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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O gato mais mordaz da cidade

Aproveitando que ontem (22/02) foi o Dia do Gato no Japão, resolvi inaugurar a seção de literatura japonesa hoje.
Eu queria começar por um livro fininho (porque eu sei que vocês têm medo de livros compridos), mas não vai dar. Eu vou é começar pelo meu preferido, por algo que eu recomendo com carinho – e se eu gosto é porque também não é assim tão difícil de ler. Acho.

O livro de hoje se chama Eu sou um gato (吾輩は猫である Wagahai wa neko de aru), de Natsume Sôseki.
"As patas de um gato parecem não existir, pois por onde passam jamais emitem ruídos incômodos."
A história é baseada em uma premissa muito simples: o mundo sob o ponto de vista de um gato que não tem nome e nasceu em um beco escuro e úmido, mas que sabe que é melhor que eu, você, e todos nós juntos.

Depois de vaguear por alguns lugares e ser enxotado por aquilo que se chama de “criatura humana” (palavras do gato), ele chega na casa de um professor que decide deixá-lo ficar. E o gato decide ficar.
Daí em diante temos a análise constante – e ferina – do professor Kushami (“espirro”) e dos outros humanos que moram na casa ou passam por lá.

O professor Kushami é um sujeito de poucas palavras, com uma certa aura de sabedoria professoral, especialmente quando se tranca no gabinete para ler. Mas o gato tem uma visão privilegiada – e muito ócio sem culpa – para entrar sorrateiramente no cômodo e verificar que o professor lê duas ou três páginas dos compêndios de conhecimento para logo em seguida cair no sono e ainda babar em cima dos livros. Seu estilo de vida faz com que o gato oscile entre considerá-lo excêntrico ou medíocre - mas que tenha certeza quanto a caracterizá-lo como um tanto glutão e bastante neurastêmico.

É interessante notar que ao longo da história, ele vai percebendo no professor algumas características felinas, enquanto o próprio gato vai se identificando com os humanos, embora nunca perca o seu orgulho felino, a ponto de ele afirmar que "(...) em minha cauda carrego não apenas deuses, budas, Eros e Tanatos, mas também a técnica especial passada de geração em geração de enganar toda a humanidade". Tudo isso para se vangloriar daquela habilidade que os gatos têm de poderem se infiltrar nos lugares sem serem necessariamente notados.
Habilidade mais ou menos fatal para pombos gordos de cidade grande.
Pela visão crítica do gato, também acabamos conhecendo a família do professor, constituída pela esposa, por três filhas (Tonko, Sunko e Menko) e por uma empregada (Osan). Ele não é nada favorável na descrição delas, uma vez que, segundo o próprio relato, não só nenhuma demonstra um pingo de afeto pelo gato, como também elas o maltratam infinitamente.
Isso considerando que ele devia ser mais ou menos assim logo no início do livro.:(
Um personagem particularmente engraçado é o Meitei, o amigo pedante do professor, aquele que sempre sabe de tudo, sempre tem uma história de iluminação espiritual, além de conhecimentos ilimitados em nomes e citações de artistas, cientistas e personalidades - e muitas mentiras criadas para rir da cara dos crédulos (como o professor). Pelas palavras do gato: "o esteta era o tipo de homem cujo prazer era enganar as pessoas, descarregando sobre elas coisas sem pé nem cabeça". É o personagem mais sem noção do livro e não perde uma oportunidade de debochar dos outros.

Entre os amigos mais próximos do professor também tem o Kangetsu, um estudante de física, ex-aluno do professor Kushami, agora tentando alcançar o nível de doutor com uma tese sobre "a dinâmica do enforcamento". Ele é o pivô de uma das maiores intrigas na qual o professor Kushami se mete.
Intriga do tipo que envolve espionagem, difamação e guerra psicológica.
O Kangetsu vira objeto de desejo (?) de uma mocinha, Tomiko, filha do empresário Kaneda, que mora em uma mansão na mesma rua que o professor. A fim de saber que tipo de sujeito é o Kangetsu (e se ele é adequado para a sua filhinha), a senhora Kaneda faz o que é mais lógico: suborna a rua inteira para obter informações sobre o rapaz. Quando resolve dar o "carteiraço" no professor Kushami, ele não se impressiona, o que a deixa muito irritada. O professor e o Meitei até decidem liberar umas informações sobre o candidato a noivo, mas só na base da humilhação e das ironias que a senhora Kaneda não compreende nem gosta. O que importa para a mãe é que o Kangetsu vire doutor de uma vez, se ele pretende casar com a honorável patricinha Tomiko...

Só que a senhora Kaneda tem uma característica que chama muito a atenção do gato, do professor e do Meitei. Ela é nariguda (o nome da personagem é Hanako; hana = nariz). E embora eles só comentem o assunto longe da presença da madame, as paredes têm ouvidos.
E são de papel.
O que acontece é que a senhora Nariz sai da casa do professor muito ofendida por não ter tido um tratamento condizente com a sua condição social, e resolve travar uma pequena guerra psicológica com ele. Essa guerra inclui mandar vizinhos para espionarem e gritarem impropérios para o professor, entre outros. (Mas o professor Kushami e o Meitei também não deixam muito barato com uma excelente discussão reflexiva sobre narizes...)

Vale muito a pena acompanhar a vida do professor Kushami, e as interações dele com a família, os vizinhos fofoqueiros, os alunos mal-educados, e os amigos bizarros.

A graça do livro, na minha opinião, é justamente esse julgamento irônico feito por alguém que não possui restrição alguma, ou obrigação com a espécie humana. (E, nesse sentido, dá para comparar com a situação em Memórias Póstumas de Brás Cubas, do Machado: um defunto que já não tem mais nenhuma daquelas restrições sociais então pode contar a história com o nível de crítica que lhe apraz.)
"O Gato-zumbi", uma história de desprezo por Sôseki de Assis.
Os capítulos do livro foram publicados um a um na revista literária Hototogisu ("Cuco"), então é possível sentir uma certa independência entre um capítulo e outro. A parte da intriga com a família Kaneda e o Kangetsu é que acaba se estendendo por mais de um capítulo, mas muitas das peripécias do gato e do professor ficam restritas a um capítulo só.

Dificuldades: a quantidade de citações a intelectuais/estetas/artistas/estadistas que você provavelmente não conhece e o contexto em que as citações aparecem. O tradutor fez o que pôde com as notas de rodapé, mas não dá pra disfarçar que as filosofias e os discursos do trio principal são coisas que fazem mais sentido para quem tem uma mínima bagagem acadêmica. Em alguns trechos a voz do gato nem aparece, pois o foco vai para os devaneios retóricos dos três amigos. (O que me lembra os momentos Quincas Borba dentro do "Memórias Póstumas...".)

O livro se divide entre as próprias experiências do gato e da família, as discussões do trio Kushami/Meitei/Kangetsu, a intriga com os Kaneda e os comentários ácidos do gato sobre tudo isso. As minhas partes preferidas são basicamente essas que o gato resolve comentar algum assunto humano, porque ele nunca nos perdoa.
Rezo todos os dias para que eles não consigam polegares opositores...
Dizem que o Sôseki se descreveu no personagem do professor - o que é interessante, porque a visão que nós temos desse alter-ego é externa. O Sôseki também é o gato. Teríamos aí um legítimo livro de autoajuda?:D

Aproveitando a deixa, na próxima postagem eu falo um pouquinho sobre o autor desse livro, Natsume Sôseki.

  

Eu sou um gato (吾輩は猫である Wagahai wa neko de aru) 
Estação Liberdade
Tradução de Jefferson José Teixeira
Do site da editora


(Para vocês que lêem japonês, achei ISTO durante a minha pesquisa, e agradeço enormemente se algum de vocês souber de uma fonte para ver alguma dessas adaptações.:3)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Bloqueios literários e mimimis de quem quer se eximir da responsabilidade

Eu gosto de escrever resenhas. Afinal, quem não gosta de explicar para os outros sobre assuntos dos quais gosta (ou odeia), né?
Mas eu confesso que evitava fazer resenhas de livros porque, ãhn, não me sentia no direito de discutir literatura. Não me levem a mal: eu gosto de literatura. (Gosto tanto que fui cursar Letras.) No entanto, sempre tive a impressão de ser uma “parede” em discussões de literatura. Ou minha interpretação é óbvia demais, ou eu não entendo nada mesmo, ou a minha interpretação é estranha etc. Geralmente só com uma segunda leitura é que eu consigo depreender alguma coisa que preste do livro - e isso me deixa meio angustiada. Eu sinto que deveria ter uma capacidade mais ampla (e eficiente) de compreensão, uma bagagem literária maior, ou até, sei lá, ser mais articulada para me explicar.

Também muito me aborrece que o pessoal mais fanático da literatura decide que você só é completo depois de ler o cânone deles e de desistir de leitura porcaria*. E eu gosto de leitura porcaria!
(*Literatura porcaria: best-sellers, literatura policial, romances de banca, ficção científica...)
Apesar de que isso foi um pouco além do conceito até pra mim, a rainha da tolerância literária (not).
Fora o fato de eu ter um ritmo de leitura bem lento e de ter muito mais coisa na pilha de espera do que propriamente na pilha de “lidos”. Mas acho que isso é até normal para nós que gostamos de ler.
Talvez eu tenha essa resistência para falar sobre literatura porque falar sobre literatura é se posicionar, mostrar aos outros as suas observações irrelevantes (e ignorâncias) e sair um pouco da zona de conforto. E aprender a não tratar por Otto Maria Carpeux quem te trata como o crítico literário do Diário Gaúcho.
Internas.
O que dizer então de literatura japonesa? Eu só fui ler alguma coisa de literatura japonesa na universidade, porque algum dia a gente tem que criar vergonha na cara, né?
Meu primeiro livro foi A Casa das Belas Adormecidas (眠れる美女 Nemureru bijo), de Yasunari Kawabata – sobre o qual lembro de ter lido uma resenha (me preparo para uma enxurrada de mimimis de ensino superior) na Veja. Mas isso é outra história.
Ao longo da vida acadêmica, fui lendo mais coisas; coisas excelentes, coisas mais ou menos. Só que fora do mundinho da universidade – e mesmo no mundinho da universidade – percebi que poucas pessoas conheciam algo de literatura japonesa. E também não há tão pouca coisa assim publicada aqui no Brasil. (É pouco; mas tem, sim, o que ler!)
Exceto pr'as professoras e colegas que acham que a gente é maluco
por insinuar que existe literatura fora da Europa e da América.

Talvez seja porque a leitura - como um todo - não é um hábito muito difundido aqui no nosso querido país. Talvez por n outros motivos. Mas talvez porque vocês realmente nunca ouviram falar em autores e obras e tudo mais.
Ou talvez porque um vórtice tenha te sugado para uma realidade em que não existe Japão.
Então eu decidi que, já que eu não posso consertar a falta do hábito de leitura - ou qualquer outra coisa sobre a qual eu não tenha controle -, pelo menos vou tentar contribuir para a divulgação do que existe por aí - e que eu conheço.

Estou estudando a criação de um blog (“outro, meodeosdocéu!”) só para isso – um com um título mais SafeForWork, para você não ficar tachado na empresa como “aquele cara que é chegado em sado-masô”.
Por enquanto, fico por aqui. Até porque pornografia atrai visualizações de página, e vai que eu consiga converter alguns tarados em leitores de literatura japonesa? Tanizaki agradece.

O nome dessa nova seção será:
A bem dizer, eu já tenho minha primeira resenha praticamente pronta, e ia colocá-la nessa primeira postagem. MAS! Postagens longas cansam, eu sou prolixa, e tenho que aprender a dividir melhor o conteúdo dos textos. 
E aquele livro... merece mais do que ser uma sub-seção de outro texto. :)

sábado, 15 de outubro de 2011

De Inertia

Éramos mais ou menos quinze na fila do ônibus, seis horas e pouquinho, mais um monte de transeuntes passando perto da parada. Não saiu no jornal – provavelmente porque não valia a manchete, “era coisa pequena”, e eu sei que você também diria exatamente assim, “coisa pequena”, porque a verdade é que nós nos tornamos uns insensíveis a tudo isso (se é que algum dia nós já fomos sensíveis).

A primeira da fila era uma mulher, negra, aparência normal, um pouco cansada. Uma camiseta, um jeans surrado (não surrado de marca, surrado de uso mesmo), uns tênis bem simples, uma bolsa no ombro. Acho que ela foi o alvo mais pela posição e pela facilidade do que por qualquer outra coisa. Por ser mulher, magra e estar lá, cansada de um dia estafante de trabalho.

Eles chegaram em três. Já percebeu que esse bostas sempre chegam em bando? Vivem em bando, caçam em bando, provavelmente até se comem entre si só porque é mais cômodo. Com aqueles tênis cor de neon, de marca, calça caída, sempre falando no último volume e gordos, ocupando espaço em todos os sentidos. Nosso sistema é muito bom para engordar vagabundo, e isso vale pra qualquer classe social, dos que comem dez vezes o seu salário aos que ganham “Bolsa Explore O Seu Filho Com O Apoio Do Governo”. Até porque a única maneira que eles têm de chamar a sua atenção é ocupando espaços físicos e sonoros e incomodando o máximo possível; não são inteligentes, bonitos, agradáveis, só resta serem estupidamente incômodos. E eles foram chegando perto dela como se fossem conhecidos.

E no início, parecia isso. Parecia que eles se conheciam, foram se encostando nela como velhos conhecidos, como amigos. Daí ela olhou para nós todos e eu soube. Eu soube que eles não eram conhecidos porra nenhuma e me lembrei que já tinham usado a mesma tática com uma amiga que tinha sido assaltada mês passado... Com essa moça, era o mesmo. Ela me olhava, assustada, apavorada, suplicante. 

Eu tenho vergonha, tenho vontade de me matar só de me lembrar daquele olhar. Ela olhou para todos nós, todos os 15 ou 16, mais os transeuntes, o mundo!... e todo mundo se encolhendo, fazendo cara de paisagem, baixando o rosto, ignorando, passando, dando espaço pra que aqueles três merdinhas de, o quê?, dezesseis, dezessete anos?, fizessem o que eles estavam fazendo ali.
A moça ficou em choque enquanto eles pegavam a bolsa dela, abriam, olhavam, na maior calma porque sabiam que ninguém ia fazer nada mesmo. Um deles chegava a se virar para nós, sorrindo malicioso, como quem diz “valeu pela cooperação”. Ela começou a chorar, e algum deles fez uma piadinha. Ela perguntou, com a voz trêmula, talvez juntando um fiapo de coragem dos frangalhos em que situações como essa transformam a nossa sanidade: “Posso só pegar as fotos dos meus pequenos na carteira?”, e foi só isso mesmo que ela disse.

Uma pergunta inocente dessa e foi o que bastou para um dos assaltantes dar um soco direto no rosto dela - eu cheguei a ouvir o barulho de um dente caindo no chão. Tudo isso pelo quê? Por uma carteira, por um celular, por algum dinheiro magro, que provavelmente sequer cobriria um plano dentário pra que ela consertasse os dentes quebrados? A verdade é que isso não é pelo dinheiro pra comprar os Nikes, os Adidas, etc., pra bancar o churrasquinho de quarta-feira que acompanha o jogo, não é pelo crack, pela cerveja, pelos cigarros, não é sequer pra sustentar os filhos que eles provavelmente já tem – e que criam no mesmo abandono no qual foram criados. A partir daquele momento, ficou bem claro que o assalto não era por nada disso, era pela violência, sempre foi pela violência. Porque a violência é o único modo de esses filhos-da-puta sentirem que têm algum poder sobre algo, mesmo que seja sobre uma mulher cansada em uma parada de ônibus, que seja sobre uma criança indefesa, que seja sobre um cachorro sarnento na rua. A violência é a única capacidade democrática em toda a raça humana, e infelizmente até esses chinelões sabem disso.

Mas você sabe que não é isso que me perturba. O que me perturba é que naqueles minutos nenhum de nós foi capaz de mover um dedo para ajudar a moça sendo assaltada. Eram três! Nós éramos quinze, até mais gente! Questão numérica! E o que é pior: eu não estou me excluindo dessa maioria burra e covarde. Eu estava lá e desviei o olhar, fiquei quieta, fingi que não era comigo! (E seria inocente acreditar que nada daquilo “era comigo”...) Justo eu!

Talvez eu até conseguisse perdoar os outros por saber que a maioria é composta de cordeiros. Séculos de cultura, religião, filosofia, ficção, etc. que nos dizem que existem “bons” e “maus”, que estes são distinguíveis sem muita dificuldade, e que os “bons” são passivos, inertes, oferecem a cara a tapa, perdoam, esquecem, são cândidos, pobres, submissos, silenciosos e aceitam todos... Os “bons” somos nós, daquela fila da parada do ônibus, perdoando os três coitadinhos porque eles nasceram na vila, provavelmente não tiveram uma família estruturada, não tiveram uma boa educação, e agora cobram da sociedade a sua “dívida” – o que para mim sempre foi uma desculpa de merda, criada por uma classe média-alta com aquela inerente culpa judaico-cristã-ocidental por ter algum dinheiro; porque, seja qual for o seu status social ou a sua etnia, ser filho-da-puta não é desculpa para nada. E se você enxerga com esses seus olhos algum tipo de justiça social no que aqueles três fizeram, então eu realmente espero que algum assaltante faça o favor de espancá-lo até você perder a sua visão, já que ela obviamente é um sentido inútil em você.

Eu sei que, no fim, não conseguiria perdoar a multidão de covardes também. Mas eu nunca acreditei nessa coisa de justiça social, e de que nós “merecemos” ser assaltados, porque é o nosso pagamento e porque Deus é maior que isso tudo e porque o Reino dos Céus é daqueles que sofrem, e que são pobres, e que são dependentes, e que choram em vez de tentarem algo. Não, isso não sou eu. Por isso mesmo sei que, naquele momento em que a moça era assaltada, eu não estava pensando em justiça social, em justificativas e etc. Não. Eu estava agindo pelo instinto vergonhoso de defender o meu próprio umbigo e esperar que “os outros” dessem o primeiro passo. Eu estava na mesma expectativa que todos ali: a expectativa de que um suposto “alguém” chamaria a polícia, que então passaria a responsabilidade para a “Justiça”, que então entregaria os criminosos para os carcereiros, que por fim deixariam que os próprios presos se encarregassem de exercer a tal da “Justiça”. Funciona da mesma maneira que alguns pais esperam que as babás ou - mais modernamente - as professoras se encarreguem da educação de seus filhos; é uma delegação infinita de responsabilidades que culmina na não-resolução de problema algum.

Eu não tenho desculpa, não tenho desculpa mesmo. Meu instinto me disse que me meter naquilo poderia resultar negativamente, e eu me coloquei acima daquela pobre mulher, mesmo também havendo a possibilidade de que, se eu desse o primeiro passo, mais duas ou três pessoas também se animassem a correr com os assaltantes dali. Eu também sabia disso inconscientemente, mas fiquei ali, inerte, olhando como quem olha um capítulo de novela se desenrolar. 

Não, eu não me perdôo por isso. Mas também sei que estou propensa a fazer o mesmo em uma próxima situação semelhante, tendo plena consciência disso tudo. Então por que estou contando isso? Porque não quero que o olhar aterrorizado daquela mulher se perca no tempo. Não quero que aqueles dentes quebrados sejam “coisa pequena”, indigna de nota. Não quero que você esqueça – e também não quero me esquecer – de que nós também podemos ser os primeiros da fila um dia, e que nosso olhar aterrorizado vai ser só a entrada para mais um desses banquetes de demonstrações de poder.


 Esse texto foi escrito para a cadeira de Produção Textual, em que a proposta era reescrever o conto "Pai contra mãe", de Machado de Assis. Eu, pessoalmente, acho que reescrever Machado não só é impossível como é praticamente um insulto - e chorei sangue por isso.
A minha interpretação desse conto é a de que o autor, sim, tratou o tema social, a estrutura escravagista estúpida (cinco "vivas!" para aliterações/assonâncias, por favor) da época; mas o que eu enxergo como foco principal é a questão individual, da violência, do descaso com o outro. 
E foi isso que eu resolvi trabalhar, com alguma inspiração débil em The Boondock Saints. Mas mais pela parte da moral do que pela parte da fodasticidade.:(
Também não gosto tanto de trabalhar com crítica social em ficção, mas às vezes é inevitável. Tive que rezar alguns pai-nossos para o São Rubem Fonseca nesse quesito.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Yomu, yomimasu, yondeiru

Gostaria de fazer uma denúncia: neste ano, Livraria Cultura, sebo Traça, Estante Virtual, livraria Londres e Instituto de Letras fizeram um complô contra a minha pessoa.
Cada vez que adentrava esses lugares (física ou virtualmente), exceto pelo IL, minhas finanças diminuíam. /emoticonmagoado
E mimimi.

No fim das contas, sobrou essa checklist de livros comprados esperando leitura:

1) "Eu sou um gato" (Wagahai wa neko de aru), Sôseki Natsume.
2) "Há quem prefira urtigas" (Tade kuu mushi), Jun'ichirô Tanizaki.
3) "Contos da palma da mão" (Tenohira no shosetsu), Yasunari Kawabata.
4) "A casa dos espíritos" (La casa de los espíritus), Isabel Allende.
5) "Todos os nomes", José Saramago.
6) "Ficções" (Ficciones), Jorge Luis Borges.
7) "Diário de um velho louco" (Futen rojin nikki), Jun'ichirô Tanizaki.
8) "O livro de areia" (El libro de arena), Jorge Luis Borges.
9) "O livro dos seres imaginários" (El libro de los seres imaginarios), Jorge Luis Borges.
10) "Recordações do escrivão Isaías Caminha", Lima Barreto.
11) "Os sertões", Euclides da Cunha.
12) "O pai Goriot" (Le père Goriot), Honoré de Balzac.
13) "Bestiário" (Bestiario), Julio Cortázar.
14) "Contos de Grimm - Volume I" (edição da L&PM Pocket), irmãos Grimm.
15) "Contos de Grimm - Volume II" (edição da L&PM Pocket), irmãos Grimm.
16) "Odisséia II - Regresso" (edição bilíngue e em três volumes da L&PM Pocket), Homero.
17) "Odisséia III - Ítaca" (edição bilíngue e em três volumes da L&PM Pocket), Homero.
18) "Miso Soup", Ryu Murakami.
19) "Crônica da estação das chuvas" (Tsuyu no atosaki), Nagai Kafu.
20) "O país das neves" (Yukiguni), Yasunari Kawabata.
21) "Todos os fogos o fogo" (Todos los fuegos el fuego), Julio Cortázar.
22) "Contos completos", Virginia Woolf.
23) "Contos gauchescos", Simões Lopes Neto.
24) "Mulher das dunas" (Suna no onna), Kobo Abe.
25) "Caminhos cruzados", Erico Verissimo.
26) "O prisioneiro", Erico Verissimo.
27) "O resto é silêncio", Erico Verissimo.
28) "As histórias preferidas das crianças japonesas - Livro 1".
29) "As histórias preferidas das crianças japonesas - Livro 2".
30) "Admirável mundo novo" (Brave new world), Aldous Huxley.
31) Etc.

Releituras que quero fazer:
1) "As viagens de Gulliver" (Gulliver's Travels), Jonathan Swift.
2) "Decamerão" (Decameron), Giovanni Boccaccio.
3) "Caçando carneiros" (Hitsuji wo meguru bôken), Haruki Murakami.
4) Etc.

Leituras aguardando na biblioteca:
1) "Kitchen", Banana Yoshimoto.
2) Etc.

Leituras aguardando em algum lugar do universo:
1) "Livro das Mil e Uma Noites" (todos os volumes *_*), com tradução do Mamede Mustafa Jarouche.
2) "Shogun", James Clavell.
3) "Dom Casmurro", Machado de Assis. (yup, não li ainda)
4) "Mansfield Park" (edição bilíngue), Jane Austen.
5) "Musashi", Yoshikawa Eiji.
6) Qualquer livro de fábulas, folclores, mitologias, contos do imaginário popular.
7) (Insira aqui qualquer coisa, pois essa é uma lista de Letrista, ou seja, uma lista que vai ao infinito)

Já lidos:
1) "Dublinenses" (Dubliners), James Joyce.
2) "Coração" (Kokoro), Sôseki Natsume.
3) "A casa das belas adormecidas" (Nemureru bijo), Yasunari Kawabata.
4) "Crônica de uma morte anunciada" (Crónica de una muerte anunciada), Gabriel García Márquez.
5) "A metamorfose" (Die Verwandlung) e "O veredicto" (Das Urteil), Franz Kafka.
6) "Contos Fantásticos" (edição L&PM Pocket), Guy de Maupassant.
7) "Madame Bovary", Gustave Flaubert.
8) "Odisséia I - Telemaquia" (edição bilíngue e em três volumes da L&PM Pocket), Homero.
9) "O cortiço", Aluísio Azevedo.
10) "Esaú e Jacó", Machado de Assis.
11) "O Ateneu", Raul Pompéia.
12) "A dançarina de Izu" (Izu no odoriko), Yasunari Kawabata.
13) "Rashômon e outros contos", Ryûnosuke Akutagawa.
14) "Kyoto" (Koto), Yasunari Kawabata.
15) "Hojôki", Kamono Chômei.
16) Etc.

Fora as leituras, nestas férias quero catalogar direito meus livros, meus documentos do PC, fazer origamis bonitos, desenhar, ser relativamente sociável, escrever no meu diário, terminar minhas histórias. Isso enquanto me acabo de ansiedade pelos resultados do Nôryoku Shiken (exame de proficiência em Língua Japonesa), que por sinal me fez perder o reencontro com um amigo que eu não vejo há séculos, sendo que estou até agora sem cara pra marcar alguma coisa... Afs, enfim.

Fuckity fuck.

{Yomu = ler (simples); yomimasu = ler (polido); yondeiru = lendo (simples); JAP}

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

(A Minha) Introdução à J-Music

Hoje quando você entra em um fórum de discussões sobre J-music e diz que gosta de, por exemplo, Asian Kung-Fu Generation, é praticamente crucificado (além de acusado de n00b, newbie, novato) pelos idiotakus. A idéia que esses sabichões normalmente têm é a de que, para ser fã de verdade, você tem que conhecer até os mais obscuros nichos da indústria fonográfica nipônica. Músicas e bandas popularizadas por anime são lugar-comum. Não que isso seja mentira, mas o que eles esquecem é que elas são o começo... Vou contar minha trajetória de fã de músicas japonesas.

Em meados de mil novecentos e noventa e tô ficando velha, a minha geração assistia ao florescimento da indústria de animes e tokusatsus no Brasil: Cavaleiros do Zodíaco, Sailor Moon, Guerreiras Mágicas de Rayearth, Dragon Ball, entre outros. Esse foi o início (confesso que pouco expressivo, no entanto) da minha paixão pela cultura japonesa.
Na época, não tínhamos Internet (nem computador!) em casa, então normalmente o que sabíamos sobre as séries provinha de revistas de qualidade duvidosa com informações nem sempre atualizadas sobre o assunto.

Anos mais tarde, no início do novo milênio, veio o computador (primeiro sem Internet, depois com a discada, eu lembro!), mas aí as séries já eram outras: a mais adorada por mim era Card Captor Sakura. Foi com essa da Clamp - depois de muitos pop-ups, caídas de linha, longas esperas por fins-de-semana e feriados, links quebrados - que conheci o verdadeiro poder disseminador da Internet. Eu, com meus 10, 11 anos, fiquei estupefata ao escutar pela primeira vez uma música em Japonês ("Catch You Catch Me", o tema de abertura) e notar, ao acompanhar a letra (em roomaji, óbvio), que a língua tinha um "quê" de familiaridade e simplicidade. A globalização me atingiu em cheio e, nesse caso, me apaixonou.
A partir daí, toda trilha de anime que me encantava de alguma forma, eu procurava nos meus meios rudimentares e baixava. Obviamente, até novas ferramentas de disseminação surgirem (os peer-to-peer, torrents, sites de hospedagem de arquivos, Orkuts da vida) minhas séries evoluíram de novo.

Quando eu já tinha um domínio minimamente decente dos meios de downloads, descobri, em uma madrugada do Cartoon Network, Samurai X (Rurouni Kenshin). Claro, me apaixonei pela história e por quase todos os personagens masculinos gostáveis do "elenco", mas tenho que confessar que foi quando o primeiro episódio chegou ao fim que tive o meu momento de nirvana.

O primeiro encerramento do anime é a minha razão maior de ter procurado outras bandas nipônicas no mundo da web. O nome da música é "Tactics", tocada por uma das bandas que perdura no meu repertório: The Yellow Monkey. Esse grupo, na realidade, não existe mais. O que restou dele foi a carreira solo do vocalista, Yoshii 'Lovinson' ou Yoshii Kazuya (que também aprecio). A música da qual tanto gostei me apresentou a um nicho que eu ingenuamente julgava inexistente: o "Japanese rock". Ele não só existe como é variado, cheio de influências e, ao mesmo tempo, original.
E foi por culpa desse mesmo anime que acabei gostando de outros artistas como JUDY & MARY (eu também achava que era uma dupla, mas é uma banda de rock psicodélico com uma vocalista de voz estridente), Kawamoto Makoto (outra cantora de voz aguda e estilo psicodélico, embora mais pra folk) e Bonnie Pink (uma das artistas de que mais gosto, pela variedade de estilos).

Na época de Samurai X eu também assistia a outros animes do mesmo canal, como Gundam Wing (que me fez gostar, por uma longa fase, de TWO-MIX), Inuyasha (que me apresentou ao excelente Do As Infinity) e Yuu Yuu Hakusho (com as músicas do Takahashi Hiro e da Mawatari Matsuko). Depois disso, a Internet discada disse adeus e, com essa maravilha que é hoje, conheci outros animes, agora sempre na língua original (Full Metal Alchemist, Naruto, Bleach, Nana, Ouran, Fruits Basket, Evangelion, entre outros mil).

Então hoje, sempre que observo os idiotakus ridicularizarem alguém por gostar de "músicas de desenhos", lembro da minha fase de Asian Kung-Fu Generation (que não deixa de ser uma banda boa, embora eu tenha enjoado de tanto ouvi-los) e sorrio, pois foi assim que me tornei fã de J-music e conheci até algumas bandas que nem os próprios japoneses conhecem.:D


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Aliás, faz um tempinho que não assisto a nenhum anime, dorama ou o que seja. Fora Cosmos (que série maravilhosa!), do Carl Sagan, e Desperate Housewives, que também estou dando um tempo, estou me concentrando nos filmes e livros. E música, claro.

Andei atualizando minha lista de filmes com "Les Chansons D'Amour", que confesso que só baixei por culpa do Louis Garrel. O filme em si, achei fraco; embora a música seja ótima.:D

Também vi, finalmente, Nana e Nana 2. A Mika Nakashima está quase perfeita como a Oosaki Nana (na minha humilde opinião, só faltou um pouco mais de humor). E como é magra essa mulher (tá certo que eu sou gordinha pra fazer uma comparação, mas a magreza da Mika continua espantosa)!
Claro que não dá pra ser fiel ao mangá e à série animada, mas achei que algumas coisas poderiam ser melhores: nenhum dos "Rens" me convenceu muito (não por falta de semelhança, simplesmente pelas atitudes); o Shin do Kanata Hongo foi mais convincente que o do Kenichi Matsuyama, mas ambos estavam quietos demais; de longe, o que mais me incomodou foi a Yuna Ito. Nada contra a cantora, o problema é que a Reira original não fica falando em inglês o tempo inteiro e... o TRAPNEST é pra ser uma banda de rock! As músicas da Mika (embora não sejam mais rock do que aquelas que ela fez como MICA 3 CHU) ainda convencem, mas as da Yuna são pop e pop descaradamente pop!xD
Das "Hachis" não tenho reclamações. As duas atrizes trabalharam bem.
Ah, só para registrar: o Takumi (Tamayama Tetsuji) é perfeito. E tenho dito.

Takumi -> Tamayama Tetsuji


Também vi nessas férias "Gone with the Wind" (E o Vento Levou), "The Sound of Music" (A Noviça Rebelde), "Nuovo Cinema Paradiso" (Cinema Paradiso) e "Charade" (Charada), para atualizar minha lista de filmes clássicos já vistos...:D
Adorei o da Julie Andrews; não gostei muito do primeiro citado; e, em comparação com o "Charade", prefiro o remake (nunca diga isso em uma sala de cinéfilos!) com a Thandie Newton, o Mark Wahlberg e o Tim Robbins, "The Truth About Charlie" (O Segredo de Charlie). Embora as atuações do Cary Grant e da Audrey sejam impagáveis!:D
E "Nuovo Cinema Paradiso" vale cada segundo!:)

Revi pela TV "Hook" (Hook - A Volta do Capitão Gancho) e amei de novo - contrariando a crítica - ; pelo computador, "Pocahontas" (da Disney), uma das minhas animações preferidas, e "Dogma", que continua engraçadíssimo pra mim.:D

Domingo passado vi "Silent Hill" (Terror em Silent Hill), mas confesso que entre repentinas "zapeadas" e desvio de olhares. Filmes de terror ainda não são o meu forte - o problema é que a curiosidade às vezes é mais forte...:P
E ontem vi "Mimi wo Sumaseba" (Se Você Ouvir com Atenção - tradução, acho que não saiu aqui no Brasil...). Muito, muito, muuuuuuuuuuito fofo!*.*
Studio Ghibli sempre se superando! Se eu já tinha gostado da Chihiro, da Kiki, do Totoro e do Howl, esse só fez com que eu me apaixonasse mais ainda pelos trabalhos do estúdio. E, sim, eu assisto a filmes infantis ainda...:D

Também assisti a "Chariots of the Gods" (Eram os Deuses Astronautas?) sem legendas (não que precise muito) e achei as teorias bem interessantes. Mas só realmente me interessei por esse filme depois que a minha mãe o citou enquanto assistíamos ao "Indiana Jones 4"...:D

Ufa! Até que filmes eu vi bastantes...:D

Livros que li a pouco ou estou lendo: "O Cortiço", do Aluísio Azevedo (livro ótimo, já terminei); "A dança do Universo", do Marcelo Gleiser (sobre os mitos de criação, Física e... bom, cosmos); e "Senhor Embaixador" (do meu amado Erico Verissimo).:)

Músicas? Ando fixada na trilha de "Les Chansons D'Amour", na dupla de japonesas fofas do RYTHEM, no novo single da Kaela Kimura, e nos "velhos" álbuns do Yoshii Kazuya (*o vídeo do link é um cover, na verdade; mas o usuário que o fez é talentoso, dá pra ter uma boa idéia da música). :)

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Vou transformar meu antigo blog do projeto de História do colégio em um redutos das letras (de música) romanizadas por mim. Assim, mantenho ele vivo e dou uma amenizada no perigo de perder o meu trabalho.:)


Putz, depois de tanto tempo sem escrever vem isso tudo... :D
Jaa! o/

domingo, 28 de dezembro de 2008

Eu não gosto de poemas.

Na verdade, é mais complicado do que parece. Eu até gosto de poemas, mas não agüento ficar lendo um livro de poemas. Gosto de Castro Alves e de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) e um pouco de Manuel Bandeira, mas sentar e ler a coletânea da vida de algum deles é especialmente chato. Isso provavelmente porque (claro) eles nem sempre acertavam a mão...

Sei lá. Simplesmente não tenho paciência para poemas longos, com rimas preciosas e conteúdo etéreo, flutuante e platônico. Eu gosto de "Porquinho-da-Índia" e "Pneumotórax", do Manuel Bandeira; gosto do "Navio Negreiro" do Castro Alves; gosto daqueles "Começo a conhecer-me. Não existo.", "Grande são os desertos...", etc. do Álvaro de Campos; gosto das pérolas de sabedoria do Mário Quintana do "Caderno H"... E enumerando os poemas e poetas que já li e gostei, chego à conclusão de que gosto de poemas em prosa praticamente.

Poemas em prosa me parecem muito mais genuínos e naturais. Talvez eles não tenham sido tão trabalhados e pensados como os feitos por sapos-tanoeiros, mas os sentimentos são mais plausíveis.

Os únicos poemas legítimos que aturo são em forma de música. Esses, curiosamente, amo.:)

[A seguir, Álvaro de Campos. Como não gostar?]

"(...)
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.
Não me queiram converter a convicção: sou lúcido!
Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido."
(Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa...)

E este, que merece publicação integral...

Poema em Linha Reta
"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo.

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado

Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que venho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
"

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É estou melancólica, por decorrência das "contabilidades" de final de ano, por decorrência do vestibular e de outras maravilhas.

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Feliz Natal!
E um ótimo Ano Novo pra todo mundo!:)

Feliz Ano Novo" meio Japonês, mais ocidental...

Jaa, nee!