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domingo, 15 de maio de 2011

Pokémon em Tradução II

Esta sou eu atrasando postagens no meu próprio blog, mas vamos lá...
Na postagem anterior falei sobre os pokémons com nomes onomatopéicos; nesta, vou falar daqueles com nomes que fazem referência a personalidades. E dos humanos também!

Na primeira leva, temos os pokémons psíquicos Abra (#063), Kadabra (#064) e Alakazam (#065). Em japonês: Casey (ケーシィ Keeshii), Yungerer (ユンゲラー Yungeraa) e Foodin (フーディン Fuudin). Acho que fica claro que esse estranho padrão de nomes não é baseado em onomatopéias. 
O Casey faz referência a Edgar Cayce, um médium/psíquico (acabo de me dar conta de como as traduções de psychic são pouco explicativas no português...:P) americano. 

Edgar Cayce, eu escolho VOCÊ!
Yungerer vem de Uri Geller, místico israelense daquela escola de “místicos” (ou mágicos/ilusionistas, dependendo do seu ponto de vista) que gosta de dobrar colheres com a força do pensamento. 

Kadabra: uma mistura de Uri Geller e homem do Rá!
E o Foodin? Esse é o melhor: o nome dele foi baseado no do ilusionista Harry Houdini, transcrito em japonês como ハリー・フーディーニ (Harii Fuudiini). Eu explico como “HOU” virou “FUU”: em japonês, esta letrinha representa um som que pode ser transcrito como FU ou como HU – mas, na verdade, não é nenhum deles, e sim um intermediário, [ɸɯ] pelo Alfabeto Fonético Internacional (IPA). 

Houdini usou Escape. Foi superefetivo!
 Em inglês, os tradutores optaram pela referência mais óbvia a palavras místicas do que a nomes de mágicos. Eu gostei da tradução, mas particularmente acho que os nomes em japonês tem um aspecto que desperta mais a curiosidade. E essa escolha até se assemelha à das nomenclaturas científicas de espécies, em que você vê cientistas ou celebridades tendo seus nomes em insetos, plantas, etc.: John Cleese foi homenageado em um lêmur (Avahi cleesei), Angelina Jolie, em uma aranha (Aptostichus angelinajolieae) e FUCKING Darth Vader (!!!), em um besouro (Agathidium vaderi). 
Mas sou bem suspeita em ter essa opinião; não entendi as referências de primeira e tive que pesquisar, o que me trouxe algumas epifanias felizes. Fico imaginando se os próprios japoneses fazem idéia desses trocadilhos superinteressantes...:D

O esquema de referências a personalidades não pára por aí! E ele se mantém em inglês com o Hitmonchan (#107) e o Hitmonlee (#106), os pokémons lutadores. Se você não captou a referência aqui: Jackie Chan e Bruce Lee. Acontece que em japonês os pokémons se chamam, respectivamente, Ebiwalar (エビワラー Ebiwaraa) e Sawamular (サワムラー Sawamuraa), a partir de Hiroyuki Ebihara (海老原 博幸), boxeador japonês, e do kickboxer Tadashi Sawamura (沢村)

Acima retratados de modo pitoresco: Hitmonchan e Hitmonlee, em boa forma e sem vigorexia.
Os nomes dos personagens humanos também foram traduzidos. Como eu já falei, tenho alguns problemas com a tradução de nomes próprios, mas... tenho que reconhecer que houve um certo esforço dos tradutores nesse quesito, apesar de não aprovar algumas coisas.

A Equipe Rocket é composta, na versão em inglês, por Jessie e James, nomes tirados do famoso criminoso e pistoleiro norte-americano Jesse James (1847-1882). Em japonês, a referência não é bem a criminosos, mas certamente a figuras bem ilustres... 
Jessie é Musashi, de Musashi Miyamoto (宮本武蔵, 1584-1645), célebre samurai, espadachim famosíssimo por sua técnica particular com duas espadas e por suas filosofias e reflexões acerca da vida, de estratégias de batalha, etc. 
James é Kojirô, de Kojirô Sasaki (佐々木小次郎,  1585?-1612), poderoso espadachim, famoso por... ter morrido em uma batalha contra Musashi. :D

Jesse James, a equipe de um homem só. (Sim, essa foi apenas uma desculpa para colocar uma imagem bonita aqui.)
Pois bem, da equipe humana da primeira temporada de Pokémon, temos Ash Ketchum, que na versão original é o Satoshi. Em quem ele teve seu nome baseado? No próprio criador da série, Satoshi Tajiri, que era fascinado por colecionar insetos quando criança – dizem as más línguas que agora ele coleciona Pokémons. 
O arquiinimigo do Ash, o Gary (ou Putinho, se você não queria usar o nome padrão do jogo), na verdade se chama Shigeru na versão japonesa. Baseado em ninguém mais ninguém menos que... Shigeru Miyamoto, ídolo e sensei do Satoshi Tajiri, mais conhecido por ser o FUCKING CRIADOR DE MARIO, DONKEY KONG, ZELDA, ENTRE OUTROS. PORRA. E segundo o próprio Tajiri, o Ash nunca vai superar o Gary. Porque o Gary é o Shigeru. E porque o Shigeru é o cara

Shigeru Miyamoto fazendo o que ele faz melhor, você sabe: being awesome.
Ok, parando com o momento fangirl histérica, me resta falar da Misty e do Brock. A verdade é que não há muito o que falar da Misty, ou Kasumi; “kasumi” em japonês é névoa, então nesse caso a tradução se aproximou um bocado. Já o Brock, ou Takeshi, tem um nome um tanto comum em japonês, e o fato de todos os nomes de personagens serem escritos com as letrinhas do alfabeto fonético, katakana, não me ajuda muito quanto aos significados. Existe uma infinidade de ideogramas que podem ser lidos, em nomes próprios, como “Takeshi”, e muitos se relacionam a coragem, alta estatura, bravura, etc. Aliás, o Brock era um dos meus protagonistas preferidos!:D

Imagem necessária.xD
Ah, por fim, o Professor Carvalho ou Professor Oak – nas minhas pesquisas, descobri que ele tem um primeiro nome e esse nome é Samuel (o.O). Na versão original, Yukinari Ookido (オーキド・ユキナリ); “yukinari” é abrupto, repentino; “ookido” é de orquídea, provavelmente. Seria esse um erro de tradução? Afinal a sonoridade de “ooku” (carvalho) e “ookida” (orquídea) carrega algo de semelhante... 
Eu pessoalmente acho que não é um erro, mas uma adaptação. O valor semântico é aparentemente maior em carvalho, uma árvore, do que em orquídea, uma flor. Um carvalho dá uma idéia de força, robustez e, por que não dizer, virilidade – e, afinal, não estamos esperando que esse jogo cative um público majoritariamente masculino? Seria bem difícil convencer uma audiência ocidental da virilidade de uma flor – por mais que “orquídea” venha do grego órkhis, que significa testículo.

Acima: uma árvore muito macho. Pega no meu carvalho.
E aí? Professor Carvalho ou Professor Orquídea?

Essa figura contém uma mensagem subliminar que logo será apontada por padres e pastores.
(Como diz um amigo meu, sob certa perspectiva, um buquê de flores é um belo ramalhete de órgãos sexuais decepados. Durmam com essa agora!)

Isso é até onde vão meus conhecimento pokemonísticos.
Ah, nostalgia, nostalgia... e vontade de jogar!:)
Jaa~!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Pokémon em Tradução I

É, no mínimo, interessante - como tradutora/estudante de tradução - notar que quando um produto envolve o público infantil, os tradutores decidem versar o nome de certos personagens. Harry Potter é um exemplo clássico. Eu tenho que admitir que, como leitora, ODEIO essa prática. Claro, tem o mérito de tentar trazer para a nossa língua um trocadilho infame e oferecer uma informação interessante sobre aquele personagem. Mas não deixa de ser uma simplificação da sonoridade – e, às vezes, a sonoridade é mais interessante que o significado. 

Bom, mas sem entrar em uma discussão mais feroz sobre escolhas tradutórias, o fato é que os produtos infantis/infanto-juvenis são cheios dessas adaptações de nomes. Para quem assistiu a animação da Disney Enrolados (Tangled) na versão dublada em português, o personagem originalmente nomeado de Eugene Fitzherbert virou José Bezerra. Eu me pergunto qual foi o critério usado para definir o nome... Será que foi o Gerador da Improbabilidade Infinita do Guia do Mochileiro das Galáxias? Ou será que só eu não consigo enxergar uma correlação semântica/fonética/referencial entre um nome e outro? 
Pois bem.

O Pascal não aprovou essas mudanças de nomes.

 Acho que uma das maiores surpresas da minha vida foi a descoberta de que os nomes dos pokémons em japonês eram diferentes da versão que víamos no Brasil (tanto nos jogos como na televisão). Descobri isso por uma das várias versões de PokéRap que tem por aí, a versão em japonês do Pizzicato Five. 
Ah! Atenção: quando falo em pokémons, refiro-me à primeira e à segunda leva, porque foi até onde eu fui da série e dos jogos.

O rato elétrico que provocou epilepsia em algumas crianças japonesas, Pikachû, teve seu nome mantido. Pelo menos graficamente. Originalmente, a pronúncia é mais ou menos como PikaTCHÛ, não Pika, como ele ficou popular por aqui. Tanto faz. O interessante é notar que o nome deriva de duas onomatopéias: pikapika, onomatopéia de coisas brilhantes/reluzentes; e chû, o som feito pelos ratinhos. 

Vários pokémons seguem essa regra da onomatopéia. Aliás, japoneses adoram onomatopéias, até para coisas que não fazem som, como... o silêncio (!!!). (A “onomatopéia” de silêncio é shiin, antes que me perguntem...)

Outro exemplo é um dos meus preferidos: o Vulpix, e sua evolução, Ninetales. Em japonês, Vulpix é originalmente Rokonro de “seis” (referência ao número de caudas) e kon de “konkon”, o som que as raposas fazem. O Ninetales é Kyukon, sendo o kyu de “nove”.

O mesmo acontece com o célebre Miau ou Meowth ou Nyaasu, o pokemon da Equipe Rocket. No Japão, os gatos fazem nyaa. A tradução, nesse caso, seguiu a mesma lógica em todas as línguas.

Também os pokémons Grimer e Muk, aqueles melequentos, no original são Betobetaa e Betobeton, respectivamente - betabeta é a “onomatopéia” de coisas grudentas e pegajosas.

Mas não só de onomatopéias vivem os nomes desses bichos! Vou continuar esse assunto na próxima postagem, até porque os nomes dos personagens de Pokémon dão muita história...
Até a próxima!o/

Vou continuar na próxima postagem também porque um Snorlax selvagem apareceu pra bloquear minha mente.