo provavelmente viveria como na Idade Média, passando por ondas de fome e apresentando casos de canibalismo humano decorrentes dessas.

Outro ato considerado "pecaminoso" agora é o de enriquecer muito. Isso se baseia na idéia deturpada de que, para tornar-se rico, é necessário roubar ou "pisar" em outras pessoas. Na verdade, isso já é defendido pela Igreja Católica há muito tempo; a pobreza sempre foi vista por ela, pelo menos oficialmente, como uma virtude. Esse tipo de conceito, vindo de uma instituição que influencia tantas pessoas, representa um preconceito social - como há alguns séculos essa mesma organização instituiu o preconceito étnico e cultural ao dizer que negros não tinham alma e que a cultura indígena era mais atrasada. O clero esquece que a própria instituição católica é extremamente rica - possui um país, com guardas, catedrais e igrejas com ouro, além de funcionários em vários países - e, pelo que se sabe de sua história, não alcançou isso sem roubar terras, matar "infiéis", mentir para populações inteiras e consentir com atos não tão nobres que lhe fossem convenientes.

Desse modo, a Igreja interfere, com suas idéias pouco lógicas e bastante hipócritas, em melhorias tanto no nível pessoal, como no mundial. O seu repúdio às modificações genéticas feitas por humanos e o seu pensamento simplista quanto ao acúmulo de dinheiro podem contribuir enormemente para o atraso humano, uma vez que uma organização com o seu porte ainda tem poder de influenciar pessoas que não sabem diferenciar o pessoal do social, o religioso do laico. Em vez de criar listas inúteis, a Igreja Católica poderia usar seu tempo para distribuir suas riquezas, que agora viraram pecado, ou seguir o exemplo de Mendel, monge católico e pai da genética, e ir estudar algo mais proveitoso.

(Publicado no Jornal da Redação do curso Unificado, na edição de Agosto de 2008 - ano 12, nº 40.)

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Vocês não têm idéia da dor que dá ao reler um texto escrito há um ano...:S
Eu basicamente quero reescrever tudo, cortar coisas, adicionar outras... Gaaaaaaah!

Bom, dirty little secrets: eu esqueci o título dessa redação. O que inicia essa postagem foi atribuído pelos professores do Unificado para poder publicar o meu texto. Morri de vergonha quando recebi essa tranqueira corrigida e vi que tinha esquecido de, digamos, A PORRA DA PARTE MAIS IMPORTANTE DA REDAÇÃO!!!Dx
(Tá, não é a parte mais importante, mas poxa, é a apresentação de todo o conteúdo em síntese!)
Na UFRGS eu não teria passado, mas o corretor do meu texto foi bonzinho.:)

Lendo todas as outras redações publicadas, percebi que, bom, eu me exaltei um pouco.
Mas religião é ódio.;)

Jaa!o/

Precisamos de Luxo

A humanidade precisa de luxo tanto quanto precisa de artigos de primeira necessidade. Levando-se em conta a sua definição de "exclusivo", e ignorando-se a superficialidade com que o caracterizam, luxo é ter tempo, assim como é deter individualidade.

À parte do seu conceito clássico, uma vida luxuosa não precisa ser propriamente repleta de riquezas materiais, futilidades e inutilidades. Na situação do mundo moderno, o tempo, por exemplo, é um recurso do qual poucos desfrutam, sendo, portanto, raro e custoso. No ritmo acelerado em que muitos vivem, ter alguns minutos do dia para dedicar-se a fazer algo relaxante, ou para simplesmente gastar sem fazer nada específico, é uma dificuldade. Para aqueles que exercem ofícios com baixa remuneração, deixar de trabalhar não é escolha; necessidades mais primárias precisam ser supridas, afinal. Para os não tão pobres, mas que visam ao lucro, parar é desperdiçar tempo e chances de adquirir artigos menos importantes. Quem realmente pode ou não se aflige ao desfrutar desse recurso exclusivo tem um pouco de luxo em sua vida.

Além de tempo, personalidade própria também é algo a se considerar um artigo de luxo. São poucos aqueles que conseguem, mesmo com toda a influência das mídias, das dificuldades da vida, dos discursos sedutores, manter a individualidade - a propriedade de ser único e ter também idéias próprias -, sem que essa característica se alie necessariamente ao egoísmo. Há uma tendência de os seres humanos naturalmente se guiarem pelos seus semelhantes, o que não é ruim, nem condenável. Entretanto, a maioria acaba se acomodando a essa situação e dependendo quase que totalmente das ações de seus grupos religiosos, sociais, econômicos, políticos. Essa acomodação acaba por descaracterizar os homens como indivíduos e torna-os o que popularmente se chama de "massa de manobra", fazendo com que a personalidade própria seja uma raridade.

O luxo, portanto, não se restringe a bens materiais e fúteis. Ele pode ser muito bem-representado pelo tempo livre, do qual determinadas pessoas sequer ouviram falar, bem como pela individualidade, pela capacidade de não só seguir, como também criar tendências e idéias e ser reconhecido por elas. Desse modo, pode-se dizer que pensar, refletir, indagar é também um luxo, visto que, para isso, é necessário tempo e ponto de vista próprio.


(Publicado na Antologia do Velho Casarão da Várzea, impresso do CMPA, no ano de 2008, quando eu estava no 3º ano do Ensino Médio. Também publicado no Jornal da Redação do curso Unificado, na edição de Junho de 2008 - ano 12, nº 39.)

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Fora de contexto, minha redação ficou meio retardada, mas acho que dá pra entender o espírito da coisa... O tema era, obviamente, "luxo". Eu estava no 3º ano do Ensino Médio, há muito tempo... em 2008. ;D
A redação do outro simulado do Unificado foi publicada em outro Jornal da Redação, pra minha felicidade. Mas... fica pra próxima. Ai, aquelas aulas com o Wolf...*-*
(Nem posso falar, matei muitas.:B)

Ah, a pessoa da imagem é a Coco Chanel, pra quem não conhece.

Jaa!o/

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Carta de Não-Suicídio

[por Luísa Vanik]

Destino essa pequena carta a aqueles que culpo diretamente pelo meu não-suicídio: minha família e amigos.

Informo-os desde já os motivos pelos quais venho me não-suicidando. Começando pela razão supracitada: o fato de vocês serem tão imperfeitos e não me compreenderem durante cem por cento do tempo. Isso me obriga a procurar cada vez mais pessoas que tenham algo em comum comigo. Pessoas que preencham as lacunas deixadas por vocês. Assim, meu círculo e minha variação de tipos de amigos aumenta, do mesmo modo, cada vez mais; conseqüentemente crio mais laços, algo que praticamente me obriga ao não-suicídio!

Outro motivo para esse ato (ou não-ato) é o mundo. O mundo é deprimente, considerando sua situação geral. Veja bem: as pessoas se odeiam, vivem na miséria material e na miséria intelectual ou espiritual. Elas fazem mal aos outros e a si próprias e depois não entendem porque suas vidas andam para trás (ou simplesmente param). Aí sinto um aperto imenso no coração, um misto de raiva e vontade de fazer algo para melhorar o mundo – então vem à minha cabeça a louca idéia do não-suicídio, novamente...

O que também me provoca essa vontade insana é a minha própria situação. Não nasci rica, superdotada, bonita e plenamente satisfeita na vida. E, como se não bastasse, o passar do tempo não me espera decidir por onde começo! Agora vocês entendem, não é? É inevitável essa fixação pela idéia de não conceder a morte a si mesmo. Acabo sentindo um crescente desejo de buscar tudo o que não tenho...

Por último motivo – e talvez seja este o mais poético -, tomo a janela de meu apartamento de terceiro andar. Neste exato momento, olho-a com um pensamento insensato. Lembro-me de pessoas que vivem a alguns seis ou sete andares acima do meu e também olham para a janela, mas com outro tipo de idéia. E então reflito: onde está a poesia em mergulhar no concreto sujo das ruas, em meio a carros barulhentos e transeuntes indiferentes? Ainda prefiro minha idéia não-suicida de olhar para o céu e imaginar mil coisas que possam me ajudar a alcançar as nuvens alaranjadas do pôr-do-sol, sem ter que para isso chegar perto do trânsito e dos passantes.
É, parece-me mais razoável o meu doido suicídio ao contrário. Talvez meu próximo passo seja propor um não-suicídio coletivo...

Sem mais considerações a fazer, saúdo-os com um enérgico “olá, mundo cruel; aqui estou para desafiá-lo (e sensibilizá-lo, se o senhor permitir)”...


(Publicado na Antologia do Velho Casarão da Várzea, impresso do CMPA, no ano de 2006, quando eu estava no 1º ano do Ensino Médio.)

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Texto antigo, mas vale ainda.
Ainda mais depois que duas cadeiras diferentes decidem cobrar "Os Sofrimentos do Jovem Werther", do seu Goethe...:S
O Werther é um chato, assim como todos os indivíduos com tendências suicidas. Tanto que a minha interpretação para o suicídio do Werther não tem nada a ver com o amor impossível pela Charlotte. É só egoísmo mesmo. Tanto que ele resolve se matar próximo ao Natal, com uma sordidez impressionante, pra dar um impacto maior. Ele chega a se regozijar em antecipação só de pensar nas lágrimas que a sua querida Lotte vai derramar por ele. Ah, vá a merda. Isso não é amor.:P

Mas esse até é um bom livro. Tem alguns momentos de reflexão e de análise do amor bastante encantadores.:)

Jaa!o/

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Ninguém que ficar só

[por Luísa Vanik]

Existe, nas sociedades humanas, uma cultura de supervalorização do relacionamento conjugal. Em decorrência disso, as relações entre indivíduos freqüentemente acabam se estabelecendo sobre os princípios da hipocrisia e da comodidade, o que resulta em sentimentos de insatisfação emocional, e pode criar para as pessoas uma impressão negativa de uma associação humana que deveria ser encarada com prazer e alegria.

A idéia de que “socialmente correto” é nunca estar sozinho tem explicação racional. A combinação de indivíduos sempre foi uma estratégia biológica, com a finalidade de principalmente gerar descendência; desde a Antigüidade Oriental até tempos mais recentes, sabe-se que as uniões, para os nobres, também tinham parte no estabelecimento das relações de poder e, para o povo, representavam uma estratégia de sobrevivência no mundo. Essas concepções de casamento como “necessidade” ou como “ferramenta de domínio” continuam, mesmo que inconscientemente, arraigadas no imaginário humano. A sociedade de hoje concebe o relacionamento entre duas pessoas como prova irrefutável de competência fisiológica; afinal, se uma pessoa é capaz de se unir a outra, ela cumpre teoricamente o seu papel na perpetuação da espécie. Por conta disso, criou-se o mito de que o “casal” seria uma entidade superior ao “indivíduo”, e, portanto, para que um sujeito se realizasse como ser humano, seria necessária a sua união a outrem.

Por conseqüência dessas idéias, muitas pessoas assumem relacionamentos sem estrutura para tal, crentes de que se completarão com a outra pessoa, independente da qualidade dos sentimentos envolvidos. Na prática, esses indivíduos frustram-se ao descobrir que os sentimentos de necessidade, curiosidade e interesse que os uniram não são suficientes para manter uma relação baseada em carências individuais e reconhecimento social. Por comodidade, muitos prosseguem com a convivência. Disso decorrem as crises de auto-estima, os assomos de egoísmo e as traições, como forma de punição ao outro – por não corresponder às expectativas de tornar feliz o seu par – e a si próprio – por não ter sido capaz de alcançar a satisfação plena, o que deveria ter ocorrido pelo simples fato de ser cumprida a convenção de se unir a alguém.

O culto ao pareamento de pessoas deve ser, portanto, analisado com certo cuidado. Embora a tendência de associação entre indivíduos cumpra um papel importante na História da humanidade, o costume de ver o casamento como atestado de competência social e como reduto de soluções e felicidades frente às carências e questões individuais pode ser nocivo para todos os envolvidos. Uma relação que requer a anulação de sentimentos individuais não sobrevive aos menores atritos.



Fazia um tempinho que eu não tinha que escrever uma dissertação...@_@
Devido às comemorações de Dia dos Namorados, acabei tendo idéia para esse tema.
Antes que venham as pedras, as cruzes e os insultos, um esclarecimento: não sou contra relacionamentos (o que seria uma completa burrice, se fosse o caso). Sou contra relacionamentos convencionais, que se dão por moda, necessitam de aprovação alheia e se baseam meramente na idéia de "vamos fazer, já que tá todo mundo fazendo". Tenho até um certo romantismo por acreditar em amor único e verdadeiro; contudo, não consigo acreditar que seja possível encontrá-lo na primeira esquina disponível.
Fora isso, sou solteira e mal-amada - e uma das tantas que se deprime com o Dia dos Namorados.;)

Jaa!o/

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Limpeza

[por Luísa Vanik]

A casa estava suja. A Senhora ainda estava parada na entrada quando viu as partículas de poeira flutuarem diante de seus olhos amendoados. Piscou algumas vezes para que seus cílios dourados repelissem aquilo. Sabia que ele não seria capaz de mudar um alfinete de lugar depois que ela fosse embora. Como era previsível! A sala estava abarrotada de jornais empilhados; os balcões, cobertos de louça não lavada e latas de refrigerantes. O piso... ah! Ela não queria olhá-lo, mas foi inevitável. A madeira, outrora brilhante, estava opaca; o pó formava quase um tapete. Havia até cinzas de cigarro caídas. Aquele lugar estava parado no tempo.

A mulher jogou sua cabeça para trás, num gesto que lhe era característico, fazendo com que as pontas de seus louros e lisos fios de cabelo – agora um tanto curtos – roçassem em seus ombros nus. Ela sentia cócegas e se acalmava momentaneamente com a sensação. A Senhora largou as sacolas que tinha em mãos no chão da sala e prosseguiu com sua inspeção pela casa. Ele não voltaria tão cedo; era seu horário de trabalho. A gaiola do canário estava vazia de vida, mas o homem não se dera ao trabalho de limpá-la e guardá-la. O mesmo se podia dizer das violetas murchas na janela.

Um dia houvera amor ou algo semelhante, pois ela bem sabia apreciar as qualidades dele. O problema é que jamais aprendera a apreciar os seus defeitos. Não sabia como lidar com o ódio que sentia pelos pequenos escárnios do cotidiano, como na primeira vez em que ele a chamara de Senhora, por brincadeira. Ela tinha apenas três anos a mais! Talvez, para ele, parecesse uma boa piada dizer que havia se comprometido com uma “coroa”. A mulher se olhou no espelho ao lado da escada: seu corpo era esguio, sua estatura média. Ela se esforçara para manter aquelas proporções, mas havia cometido o pior dos pecados: nascera antes dele. Não só isso. Preocupava-se com a carreira e com a casa – e dava conta das tarefas. Talvez se preocupasse demais mesmo; era a maldição da competência. Esperava que ele também tivesse ambições e que também fizesse o possível para conseguir alcançá-las. Contudo, sua maior pretensão era conseguir ir ao bar depois do serviço. Não queria crescer; queria um diploma medíocre, um emprego estável, uma esposa conivente. Ou melhor, não queria uma esposa, mas uma mãe. Alguém que lhe dissesse a hora de dormir, de acordar e de criar juízo. Estava cansada daquela vida de babá. Ela queria só um companheiro.

Quando subiu as escadas e entrou no quarto de casal, o salto do seu sapato parou de fazer o barulho de madeira contra madeira. A Senhora olhou para os pés e viu um bolo de fotos espalhadas pelo chão, retratos de uma vida aparentemente feliz. Como era fácil fingir que estava tudo bem! Alguns anos se passaram e os sorrisos pareciam os mesmos. Claro que parte da culpa era dela; havia deixado passar tantos comentários, tantas pequenas traições, tantas grandes traições... O descaso dele seria inevitável. Já iniciaram o relacionamento morando naquela casa, que ela adquirira após seu primeiro bom negócio; nunca construíram nada juntos, tudo sempre foi fácil demais. Agora era hora de fazer uma faxina.

A Senhora abriu a última gaveta de sua penteadeira com seus longos dedos, de unhas pintadas na cor de grafite, e recolheu alguns documentos. Abriu a bolsa que trazia a tiracolo e guardou-os. Encaminhou-se para o banheiro, abriu o armário com espelho, pegou o batom de sua cor preferida, páprica, e passou-o sobre os finos lábios. Raramente o havia usado, já que não era a tonalidade predileta dele. Combinava bem agora com a sua blusa alaranjada. Ela sorriu. Foi até a cozinha de azulejos brancos – agora amarelados pela falta de cuidados – e abriu a geladeira. Refrigerantes, comida congelada e algo na gaveta das verduras que fez com que suas narinas se estreitassem mais do que o comum. Nada de importante. Nem na lavanderia, nem no quarto onde ela amontoava seus pertences da infância... Não havia nada de importante naquela casa, a não ser a luz do sol da tarde, que entrava pela janela da sala ultrapassando as cortinas das quais ela tanto gostara um dia. Agora elas cheiravam a tabaco e lembravam o dia em que ela o encontrara naquele sofá verde-musgo com uma outra mulher. Já o havia perdoado. Tanto fazia; ele não era mais ninguém. Era apenas uma partícula de poeira flutuante na sua vida.

A mulher abriu os pesados embrulhos que deixara largados no meio da sala. Refez toda a sua trajetória pela casa derramando o produto de odor característico sobre os seus adorados móveis de cerejeira e o chão de tacos. Com certeza o cheiro melhoraria como sempre melhorava. A Senhora normalmente limpava não porque sentia prazer nisso, mas porque a imundície lhe incomodava profundamente; porque a idéia de viver em um ambiente infecto lhe causava asco. Aquele homem bem sabia disso, mas não se importava. Era mais viril zombar e fingir indiferença. Tudo bem, ela limparia a sujeira dele de bom grado, mas seria a última vez.

Quando a Senhora finalmente atingiu a varanda, ela suspirou aliviada. Havia terminado. Juntou a sua bolsa, saiu da casa e, antes de trancar bem a porta, jogou para dentro alguns fósforos acesos. As labaredas só se pronunciaram bem mais tarde.

Pronto; agora a casa estava limpa.


[Baseado no conto "Apelo" de Dalton Trevisan.]

Ficção para a disciplina de Produção Textual.
Hmmm... Creditem?:D

Jaa!o/


quarta-feira, 13 de maio de 2009

Projeto Purgatório

[Escrito por Luísa Vanik]

Existem várias maneiras de se educar uma pessoa. Para indivíduos diferentes, métodos diferentes. Contudo, existe um método que é aplicável a quase todos os seres humanos relativamente normais que não conseguem se disciplinar na base da conversa amigável: o da vergonha e da culpa.

Quando era pequeno, minha mãe raramente se utilizava da força física para corrigir as minhas faltas. A sua tática também não incluía Deus, nem meu pai, nem o padre ou qualquer semelhante. Para efeitos didáticos, minha mãe aumentava drasticamente o problema, fazia-o parecer gigante, assustador e... vergonhoso. Passava o dia falando sobre o assunto; incentivava os adultos à volta a me reprimirem também, e isso era sempre o pior – os olhares de reprovação lançados sobre o criminoso. Antes do fim do dia eu já estava implorando para que ela me batesse e me proibisse de jogar bola com os amigos.

Nunca pretendi ter filhos, nem ser professor, mas quando vim morar na capital, em um enorme complexo de apartamentos de tamanhos variáveis, compreendi a utilidade que poderia ter tal conhecimento. Na época, trabalhava ainda como mero auxiliar em uma das rádios locais, ajudando nas pautas de programas, calibrando equipamentos, servindo cafezinho e fazendo papel de escravo para os produtores e radialistas. Era solteiro e de poucos amigos, nunca fui de socializar. Meu primeiro lar fora da casa materna foi uma kitchenette – pequena, mas confortável e, principalmente, minha -, em um prédio ironicamente nomeado “Paraíso”. Na condição de morador desse prédio, conheci o verdadeiro inferno.

Morar em um apartamento significa estar cercado de estranhos por todos os lados.

Sobre a minha cabeça, por exemplo, vivia um casal que, de segunda a domingo, das onze e meia até às quatro da manhã, se divertia com a mais antiga brincadeira adulta da humanidade. Não em silêncio, obviamente. Todos os dias, minhas horas de sono eram retardadas ou interrompidas por demonstrações efusivas e extáticas, com direito a batidas ritmadas por um pé de cama desnivelado. Já é difícil aceitar que as pessoas façam sexo quando você não pega nem um resfriado; ser então parte de uma orgia sem corpo presente é ainda mais frustrante. E, poxa, todos os dias!

Eu ignorava que alguém no andar imediatamente abaixo do meu pudesse causar algum problema. Apenas quando fui recolher pela primeira vez minhas roupas penduradas no varal exterior e senti um cheiro inconfundível de mato queimado, misturado com incenso vagabundo de patchuli é que me dei conta de que estava redondamente enganado. A vizinha do quinto piso era hippie, para minha satisfação.

Meus vizinhos adjacentes também não facilitavam a convivência: de um lado, um criadouro de cães, cujo odor chegava a atravessar as finas paredes em certos dias; do outro, um incorrigível fã de rap, sendo que todos sabem que a qualidade do gosto musical é inversamente proporcional ao seu volume.

A fauna era tão prolífica que eu sentia pena da síndica. Provavelmente sou a única pessoa do mundo que sente pena do síndico, aquele carrasco responsável por mandar o volume da festinha abaixar, por pedir que as pessoas não deixem seus lixos nos corredores do prédio, por avisar que a reforma do telhado vai causar um aumento na taxa do condomínio, por tentar conter os ânimos na reunião de condôminos.

Ah, a reunião de condomínio! É nessa agradável confraternização que você conhece o rosto dos seus algozes, e descobre que mora com criminosos em potencial (ou em atividade mesmo). Nunca vá a uma reunião dessas quando a sua fé no bom senso da humanidade estiver baixa. Foi numa dessas que tive a primeira idéia para meu projeto.
Já com três anos de trabalho na rádio, alguns programas relativamente populares no currículo, os chefões permitiram-me criar e conduzir uma atração para o horário do almoço – uma concessão e tanto.

A idéia surgiu, como eu disse, em uma reunião de condôminos. Fui acusado de ferir o gato fugitivo da senhora do oitavo andar. Os adesivos antigato especialmente colocados no meu tapete da frente da porta haviam funcionado. O “pobre Sultão” estava sem alguns chumaços do pêlo. Eu, em contrapartida, amanhecera os dias anteriores sem os excrementos do animal premiando meu capacho. Tive que ouvir um discurso de vinte minutos sobre como meu ato criminoso havia tornado Sultão um gato traumatizado; contive-me para não responder com um sermão de mais vinte minutos acerca de como pessoas insuportáveis são dadas a animais de estimação, já que estes não podem expressar opinião e abandoná-las por sua chatice, diferente de humanos. Por Deus! Estive a ponto de dizer que talvez Sultão estivesse querendo passar um recado bem claro com sua fuga, pra início de conversa...

Mas foi só quando um dos vizinhos do sétimo andar, recém-chegado, pai de duas crianças, voltou-se para o casal do meu andar superior é que eu percebi o que poderia ajudar a regrar aquele galinheiro. Disse ele em alto e bom tom: “Vocês dois poderiam ser mais silenciosos nos seus momentos de intimidade, pois as crianças já estão ficando assustadas com os gritos da vizinha”... Todas as atenções se voltaram para a cena. Os namorados pareciam Adão e Eva tomando consciência de sua nudez pela primeira vez. O vizinho foi contundente e continuou, apenas para garantir que sua mensagem fosse clara o suficiente: “É vulgar, e nenhum de nós tem obrigação de ouvi-los”. Senti minha alma sendo lavada e acrescentei : “Sugiro que vocês ponham um tapete sob a cama”...

Foi assim que surgiu o “Projeto Purgatório”, meu programa diário na rádio, “o serviço mais eficiente de reabilitação de vizinhos sem noção”.

O produtor chegou a me perguntar: “Tony, você acredita mesmo que isso vai servir pra algo além de atrair uma audiência absurda por causa dos ‘barracos’”? Ao que lhe respondi: “Por que não? Recebemos a ligação de um delator, mandamos alguém atrás do criminoso. Se ele admitir o erro e mudar, uma semana ou um mês ou um ano depois voltamos para averiguar a situação e lhe damos uma premiação – se não, o prêmio fica com o vizinho que fez a denúncia. Você já assistiu àquele programa em que a babá ajuda a educar a família? Pois é”...

Diante dessa esquematização, minha proposta foi aceita e meu primeiro programa do projeto foi ao ar. Na triagem da primeira edição, recebemos um telefonema interessante: “Olá. Gostaria de denunciar meu vizinho, Jan Koller. Todas as manhãs em que acordo mais tarde, ele rouba o jornal da minha porta. Vocês podem não acreditar nisso – nem eu acreditava no início -, mas passei a controlar e cheguei a instalar uma câmera em frente à minha porta – tenho os vídeos gravados. Espero que este programa me ajude a reeducar esse homem”.

A equipe decidiu fazer uma pesquisa primorosa antes de gravar o programa. A narração de todo o caso foi feita por mim da seguinte forma: “Jan Koller, 45 anos, é um homem aparentemente comum que trabalha na peixaria ‘Do Mar’, da rua 727. Sua vida como vendedor, no entanto, parece não satisfazer aos seus desejos mais obscuros, os quais ele prefere suprir com uma tara absolutamente condenável: o roubo dos jornais de uma senhora que acompanha agora este programa, a fim de se ver vingada de sua injúria. Agora, quantos de nós já não sofremos com a subtração de itens deixados à porta de nosso próprio lar? Quantos de nós não tivemos que suportar a humilhação de nos vermos furtados de objetos que adquirimos com nosso suado dinheiro, fruto do trabalho e do esforço próprio? Esse senhor, como criminoso que é, será por nós, do ‘Projeto Purgatório’, interpelado neste momento”. Em resumo, depois de alguns momentos realmente tensos, com intervenções da própria delatora, o senhor Jan confessou o pecado e prometeu não repeti-lo. “Esperamos que a promessa se faça real, pois o processo disciplinar não se restringirá a esse momento apenas... O ‘Projeto Purgatório’ e todos os envolvidos no caso do senhor Jan Koller continuarão a monitorar, por tempo indeterminado, as evoluções de comportamento deste criminoso em reabilitação. Façamos desse vizinho um homem melhor de se conviver”.

Depois da repercussão do programa, chegamos a adicionar uma mensagem padrão para incitar as pessoas a contribuírem: “Você tem alguma reclamação, alguma história pendente com a pessoa que mora ao seu lado? Ligue para a central do ‘Projeto Purgatório’ e nós analisaremos o seu caso. Porque já que a convivência entre vizinhos é inevitável, vamos torná-la algo suportável”!
O programa continua fazendo sucesso até hoje, o que prova que muitos indivíduos ainda têm algo a aprender como vizinhos. E existem várias maneiras de se educar uma pessoa sem noção. Mas, certamente, a mais eficiente é a da culpa e da vergonha.


[Conto baseado na reportagem de título “DELAÇÃO DE VIZINHOS VIRA SENSAÇÃO DO RÁDIO NA REPÚBLICA TCHECA”]
Mais uma ficção, escrita para a disciplina de Produção Textual lá da faculdade.
Copyright dessa porcaria, né?;)

Jaa!

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Certificado de Perdedor

Reza a lenda que o prezadíssimo senhor H. residia em um muquifo situado numa larga avenida da cidade, de frente para a poluição sonora e de lado para a vista do próximo prédio.
Nunca o arrumava, pois sabia que cedo ou tarde acabaria mergulhado na sua própria bagunça novamente. Os bolos de poeira se acumulavam pelos cantos. A gordura das paredes já havia virado parte da pintura. De vez em quando ele tinha acessos de alergia, micoses, encontros com insetos variados, mas nada que os antibióticos e anti-histamínicos não resolvessem.

O senhor H. tinha um diploma bastante pomposo - ninguém (nem mesmo o próprio H.) sabia muito bem de quê -, pendurado na parede, ao lado de um outro certificado qualquer, e dava aulas. Sim, ele professava seus grandes conhecimentos aprendidos e fixados há cerca de duas décadas com orgulho. Aquele diploma já o havia salvado diversas vezes, era um grande companheiro seu frente às adversidades da vida e do mercado de trabalho.

O homem se dizia uma vítima do ritmo frenético do cotidiano em uma cidade grande, uma vítima do capitalismo enlouquecido, uma vítima daquela sociedade desigual, uma vítima de sua memória envelhecida, falha e corrompida, uma vítima de sua ex-mulher. Enfim, era ele, uma vítima. Incapaz de se adaptar aos valores modernos, ele permanecia mergulhado no seu saudoso passado, a época do 'paz e amor', das discotecas, do amor livre e dos embalos de sábado à noite. O que havia acontecido àqueles anos dourados?

O senhor H. não conseguia concluir nada do que iniciava. Não lhe interessava isso, ele não conseguiria de qualquer modo. Os cursos que havia iniciado estavam parados na metade; desistira pois queria mudar de horizontes. As pessoas a quem ele professava os seus ensinamentos eram muito apressadas; queriam concluir tudo algum dia, onde já se viu? Por isso acabava desistindo de seus empregos, mudando constantemente. Era um espírito livre, oras! Merecia mais do que um trabalho contínuo e entediante, uma vida difícil e repleta de obstáculos financeiros. Merecia mais, não era como os outros.

Ele já trabalhara em vários lugares, mas, como todo o gênio, não conseguira fazer aceitar seus métodos e seus horários (e já recusara tantos empregos por essas limitações de visão dos empregadores!). Vinha, tão paciente, passar seu conhecimento, sua experiência de vida àqueles jovens aprendizes; quanto mais, no entanto, ele professava, mais vorazmente os alunos lhe vinham com questionamentos - como gafanhotos, ele pensava, como gafanhotos. Para compensar os dias em que os bombardeios de perguntas eram maiores, ele se ausentava nas semanas seguintes. Eles deveriam compreender que aquele não era o seu ritmo! Aos poucos, além de todo o resto, o senhor H. estava se tornando vítima também de seus estudantes.

Toda essa gula, todo esse desespero jovem de saber e enumerar conhecimentos lhe causavam aflição, pois passava horas depois relembrando tudo o que não havia conseguido responder. Sentia-se inútil, impotente, perseguido e condenado, procurava alento em vícios diversos, alento que nenhum ser humano lhe conseguiria dar, pois era incompreendido por seus semelhantes. Via o mundo de ponta-cabeça, deprimia-se, cantava, chorava, colocava o som no último volume, perturbando a vizinhança, ria sozinho.

Acordava envergonhado, sentia-se o rei nu.
Na caixa de correio, a intimação da Justiça para pagar a pensão; na porta, um comunicado do condomínio pedindo que respeitasse o horário de silêncio; no computador, centenas de e-mails não-lidos de amigos, de alunos, de colegas. Na parede, o seu diploma, ao lado do seu certificado de perdedor.


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Minha autoria.:D
Se quiserem divulgar (olha a pretensão da criança!), ok, mas não creditem a outros autores. E se possível linkem.
Méh!;)

Jaa!