terça-feira, 14 de julho de 2009

Pecados sociais?

A Igreja Católica sempre gostou de ter a imagem de reduto moral, mesmo porque isso lhe conferia grande influência entre os fiéis. Hoje, com o surgimento sem resistência e a rápida popularização de inúmeras igrejas evangélicas, ela tenta reaver a sua fama atualizando a lista de pecados para se adequar a uma realidade que os antigos parâmetros não previam. Na prática, pelo menos dois dos novos "atos pecaminosos" são revestidos de um pensamento simplista que pode interferir em questões importantes de maneira negativa.

Um dos novos pecados incorporados à lista diz respeito às modificações genéticas, as quais a Igreja considera erradas. A idéia por trás disso é simples, mas denota falta de visão e de conhecimento do assunto: o alto clero não quer que seres humanos "brinquem" de Deus. Todavia, ser capaz de manipular genes e criar ou modificar espécies em laboratório não significa criar quimeras ou monstros, diferente do que muitos pensam. O rebaixamento de uma técnica a pecado demonstra que a Igreja não sabe muito bem do que está falando. A modificação genética, em geral, diz respeito ao melhoramento de vegetais ou animais para produção em larga escala e sem perdas, com finalidade de abastecer o consumo humano. Assim, a Igreja ignora que, se não existissem essa e outras técnicas semelhantes, o mundo provavelmente viveria como na Idade Média, passando por ondas de fome e apresentando casos de canibalismo humano decorrentes dessas.

Outro ato considerado "pecaminoso" agora é o de enriquecer muito. Isso se baseia na idéia deturpada de que, para tornar-se rico, é necessário roubar ou "pisar" em outras pessoas. Na verdade, isso já é defendido pela Igreja Católica há muito tempo; a pobreza sempre foi vista por ela, pelo menos oficialmente, como uma virtude. Esse tipo de conceito, vindo de uma instituição que influencia tantas pessoas, representa um preconceito social - como há alguns séculos essa mesma organização instituiu o preconceito étnico e cultural ao dizer que negros não tinham alma e que a cultura indígena era mais atrasada. O clero esquece que a própria instituição católica é extremamente rica - possui um país, com guardas, catedrais e igrejas com ouro, além de funcionários em vários países - e, pelo que se sabe de sua história, não alcançou isso sem roubar terras, matar "infiéis", mentir para populações inteiras e consentir com atos não tão nobres que lhe fossem convenientes.

Desse modo, a Igreja interfere, com suas idéias pouco lógicas e bastante hipócritas, em melhorias tanto no nível pessoal, como no mundial. O seu repúdio às modificações genéticas feitas por humanos e o seu pensamento simplista quanto ao acúmulo de dinheiro podem contribuir enormemente para o atraso humano, uma vez que uma organização com o seu porte ainda tem poder de influenciar pessoas que não sabem diferenciar o pessoal do social, o religioso do laico. Em vez de criar listas inúteis, a Igreja Católica poderia usar seu tempo para distribuir suas riquezas, que agora viraram pecado, ou seguir o exemplo de Mendel, monge católico e pai da genética, e ir estudar algo mais proveitoso.

(Publicado no Jornal da Redação do curso Unificado, na edição de Agosto de 2008 - ano 12, nº 40.)

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Vocês não têm idéia da dor que dá ao reler um texto escrito há um ano...:S
Eu basicamente quero reescrever tudo, cortar coisas, adicionar outras... Gaaaaaaah!

Bom, dirty little secrets: eu esqueci o título dessa redação. O que inicia essa postagem foi atribuído pelos professores do Unificado para poder publicar o meu texto. Morri de vergonha quando recebi essa tranqueira corrigida e vi que tinha esquecido de, digamos, A PORRA DA PARTE MAIS IMPORTANTE DA REDAÇÃO!!!Dx
(Tá, não é a parte mais importante, mas poxa, é a apresentação de todo o conteúdo em síntese!)
Na UFRGS eu não teria passado, mas o corretor do meu texto foi bonzinho.:)

Lendo todas as outras redações publicadas, percebi que, bom, eu me exaltei um pouco.
Mas religião é ódio.;)

Jaa!o/

Precisamos de Luxo

A humanidade precisa de luxo tanto quanto precisa de artigos de primeira necessidade. Levando-se em conta a sua definição de "exclusivo", e ignorando-se a superficialidade com que o caracterizam, luxo é ter tempo, assim como é deter individualidade.

À parte do seu conceito clássico, uma vida luxuosa não precisa ser propriamente repleta de riquezas materiais, futilidades e inutilidades. Na situação do mundo moderno, o tempo, por exemplo, é um recurso do qual poucos desfrutam, sendo, portanto, raro e custoso. No ritmo acelerado em que muitos vivem, ter alguns minutos do dia para dedicar-se a fazer algo relaxante, ou para simplesmente gastar sem fazer nada específico, é uma dificuldade. Para aqueles que exercem ofícios com baixa remuneração, deixar de trabalhar não é escolha; necessidades mais primárias precisam ser supridas, afinal. Para os não tão pobres, mas que visam ao lucro, parar é desperdiçar tempo e chances de adquirir artigos menos importantes. Quem realmente pode ou não se aflige ao desfrutar desse recurso exclusivo tem um pouco de luxo em sua vida.

Além de tempo, personalidade própria também é algo a se considerar um artigo de luxo. São poucos aqueles que conseguem, mesmo com toda a influência das mídias, das dificuldades da vida, dos discursos sedutores, manter a individualidade - a propriedade de ser único e ter também idéias próprias -, sem que essa característica se alie necessariamente ao egoísmo. Há uma tendência de os seres humanos naturalmente se guiarem pelos seus semelhantes, o que não é ruim, nem condenável. Entretanto, a maioria acaba se acomodando a essa situação e dependendo quase que totalmente das ações de seus grupos religiosos, sociais, econômicos, políticos. Essa acomodação acaba por descaracterizar os homens como indivíduos e torna-os o que popularmente se chama de "massa de manobra", fazendo com que a personalidade própria seja uma raridade.

O luxo, portanto, não se restringe a bens materiais e fúteis. Ele pode ser muito bem-representado pelo tempo livre, do qual determinadas pessoas sequer ouviram falar, bem como pela individualidade, pela capacidade de não só seguir, como também criar tendências e idéias e ser reconhecido por elas. Desse modo, pode-se dizer que pensar, refletir, indagar é também um luxo, visto que, para isso, é necessário tempo e ponto de vista próprio.


(Publicado na Antologia do Velho Casarão da Várzea, impresso do CMPA, no ano de 2008, quando eu estava no 3º ano do Ensino Médio. Também publicado no Jornal da Redação do curso Unificado, na edição de Junho de 2008 - ano 12, nº 39.)

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Fora de contexto, minha redação ficou meio retardada, mas acho que dá pra entender o espírito da coisa... O tema era, obviamente, "luxo". Eu estava no 3º ano do Ensino Médio, há muito tempo... em 2008. ;D
A redação do outro simulado do Unificado foi publicada em outro Jornal da Redação, pra minha felicidade. Mas... fica pra próxima. Ai, aquelas aulas com o Wolf...*-*
(Nem posso falar, matei muitas.:B)

Ah, a pessoa da imagem é a Coco Chanel, pra quem não conhece.

Jaa!o/

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Carta de Não-Suicídio

[por Luísa Vanik]

Destino essa pequena carta a aqueles que culpo diretamente pelo meu não-suicídio: minha família e amigos.

Informo-os desde já os motivos pelos quais venho me não-suicidando. Começando pela razão supracitada: o fato de vocês serem tão imperfeitos e não me compreenderem durante cem por cento do tempo. Isso me obriga a procurar cada vez mais pessoas que tenham algo em comum comigo. Pessoas que preencham as lacunas deixadas por vocês. Assim, meu círculo e minha variação de tipos de amigos aumenta, do mesmo modo, cada vez mais; conseqüentemente crio mais laços, algo que praticamente me obriga ao não-suicídio!

Outro motivo para esse ato (ou não-ato) é o mundo. O mundo é deprimente, considerando sua situação geral. Veja bem: as pessoas se odeiam, vivem na miséria material e na miséria intelectual ou espiritual. Elas fazem mal aos outros e a si próprias e depois não entendem porque suas vidas andam para trás (ou simplesmente param). Aí sinto um aperto imenso no coração, um misto de raiva e vontade de fazer algo para melhorar o mundo – então vem à minha cabeça a louca idéia do não-suicídio, novamente...

O que também me provoca essa vontade insana é a minha própria situação. Não nasci rica, superdotada, bonita e plenamente satisfeita na vida. E, como se não bastasse, o passar do tempo não me espera decidir por onde começo! Agora vocês entendem, não é? É inevitável essa fixação pela idéia de não conceder a morte a si mesmo. Acabo sentindo um crescente desejo de buscar tudo o que não tenho...

Por último motivo – e talvez seja este o mais poético -, tomo a janela de meu apartamento de terceiro andar. Neste exato momento, olho-a com um pensamento insensato. Lembro-me de pessoas que vivem a alguns seis ou sete andares acima do meu e também olham para a janela, mas com outro tipo de idéia. E então reflito: onde está a poesia em mergulhar no concreto sujo das ruas, em meio a carros barulhentos e transeuntes indiferentes? Ainda prefiro minha idéia não-suicida de olhar para o céu e imaginar mil coisas que possam me ajudar a alcançar as nuvens alaranjadas do pôr-do-sol, sem ter que para isso chegar perto do trânsito e dos passantes.
É, parece-me mais razoável o meu doido suicídio ao contrário. Talvez meu próximo passo seja propor um não-suicídio coletivo...

Sem mais considerações a fazer, saúdo-os com um enérgico “olá, mundo cruel; aqui estou para desafiá-lo (e sensibilizá-lo, se o senhor permitir)”...


(Publicado na Antologia do Velho Casarão da Várzea, impresso do CMPA, no ano de 2006, quando eu estava no 1º ano do Ensino Médio.)

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Texto antigo, mas vale ainda.
Ainda mais depois que duas cadeiras diferentes decidem cobrar "Os Sofrimentos do Jovem Werther", do seu Goethe...:S
O Werther é um chato, assim como todos os indivíduos com tendências suicidas. Tanto que a minha interpretação para o suicídio do Werther não tem nada a ver com o amor impossível pela Charlotte. É só egoísmo mesmo. Tanto que ele resolve se matar próximo ao Natal, com uma sordidez impressionante, pra dar um impacto maior. Ele chega a se regozijar em antecipação só de pensar nas lágrimas que a sua querida Lotte vai derramar por ele. Ah, vá a merda. Isso não é amor.:P

Mas esse até é um bom livro. Tem alguns momentos de reflexão e de análise do amor bastante encantadores.:)

Jaa!o/

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Ninguém que ficar só

[por Luísa Vanik]

Existe, nas sociedades humanas, uma cultura de supervalorização do relacionamento conjugal. Em decorrência disso, as relações entre indivíduos freqüentemente acabam se estabelecendo sobre os princípios da hipocrisia e da comodidade, o que resulta em sentimentos de insatisfação emocional, e pode criar para as pessoas uma impressão negativa de uma associação humana que deveria ser encarada com prazer e alegria.

A idéia de que “socialmente correto” é nunca estar sozinho tem explicação racional. A combinação de indivíduos sempre foi uma estratégia biológica, com a finalidade de principalmente gerar descendência; desde a Antigüidade Oriental até tempos mais recentes, sabe-se que as uniões, para os nobres, também tinham parte no estabelecimento das relações de poder e, para o povo, representavam uma estratégia de sobrevivência no mundo. Essas concepções de casamento como “necessidade” ou como “ferramenta de domínio” continuam, mesmo que inconscientemente, arraigadas no imaginário humano. A sociedade de hoje concebe o relacionamento entre duas pessoas como prova irrefutável de competência fisiológica; afinal, se uma pessoa é capaz de se unir a outra, ela cumpre teoricamente o seu papel na perpetuação da espécie. Por conta disso, criou-se o mito de que o “casal” seria uma entidade superior ao “indivíduo”, e, portanto, para que um sujeito se realizasse como ser humano, seria necessária a sua união a outrem.

Por conseqüência dessas idéias, muitas pessoas assumem relacionamentos sem estrutura para tal, crentes de que se completarão com a outra pessoa, independente da qualidade dos sentimentos envolvidos. Na prática, esses indivíduos frustram-se ao descobrir que os sentimentos de necessidade, curiosidade e interesse que os uniram não são suficientes para manter uma relação baseada em carências individuais e reconhecimento social. Por comodidade, muitos prosseguem com a convivência. Disso decorrem as crises de auto-estima, os assomos de egoísmo e as traições, como forma de punição ao outro – por não corresponder às expectativas de tornar feliz o seu par – e a si próprio – por não ter sido capaz de alcançar a satisfação plena, o que deveria ter ocorrido pelo simples fato de ser cumprida a convenção de se unir a alguém.

O culto ao pareamento de pessoas deve ser, portanto, analisado com certo cuidado. Embora a tendência de associação entre indivíduos cumpra um papel importante na História da humanidade, o costume de ver o casamento como atestado de competência social e como reduto de soluções e felicidades frente às carências e questões individuais pode ser nocivo para todos os envolvidos. Uma relação que requer a anulação de sentimentos individuais não sobrevive aos menores atritos.



Fazia um tempinho que eu não tinha que escrever uma dissertação...@_@
Devido às comemorações de Dia dos Namorados, acabei tendo idéia para esse tema.
Antes que venham as pedras, as cruzes e os insultos, um esclarecimento: não sou contra relacionamentos (o que seria uma completa burrice, se fosse o caso). Sou contra relacionamentos convencionais, que se dão por moda, necessitam de aprovação alheia e se baseam meramente na idéia de "vamos fazer, já que tá todo mundo fazendo". Tenho até um certo romantismo por acreditar em amor único e verdadeiro; contudo, não consigo acreditar que seja possível encontrá-lo na primeira esquina disponível.
Fora isso, sou solteira e mal-amada - e uma das tantas que se deprime com o Dia dos Namorados.;)

Jaa!o/

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Limpeza

[por Luísa Vanik]

A casa estava suja. A Senhora ainda estava parada na entrada quando viu as partículas de poeira flutuarem diante de seus olhos amendoados. Piscou algumas vezes para que seus cílios dourados repelissem aquilo. Sabia que ele não seria capaz de mudar um alfinete de lugar depois que ela fosse embora. Como era previsível! A sala estava abarrotada de jornais empilhados; os balcões, cobertos de louça não lavada e latas de refrigerantes. O piso... ah! Ela não queria olhá-lo, mas foi inevitável. A madeira, outrora brilhante, estava opaca; o pó formava quase um tapete. Havia até cinzas de cigarro caídas. Aquele lugar estava parado no tempo.

A mulher jogou sua cabeça para trás, num gesto que lhe era característico, fazendo com que as pontas de seus louros e lisos fios de cabelo – agora um tanto curtos – roçassem em seus ombros nus. Ela sentia cócegas e se acalmava momentaneamente com a sensação. A Senhora largou as sacolas que tinha em mãos no chão da sala e prosseguiu com sua inspeção pela casa. Ele não voltaria tão cedo; era seu horário de trabalho. A gaiola do canário estava vazia de vida, mas o homem não se dera ao trabalho de limpá-la e guardá-la. O mesmo se podia dizer das violetas murchas na janela.

Um dia houvera amor ou algo semelhante, pois ela bem sabia apreciar as qualidades dele. O problema é que jamais aprendera a apreciar os seus defeitos. Não sabia como lidar com o ódio que sentia pelos pequenos escárnios do cotidiano, como na primeira vez em que ele a chamara de Senhora, por brincadeira. Ela tinha apenas três anos a mais! Talvez, para ele, parecesse uma boa piada dizer que havia se comprometido com uma “coroa”. A mulher se olhou no espelho ao lado da escada: seu corpo era esguio, sua estatura média. Ela se esforçara para manter aquelas proporções, mas havia cometido o pior dos pecados: nascera antes dele. Não só isso. Preocupava-se com a carreira e com a casa – e dava conta das tarefas. Talvez se preocupasse demais mesmo; era a maldição da competência. Esperava que ele também tivesse ambições e que também fizesse o possível para conseguir alcançá-las. Contudo, sua maior pretensão era conseguir ir ao bar depois do serviço. Não queria crescer; queria um diploma medíocre, um emprego estável, uma esposa conivente. Ou melhor, não queria uma esposa, mas uma mãe. Alguém que lhe dissesse a hora de dormir, de acordar e de criar juízo. Estava cansada daquela vida de babá. Ela queria só um companheiro.

Quando subiu as escadas e entrou no quarto de casal, o salto do seu sapato parou de fazer o barulho de madeira contra madeira. A Senhora olhou para os pés e viu um bolo de fotos espalhadas pelo chão, retratos de uma vida aparentemente feliz. Como era fácil fingir que estava tudo bem! Alguns anos se passaram e os sorrisos pareciam os mesmos. Claro que parte da culpa era dela; havia deixado passar tantos comentários, tantas pequenas traições, tantas grandes traições... O descaso dele seria inevitável. Já iniciaram o relacionamento morando naquela casa, que ela adquirira após seu primeiro bom negócio; nunca construíram nada juntos, tudo sempre foi fácil demais. Agora era hora de fazer uma faxina.

A Senhora abriu a última gaveta de sua penteadeira com seus longos dedos, de unhas pintadas na cor de grafite, e recolheu alguns documentos. Abriu a bolsa que trazia a tiracolo e guardou-os. Encaminhou-se para o banheiro, abriu o armário com espelho, pegou o batom de sua cor preferida, páprica, e passou-o sobre os finos lábios. Raramente o havia usado, já que não era a tonalidade predileta dele. Combinava bem agora com a sua blusa alaranjada. Ela sorriu. Foi até a cozinha de azulejos brancos – agora amarelados pela falta de cuidados – e abriu a geladeira. Refrigerantes, comida congelada e algo na gaveta das verduras que fez com que suas narinas se estreitassem mais do que o comum. Nada de importante. Nem na lavanderia, nem no quarto onde ela amontoava seus pertences da infância... Não havia nada de importante naquela casa, a não ser a luz do sol da tarde, que entrava pela janela da sala ultrapassando as cortinas das quais ela tanto gostara um dia. Agora elas cheiravam a tabaco e lembravam o dia em que ela o encontrara naquele sofá verde-musgo com uma outra mulher. Já o havia perdoado. Tanto fazia; ele não era mais ninguém. Era apenas uma partícula de poeira flutuante na sua vida.

A mulher abriu os pesados embrulhos que deixara largados no meio da sala. Refez toda a sua trajetória pela casa derramando o produto de odor característico sobre os seus adorados móveis de cerejeira e o chão de tacos. Com certeza o cheiro melhoraria como sempre melhorava. A Senhora normalmente limpava não porque sentia prazer nisso, mas porque a imundície lhe incomodava profundamente; porque a idéia de viver em um ambiente infecto lhe causava asco. Aquele homem bem sabia disso, mas não se importava. Era mais viril zombar e fingir indiferença. Tudo bem, ela limparia a sujeira dele de bom grado, mas seria a última vez.

Quando a Senhora finalmente atingiu a varanda, ela suspirou aliviada. Havia terminado. Juntou a sua bolsa, saiu da casa e, antes de trancar bem a porta, jogou para dentro alguns fósforos acesos. As labaredas só se pronunciaram bem mais tarde.

Pronto; agora a casa estava limpa.


[Baseado no conto "Apelo" de Dalton Trevisan.]

Ficção para a disciplina de Produção Textual.
Hmmm... Creditem?:D

Jaa!o/


quarta-feira, 13 de maio de 2009

Projeto Purgatório

[Escrito por Luísa Vanik]

Existem várias maneiras de se educar uma pessoa. Para indivíduos diferentes, métodos diferentes. Contudo, existe um método que é aplicável a quase todos os seres humanos relativamente normais que não conseguem se disciplinar na base da conversa amigável: o da vergonha e da culpa.

Quando era pequeno, minha mãe raramente se utilizava da força física para corrigir as minhas faltas. A sua tática também não incluía Deus, nem meu pai, nem o padre ou qualquer semelhante. Para efeitos didáticos, minha mãe aumentava drasticamente o problema, fazia-o parecer gigante, assustador e... vergonhoso. Passava o dia falando sobre o assunto; incentivava os adultos à volta a me reprimirem também, e isso era sempre o pior – os olhares de reprovação lançados sobre o criminoso. Antes do fim do dia eu já estava implorando para que ela me batesse e me proibisse de jogar bola com os amigos.

Nunca pretendi ter filhos, nem ser professor, mas quando vim morar na capital, em um enorme complexo de apartamentos de tamanhos variáveis, compreendi a utilidade que poderia ter tal conhecimento. Na época, trabalhava ainda como mero auxiliar em uma das rádios locais, ajudando nas pautas de programas, calibrando equipamentos, servindo cafezinho e fazendo papel de escravo para os produtores e radialistas. Era solteiro e de poucos amigos, nunca fui de socializar. Meu primeiro lar fora da casa materna foi uma kitchenette – pequena, mas confortável e, principalmente, minha -, em um prédio ironicamente nomeado “Paraíso”. Na condição de morador desse prédio, conheci o verdadeiro inferno.

Morar em um apartamento significa estar cercado de estranhos por todos os lados.

Sobre a minha cabeça, por exemplo, vivia um casal que, de segunda a domingo, das onze e meia até às quatro da manhã, se divertia com a mais antiga brincadeira adulta da humanidade. Não em silêncio, obviamente. Todos os dias, minhas horas de sono eram retardadas ou interrompidas por demonstrações efusivas e extáticas, com direito a batidas ritmadas por um pé de cama desnivelado. Já é difícil aceitar que as pessoas façam sexo quando você não pega nem um resfriado; ser então parte de uma orgia sem corpo presente é ainda mais frustrante. E, poxa, todos os dias!

Eu ignorava que alguém no andar imediatamente abaixo do meu pudesse causar algum problema. Apenas quando fui recolher pela primeira vez minhas roupas penduradas no varal exterior e senti um cheiro inconfundível de mato queimado, misturado com incenso vagabundo de patchuli é que me dei conta de que estava redondamente enganado. A vizinha do quinto piso era hippie, para minha satisfação.

Meus vizinhos adjacentes também não facilitavam a convivência: de um lado, um criadouro de cães, cujo odor chegava a atravessar as finas paredes em certos dias; do outro, um incorrigível fã de rap, sendo que todos sabem que a qualidade do gosto musical é inversamente proporcional ao seu volume.

A fauna era tão prolífica que eu sentia pena da síndica. Provavelmente sou a única pessoa do mundo que sente pena do síndico, aquele carrasco responsável por mandar o volume da festinha abaixar, por pedir que as pessoas não deixem seus lixos nos corredores do prédio, por avisar que a reforma do telhado vai causar um aumento na taxa do condomínio, por tentar conter os ânimos na reunião de condôminos.

Ah, a reunião de condomínio! É nessa agradável confraternização que você conhece o rosto dos seus algozes, e descobre que mora com criminosos em potencial (ou em atividade mesmo). Nunca vá a uma reunião dessas quando a sua fé no bom senso da humanidade estiver baixa. Foi numa dessas que tive a primeira idéia para meu projeto.
Já com três anos de trabalho na rádio, alguns programas relativamente populares no currículo, os chefões permitiram-me criar e conduzir uma atração para o horário do almoço – uma concessão e tanto.

A idéia surgiu, como eu disse, em uma reunião de condôminos. Fui acusado de ferir o gato fugitivo da senhora do oitavo andar. Os adesivos antigato especialmente colocados no meu tapete da frente da porta haviam funcionado. O “pobre Sultão” estava sem alguns chumaços do pêlo. Eu, em contrapartida, amanhecera os dias anteriores sem os excrementos do animal premiando meu capacho. Tive que ouvir um discurso de vinte minutos sobre como meu ato criminoso havia tornado Sultão um gato traumatizado; contive-me para não responder com um sermão de mais vinte minutos acerca de como pessoas insuportáveis são dadas a animais de estimação, já que estes não podem expressar opinião e abandoná-las por sua chatice, diferente de humanos. Por Deus! Estive a ponto de dizer que talvez Sultão estivesse querendo passar um recado bem claro com sua fuga, pra início de conversa...

Mas foi só quando um dos vizinhos do sétimo andar, recém-chegado, pai de duas crianças, voltou-se para o casal do meu andar superior é que eu percebi o que poderia ajudar a regrar aquele galinheiro. Disse ele em alto e bom tom: “Vocês dois poderiam ser mais silenciosos nos seus momentos de intimidade, pois as crianças já estão ficando assustadas com os gritos da vizinha”... Todas as atenções se voltaram para a cena. Os namorados pareciam Adão e Eva tomando consciência de sua nudez pela primeira vez. O vizinho foi contundente e continuou, apenas para garantir que sua mensagem fosse clara o suficiente: “É vulgar, e nenhum de nós tem obrigação de ouvi-los”. Senti minha alma sendo lavada e acrescentei : “Sugiro que vocês ponham um tapete sob a cama”...

Foi assim que surgiu o “Projeto Purgatório”, meu programa diário na rádio, “o serviço mais eficiente de reabilitação de vizinhos sem noção”.

O produtor chegou a me perguntar: “Tony, você acredita mesmo que isso vai servir pra algo além de atrair uma audiência absurda por causa dos ‘barracos’”? Ao que lhe respondi: “Por que não? Recebemos a ligação de um delator, mandamos alguém atrás do criminoso. Se ele admitir o erro e mudar, uma semana ou um mês ou um ano depois voltamos para averiguar a situação e lhe damos uma premiação – se não, o prêmio fica com o vizinho que fez a denúncia. Você já assistiu àquele programa em que a babá ajuda a educar a família? Pois é”...

Diante dessa esquematização, minha proposta foi aceita e meu primeiro programa do projeto foi ao ar. Na triagem da primeira edição, recebemos um telefonema interessante: “Olá. Gostaria de denunciar meu vizinho, Jan Koller. Todas as manhãs em que acordo mais tarde, ele rouba o jornal da minha porta. Vocês podem não acreditar nisso – nem eu acreditava no início -, mas passei a controlar e cheguei a instalar uma câmera em frente à minha porta – tenho os vídeos gravados. Espero que este programa me ajude a reeducar esse homem”.

A equipe decidiu fazer uma pesquisa primorosa antes de gravar o programa. A narração de todo o caso foi feita por mim da seguinte forma: “Jan Koller, 45 anos, é um homem aparentemente comum que trabalha na peixaria ‘Do Mar’, da rua 727. Sua vida como vendedor, no entanto, parece não satisfazer aos seus desejos mais obscuros, os quais ele prefere suprir com uma tara absolutamente condenável: o roubo dos jornais de uma senhora que acompanha agora este programa, a fim de se ver vingada de sua injúria. Agora, quantos de nós já não sofremos com a subtração de itens deixados à porta de nosso próprio lar? Quantos de nós não tivemos que suportar a humilhação de nos vermos furtados de objetos que adquirimos com nosso suado dinheiro, fruto do trabalho e do esforço próprio? Esse senhor, como criminoso que é, será por nós, do ‘Projeto Purgatório’, interpelado neste momento”. Em resumo, depois de alguns momentos realmente tensos, com intervenções da própria delatora, o senhor Jan confessou o pecado e prometeu não repeti-lo. “Esperamos que a promessa se faça real, pois o processo disciplinar não se restringirá a esse momento apenas... O ‘Projeto Purgatório’ e todos os envolvidos no caso do senhor Jan Koller continuarão a monitorar, por tempo indeterminado, as evoluções de comportamento deste criminoso em reabilitação. Façamos desse vizinho um homem melhor de se conviver”.

Depois da repercussão do programa, chegamos a adicionar uma mensagem padrão para incitar as pessoas a contribuírem: “Você tem alguma reclamação, alguma história pendente com a pessoa que mora ao seu lado? Ligue para a central do ‘Projeto Purgatório’ e nós analisaremos o seu caso. Porque já que a convivência entre vizinhos é inevitável, vamos torná-la algo suportável”!
O programa continua fazendo sucesso até hoje, o que prova que muitos indivíduos ainda têm algo a aprender como vizinhos. E existem várias maneiras de se educar uma pessoa sem noção. Mas, certamente, a mais eficiente é a da culpa e da vergonha.


[Conto baseado na reportagem de títuloDELAÇÃO DE VIZINHOS VIRA SENSAÇÃO DO RÁDIO NA REPÚBLICA TCHECA”]
Mais uma ficção, escrita para a disciplina de Produção Textual lá da faculdade.
Copyright dessa porcaria, né?;)

Jaa!

domingo, 26 de abril de 2009

Leia, leia, leia

Agora que meu curso está andando, que já estou fechando o segundo mês de aulas, começo a finalmente analisar um pouquinho tudo pelo que estou passando.

Uma das coisas que mais escutamos nas Letras é "um bom escritor é um bom leitor". O mesmo vale para um tradutor, obviamente. Ninguém escreve/reescreve/traduz sem ter base alguma. É simples assim: se você não tem o mínimo de referência, não tente bancar o legal e sair à la loca se achando o fodão e inventando história - nossa, que oração mais coloquialmente pleonástica. Enfim!

Mas existe uma coisa dessa conversa toda que me faz pensar (cheiro de fumaça no ar). Claro, eu não vou discordar do senso comum, do que é óbvio, que nós temos que ler pra caraca porque, oras!, faz parte do processo de tradução principalmente! Mas será que para um escritor não pode ser um pouco "prejudicial" passar a vida lendo o que outros escreveram antes.

[Pausa para ser atingida pelas pedras.]

Eu digo isso no sentido de que um escritor pode ficar tão maravilhado pela sua maravilhosa carga cultural e, bem... "esquecer" de ser original. Tanto em conteúdo como em técnicas. Quero dizer, original é muito difícil de ser realmente, mas se você fica procurando referências em lugares diversos, a dificuldade triplica. Ou não?

Já respondendo a mim mesma (aqui não há espaço para comentários contrários ;D), pensando de outra forma, ler pode servir para que você não fique achando que descobriu a América, a técnica mais inovadora da Literatura mundial, ou o conteúdo mais inédito possível, quando na verdade já existe cerca de 100 autores conhecidos ou desconhecidos que fizeram a mesma coisa.

Mas eu me pergunto como Aldous Huxley chegou no esquema de sociedade de "Admirável Mundo Novo" antes de 1932...

[Informação inútil: atualmente estou lendo "A Divina Comédia", de Dante Alighieri.]

Jaa!o/