quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A zona de prostituição e a zona de amizade: Respostas

A zona toda começou aqui, ou na postagem anterior. Fui responder um dos comentários e o trambolho ficou tão gigante que tive que criar esta nova postagem.


@Viktorius: "Muito bom ler uma opinião feminina a respeito do tema =) Eu já meditei muito a respeito do tema (atire a primeira pedra aquele que nunca foi "friendzoneado") e um site (que uma amiga me mostrou) acabou me mostrando uma visão bem interessante. Googleia por "Ladder Theory". A coisa toda faz certo sentido. Dá uma lida e depois comenta comigo (ou com o teu público, via blog). Como tu te expressa bem, fico curioso com a tua opinião. =)"

Fui no site, li toda a teoria, entrei em depressão e senti uma ânsia em me auto-mutilar, mas é uma teoria interessante e com alguma base. 
Então a postulação é de que os homens têm um critério! (Baseado em exclusão de mulheres não-atrativas e no ranqueamento das mulheres que "eu conheço e que não são minha mãe e minha irmã" - Freud e Kafka à parte.) 

Bom, não dá pra negar toda a diferença biológica, o fato de que o humor das mulheres para sexo varia de forma cíclica, enquanto o dos homens é uma coisa, hmm, infinita e permanente, segundo nos dizem. Mas eu acho que hoje, com todas as variações hormonais ocasionadas por pílulas e por frangos adulterados (xD), a questão talvez não seja nem essa; eu pessoalmente acho que tem mais a ver com como cada sexo manifesta e gerencia o desejo sexual. 

Nos homens é meio evidente quando eles estão interessados fisicamente; talvez uma coisa que eles ignorem é que a parte fisiológica do desejo nas mulheres também se manifesta de forma incontrolável. Mas não de forma evidente. E eu acho que essa questão de manifestação meio que influi na questão do gerenciamento. Para os homens é uma resposta TÃO clara a um estímulo, que eles interpretam como algo que só pode ser significativo - e que TEM que ser "resolvido" com urgência. E pra uma urgência, qualquer coisa serve.
Para nós, a resposta é muito mais sutil, então não podemos basear nosso julgamento com base nesse fator - o que nos dá mais espaço para avaliar o resto.

Achei bem infeliz ele colocar "dinheiro" e "poder" como sinônimos (e em 50%) na parte dos critérios femininos. Tudo bem que os dois tem uma correlação forte, mas definitivamente o que as mulheres notam mais é poder (e poder, em "autoajudês" é algo mais como autoconfiança). 

Óbvio, um homem rico não vai ter que se curvar para quase ninguém, em comparação com um cara que trabalha em um emprego qualquer com chefes, colegas, investidores, traficantes pais de aluno. É uma opção atraente porque alguém que não se curva a ninguém também não tem metade dos problemas de confiança que um homem comum tem. Um milionário não vai ter com muita freqüência aqueles dilemas do tipo "mando meu chefe tomar no meio do cu por ser um babaca e vou pra rua? ou fico quieto e mantenho o emprego - e fico me achando um covarde pelo resto da vida?". 

O dinheiro pelo dinheiro talvez seja considerável porque a educação de muitas meninas ainda gira em torno dessa coisa de que o casamento gera uma estabilidade financeira - o que é uma merda, porque os pais minam a confiança da menina em si própria de tal modo que ela acredita que VAI TER que ser sustentada por alguém eternamente (e, pior, que ALGUÉM vai ter que sustentá-la pelo resto da vida).

Acho que o critério que os homens mais enxergam com estranheza é aquele da competição, já que o critério básico masculino aparentemente é o inverso. Quanto menos um homem aparenta nos querer, mais nós o queremos, ou algo assim. Ponham-se nos nossos lugares: nossa gama de escolha é infinita, supondo que homens só pensem em sexo e que, de alguma forma, nós estamos na escada deles em algum ponto. Quando um homem demonstra interesse óbvio e irrestrito, nós pensamos "aff, mais um daqueles milhões de zés que só vem conversar com nossos peitos!" (dramatização). Quando um homem não demonstra interesse, nós pensamos: "olha só, alguém que dá pra conversar de forma racional e confortável" - algumas vezes com o adendo "será que tem algo errado com meus peitos? será que é gay? será que eu engordei?". Digamos que é um critério de desempate; o homem que ignora nossos atributos físicos na maior parte do tempo é um homem que, na nossa cabeça, consegue gerenciar instintos com maestria, de maneira que a maioria não consegue. Gerenciar instintos é meio que uma habilidade em falta (sério, os homens dão muita bandeira quando querem algo e eu não 'tô nem falando da cintura pra baixo). Deve ser questão de treino, reclusão, meditação e tal. É importante esse gerenciamento porque é a nossa garantia de que o homem não vai nos perseguir 24h por dia dizendo que nos ama com a intenção óbvia de que nós ofereçamos sexo em agradecimento à devoção. Se ele não tiver tanto interesse assim, pelo menos ele vai canalizar as energias para outras atividades e deixar que as coisas aconteçam de forma mais natural. E, diferente do que o autor da teoria prega, "desinteresse" não é o mesmo que "prática de violência doméstica" ou "abuso verbal". Desinteresse é desinteresse. Mulheres que procuram desculpa para violência são, no mínimo, doentes. E eis um fato: sim, mulheres também fazem julgamentos errados sobre homens.

Eu ainda gostaria de acreditar que nem tudo é assim tão genérico e lugar-comum como os ditados e a sabedoria popular ("Como é que uma multidão de ignorantes consegue fazer essa coisa chamada sabedoria popular?", como diz o Millôr). Em todo caso, mesmo que seja verdade que nenhum dos seus amigos consiga viver sem relacioná-la com sexo em algum momento, eles não podem relacioná-la o tempo inteiro - fora as namoradas deles (mulheres sexualmente superiores) e a própria escolha das mulheres (em não dar trela para todo homem interessado).
Então, fica aí o site para vocês, curiosos, entrarem em depressão também: 

@Pam Lima: "Adicionarei esse texto a lista de "porque casar com a Malu" ^^ Concordo com pelo menos 90% dele e teria que reler pra lembrar quais são os 10% - mas em fim, especialmente essa história de FRIENDZONE, que além de ser uma piada que teve graça só nas primeiras 30 tirinhas com o Snape, também é muito autocomiseração. A gente já entendeu que cês só levam pé na bunda, agora parem de chorar."

Já vou avisando que só caso se o cônjuge me garantir estabilidade financeira. E um aposento só para os meus livros.:D
Aposto que os 10% de discordância envolvem aquele trecho em que eu afirmo que o Arnold pode engravidar. Mas nisso ninguém pode me convencer do contrário! Aquela barriga é de um homem que pariu uma criança.:O
Bom, é muito triste ser jogado na friend zone, mas é igualmente triste ter que dispensar um cara que se declarou (só porque você sabe que ele não vai fazê-la feliz e você não vai fazê-lo feliz), é triste a sua lista de amores platônicos que nunca aconteceram(ão), é triste ser usada de estepe por caras idiotas, e é triste uma porção de coisas no amor. Se não, não teria tanta literatura em cima de amor trágico. Acho que o mais triste de tudo é a sua família dar o contra, você simular a morte, o seu amado se matar de verdade, e você se matar de verdade. Isso sim é hardcore de triste.

@Lux: "Ah, os posts da Maru. Adoro. =D Que chato. Concordo tanto que não tem nem o que dizer além disso. =P"

Não, senpai, não concorde tanto! Complemente-nos com a sua sabedoria de senpai sempre que possível.:)
Honradíssima pelo comentário!;)
(E será que eu devo deixar perguntas para aumentar a interatividade?)

@kissi-chan: "Putz, adorei esse post Malu!!!! Muito bom mesmo. Assino embaixo hehehehe"

Yay!\o/
E reitero o que disse para a senpai: complemente-nos!;)
(Sério, vou fazer perguntas, que nem aqueles professores que pegam a chamada e chamam por nome para responder!xD)

@Ramon A. Alves: "Bom dizer que adorei o post seria um tanto estranho (quando na verdade a palavra "friendzone" cutuca minha ferida juro não sei porquê... Fiuu, fiiiuuuuu...) mas o post é muito legal, geralmente isso se da para com pessoas inteligentes... Parabéns!!!"

Oi, Ramon! Seja bem-vindo - e obrigada!:D
É, em algum ponto da vida, todos acabamos na friend zone de alguém... O negócio é seguir em frente.:)


E vocês? Já foram friendzoneados? Já friendzonearam? Acham que a friend zone é o lugar onde o Werther planta seus repolhos até hoje? Acham o Daniel Henney gatão? Acham que se eu fizer perguntas vou ser embalada a vácuo dentro do meu próprio blog?:D



Bom, durante a redação da postagem passada, acabei lendo três textos que me deram uma visão geral do que a auto-ajuda atual diz sobre a friend zone, especialmente para os homens. Não posso concordar com tudo, mas o termo "Justfriendistan", do primeiro texto, vale o esforço do autor. Se tiverem interesse...

http://www.askmen.com/dating/curtsmith_150/162b_dating_advice.html
http://articles.chicagotribune.com/2007-01-12/news/0701120408_1_new-friends-attraction-friendship

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A zona de prostituição e a zona de amizade

Sem pretensões de tentar entender como funciona essa coisa de mente masculina/feminina e de relacionamentos, inicio uma postagem cheia dos achismos e dos preconceitos.

Ano passado, em um desses convescotes com meus amigos, os meninos decidiram discutir prostituição, e de como sexo é uma necessidade masculina, e de como as mulheres de família fazem cu-doce pra chegar nos finalmentes. Nesse grupo, só tinha uma amiga além de mim, que ficou, com muita razão, irritada com as conclusões. "Então a vida de vocês é guiada pelo pinto?", ou algo assim.
Fuzzy Handcuffs no "Safe Search moderado".
Não fui de muita ajuda para apoiar a frente feminina, no entanto.:( 
Nunca consigo expressar uma opinião coerente no momento da discussão (posteriormente, ok; na hora, não). E, pra ser bem franca, eu gosto de ouvir as opiniões alheias, especialmente quando elas oferecem uma visão masculina sobre o assunto. (Se é que existe essa coisa de “visão masculina”, e não é tudo “visão pessoal”... Mas não vamos entrar nesses méritos por enquanto.)

Primeiro: eu considero prostitutas como prestadoras de serviço. Longe de achar que elas arruínam casamentos, “seduzem nossos homens”, etc., acho que elas prestam um trabalho que deveria ser pelo menos respeitado. Talvez vocês queiram argumentar com a expressão "de vida fácil", ou dizer que elas poderiam estar fazendo faxina em vez de sair dando por aí, mas de qualquer modo tenho muita relutância em aceitar essa idéia de “vida fácil”. 

Assim como em uma profissão de faxineira você não está livre de ter que limpar um banheiro mais sujo que os estábulos de Áugia, como prostituta você não está livre de ter que fazer sexo com algum sujeitinho repugnante. Nenhum trabalho e nenhuma vida é fácil.
Exceto, talvez, o de zelador da ilha Hamilton. Mas ainda assim... Austrália?
Dito isso, acho que se a sua intenção ao sair com uma garota desde o começo sempre foi a vagina e nada mais, talvez você queira contratar um serviço especializado em vez de ficar choramingando que gastou uma pilha de dinheiro e a mocinha ainda não cedeu. Ou então procurar uma mocinha que seja mais direta. Ou então ser sincero com as suas mocinhas e dizer que é só isso que você quer e nada mais – e esperar que elas concordem com os termos.

A reclamação financeira foi um dos argumentos – de que, no fim, sai mais barato contratar uma prostituta do que ficar gastando em jantares, presentes etc. Ok, sem ingenuidades: existem garotas que estabelecem seus critérios na coisa monetária, querendo que o homem pague tudo por ela, tenha o carro do ano e dê diamantes. Na mesma proporção, existem as que estabelecem critérios outros. Tudo é uma questão de escolha. Se você escolhe uma que gosta de dinheiro, deixe de hipocrisias: você escolheu - e provavelmente está muito confortável pagando os jantares, os presentes e tudo mais, e ainda mostrando para os outros e para ela que você pode pagar.
Em que outro contexto publicidade desse tipo faria algum sentido?
E você pode até reclamar (na verdade não, você não pode reclamar, isso é só um recurso retórico do meu texto), mas esteja ciente de que 50% do mérito lhe pertence. (A mesma coisa vale pra vocês, mocinhas que acham que o tamanho da conta bancária é o que importa. Vocês só estão em um ramo mais refinado da prostituição. Assumam; parem de fingir que não estão empreendendo nada.)
Em resumo, os relacionamentos são acordos. Se os dois lados (ou mais lados) estão cientes dos termos, vão em frente. Sejam felizes - mas não encham o saco alheio. Ninguém é obrigado a ouvir que "ai, o fulaninho não faz isso" ou que "a sicraninha não faz aquilo". Tenham dó, vocês é que se escolheram; resolvam entre si, como adultos que são.

Eu particularmente acho que um cara que procura prostitutas é meio que um fracassado - um pouco menos do que o cara que estupra, mas ainda assim. Em ambas as situações, ele foi incompetente na arte de convencer por meio de sedução (isto é, descartando a sedução com um maço de dinheiro) uma mulher das maravilhosas vantagens de se fazer sexo com ele de livre e espontânea vontade. Sei lá, não pode ser tão difícil.
Até o idiota do vilarejo consegue!
'Tá. Vamos para a outra zona.
Certamente vocês já se familiarizaram com as piadas de “friend zone” através do Memebase, 9GAG, ou seja lá qual o site de humor acessado. Se é que já não se familiarizaram com a própria friend zone antes das piadas.
“Friend zone” é aquele lugar escuro e gélido ao qual você é relegado quando se declara apaixonadamente para alguém e a pessoa responde algo como: “gosto de você como amigo/irmão”, "vamos ser só amigos" e tal.
Resumindo o teor desta postagem para os preguiçosos.
O lugar parece ser mais frequentado por homens, embora tenha algumas mulheres lá também... Mas vamos direcionar para o público masculino.

Então você tem aquela amiga que é linda e inteligente, que gosta das mesmas coisas que você e que ri das suas piadas. Vocês são basicamente almas-gêmeas, né? Você vai lá e se declara – e ela prontamente entra na defensiva e o joga na friend zone. Às vezes o drama é estendido, e o manolinho constata não é nem a questão de ela não querer sexo – já que ela vai atrás do cara mais cafajeste de todos para satisfazer seu apetite. E daí alguns garotos entram no poço da autopiedade e se põem a pensar: “porra, logo eu que sou um cara legal!”.

Procurei "cara legal" no Google Imagens.
Do lado de um Johnny Bravo, a imagem de uma pélvis masculina.
:|
Taí o primeiro problema: qual é a sua definição de “legal”? As pesquisas mostram que 99,9% das pessoas que se consideram “legais” não são legais nem do ponto de vista da lei (fonte). 
Nossa! Você não a molesta quando ela está bêbada ou desacordada? Você ouve os problemas dela como alguém que se importa? Poxa, que legal você é! :O
Só que não. Quanto à primeira pergunta: você está fazendo o mínimo que qualquer mulher espera – seja de um conhecido ou desconhecido, seja de um amigo, seja de um namorado. É uma questão básica de respeito, não de concessão. Se você não faz isso para todas, definitivamente você não é legal. Quanto à segunda, se você escuta os problemas dela porque espera que ela vá algum dia retribuir com sexo, você é um babaca e não há outra alternativa; o epíteto de "amigo" não lhe cabe.

Tem também o tipo que se faz de capacho. Não se faça de capacho. Sério. Mulher (sã) nenhuma gosta de homem que se martiriza por ela. Não sei o que vocês têm aprendido com as nossas comédias românticas, e nossos doramas e nossos mangás shoujo/josei, mas, seja o que for, não é isso de ser excessivamente solícito (nem de ser cafajeste, que fique registrado). Você não tem que consertar o computador/chuveiro/aparelho eletrônico de ninguém sem ser pago. Tenha um pouco de amor-próprio, porra! 

(
Fora que se você ouve ela reclamando do namorado babaca pra você e não manda ela tomar vergonha na cara, então o nível de amizade de vocês também não é lá essas coisas, colega.)
Ajuda se você fizer essa cara e usar essas palavras. E se você for o Tommy Lee Jones.

A história dessa friend zone... bem, existem pelo menos três possibilidades:
1) Você é um cara digno, mas ela está uns níveis abaixo da sua dignidade (a.k.a. “ela não é boa o suficiente pra você”). Opção que muitos presumem erroneamente; poucos, com razão.
2) Você é um cara digno, mas ela está uns níveis acima da sua dignidade (a.k.a. “ela é boa demais pra você”). Opção que alguns com problema de autoimagem presumem; outros, com simples e sincera autocrítica.
3) Vocês dois são dignos, mas não para terem um relacionamento que tenha amassos. E ela se deu conta disso antes de você. Opção que normalmente corresponde à realidade.
De qualquer maneira, todas as possibilidades acabam convergindo no mesmo ponto: alguém nessa relação não quer um relacionamento amoroso. E o que há de errado nisso? Agora todo mundo deve dizer “sim” a toda e qualquer proposta de relacionamento amoroso, por mais capenga que ele venha a ser? Ou é só porque é com você – e porque você é “legal”?

Tive a primeira idéia para essa postagem há algum tempo, quando vi este vídeo. Ele fez um trabalho interessante explicando os lados. Bom, eu lembro que fiquei intrigada com o comentário de “coisa totalmente irracional” que nós, mulheres, aparentemente dizemos quando friendzonamos alguém. 
Seguindo pela lógica do vídeo, que simplifica até chegar em uma equação (“namoro = amizade + contato físico”), não acho que seja irracional se negar a acrescentar a variável “contato físico” em um relacionamento. Contato físico depende de atração física/desejo sexual, coisa que nós, mulheres, não sentimos por todos os homens (!), o que pode parecer um pouco estranho para os próprios homens. 

(Na verdade, acho que esse conceito de que os homens não têm critérios para mulheres no que diz respeito a sexo também não corresponde à realidade. Mas quem sou eu pra questionar a máxima de que “homem só pensa em sexo” yadda yadda yadda....?)
Ou eles pensavam, até levarem flechas nos joelhos.
Daí também tem a questão de sexo ter implicações diferentes para cada gênero. Talvez fosse algo mais simples se dependesse só de instinto e de reprodução, mas desde que entraram a cultura, a moral, a educação etc. na história, não é nem um pouco simples. 

Exceto pelo Arnold Schwarzenneger, os homens não correm o mínimo risco de engravidar depois de tudo – uma implicação do sexo com várias implicações futuras. Tem também a questão do prazer feminino (?); a questão de como a mulher se enxerga; a questão de como cada sociedade/cultura julga a mulher que faz sexo. Mas eu definitivamente não vou entrar nessa área ainda mais polêmica das diferenças e semelhanças, porque acredito (com otimismo - e muita preguiça de detalhar) que qualquer um consegue chegar a alguma conclusão satisfatória sozinho.
O torso de um homem que passou por uma gravidez.
Algumas vezes não é nem isso. Tem o timing: em alguns casos, o cara se afoba; a moça dá aquela resposta padrão, mas o que ela realmente pensou foi "nem conheço direito e ele já quer relacionamento sério?". Em outros, o cara demora demais. Etc.
As possibilidades de explicação para o negócio não vingar são inúmeras. Em nenhuma delas você sabe melhor do que o outro o que ele quer para si mesmo; motivo pelo qual eu sempre achei bizarra aquela história de “mas eu sou perfeito para ela!”. É, colega; talvez você fosse perfeito para ela, mas curiosamente essa não foi a opinião dela.
Eu, por exemplo, tenho certeza de que sou perfeita para o Daniel Henney.
É só a minha ordem de restrição que não concorda.
O fato é que se você se declara para alguém, amigo ou não, existe sempre a chance de rejeição. E por mais que haja esperança, as chances de rejeição vão sempre ser maiores dependendo de quem se declara, a quem se declara e quando se declara.
É doloroso? É. Pra todo mundo. 

Mas essa autocomiseração é pra matar.
Personagens patéticos pertencem à ficção; deixem eles lá, pelamordedeus!
Que vão plantar repolhos com o Werther!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Jogos para donzelas, Shinsengumi e uma resenha

Essa semana, depois de me aventurar a arrumar minhas coleções de mangás, relembrei todo o meu amor por Rurouni Kenshin (ou Samurai X, mas eu sou hipster e uso o nome original). Relê-lo agora que atualizei meus conhecimentos pífios em História japonesa me dá uma outra visão dos fatos.
Sempre tive adoração por aquela seção do mangá em que o Nobuhiro Watsuki fazia um comentário sobre a criação dos personagens, e voltando nelas agora, notei a quantidade de personagens que ele baseou em membros da Shinsengumi – porque não basta colocar os personagens per se.

Senta que lá vem História!
Shinsengumi (新選組 ou 新撰組) , algo como “tropas recém selecionadas”, era um grupo de guerreiros sem mestre que atuava do lado do xogunato, “mantendo a paz” em Quioto. Durante pleno bakumatsu, também conhecido como fim do xogunato (período antes de 1868) – uma época conturbadíssima na História japonesa, que marca o fim de um Japão feudal e o início da modernização e da abertura de portos do país. Eles eram reconhecidos pelo haori (uma espécie de "casaco") azul-claro com montanhas brancas nas mangas, que era considerado um tanto... hmmm, chamativo - cinza e preto sempre foram tendência, olha só.

(Ai, quando eu ‘tava no Ensino Médio fiz um resumo geralzão sobre História japonesa. Leiam lá e não me decepcionem. Um, dois, três e quatro.)

Claro, aquele “mantendo a paz” entre aspas não é por acaso. De um lado, você tinha o Senhor Generalíssimo-sama, o xogum, que mandava e desmandava em todos os outros senhores feudais. E era do lado desse cara que a Shinsengumi estava. 
Do outro lado, você tinha: população revoltada com impostos + senhores feudais oprimidos pelo sistema de xogunato + sentimento de “o xogum não deixa o nosso Imperador mandar em tudo como deve ser”. Não podia dar muito certo. Então, spoiler histórico: a Shinsengumi estava do lado perdedor.

E eles eram mais ou menos assim, só que sem posar para fotos.
Sendo assim, é curioso a quantidade de mitos e histórias que foram criados em torno dessa milícia – que, diga-se de passagem, não era lá muito popular entre os cidadãos de Quioto de sua época. Mesmo o Nobuhiro Watsuki vivia, nas seções de “conversa com o leitor” em Rurouni Kenshin, pedindo desculpas por mudar isso ou aquilo das personagens históricas, ou implorando pra que os leitores não fizessem flamewars acerca das preferências políticas, pra vocês verem, ainda da época do bakumatsu. (Se bem que as piores guerras de impropérios surgem dos assuntos mais absurdos...)

Aliás, sempre achei muito interessante como o mundo editorial japonês transforma até História e personagens históricos em personagens fictícios (bizarros) sem muito escândalo. Seria como – eu pensando em equivalências toscas – se alguém escrevesse um livro em que o personagem principal fosse D. Pedro I, mas como um vampiro bon-vivant que pode saltar entre as eras e, a propósito, em algum ponto ele consegue um Gundam para derrotar as forças portuguesas do mal.

Esse cavalo na verdade é feito de Gundamnium. Por isso que as crianças estão fugindo.
Então... sobre a Shinsengumi foram feitos INÚMEROS jogos, mangás, novelas, filmes, livros,  etc. Em algumas mídias, eles são os personagens principais; em outras, não. Mas eles se fazem presentes mesmo na influência sobre outros personagens - o caso do autor de Rurouni Kenshin sendo o mais conhecido por mim.:D
Já foram dados diversos enfoques também: no talento da milícia em batalhas, nas relações entre os guerreiros (o que me lembra "Tabu", filme que enfoca a questão da homossexualidade), nas relações entre os guerreiros e o mundo de fora da Shinsengumi etc.

Bom, mas como eu cheguei nisso mesmo? Ah, sim. Depois de Rurouni Kenshin, fui pesquisar um pouco sobre a Shinsengumi. Foi assim que achei um otome game chamado Hakuôki: Shinsengumi Kitan nos relacionados .

Para os não iniciados, otome game é o tal do “jogo para donzelas”. É um tipo de jogo em que você começa a aventura entre um grupo de rapazes (com personalidades bem distintas e bem tipificadas), em uma dada situação – que pode envolver cotidiano, vida escolar, vampiros, passado, futuro ou tudo isso ao mesmo tempo (;D). 
Depois de escolher o seu predileto (o príncipe, o esportista, o nerd, o fofinho, o anti-herói, etc.), ao longo do jogo você vai selecionando opções de respostas em menus para ir melhorando seu relacionamento como ele. Até que no fim do jogo você fica com o seu predileto, yay! Ou algo assim. É basicamente um jogo de massagem no ego, em que os personagens masculinos são bonitões, interessantes, e a tratam como uma princesa desde o início (ou não, se você gosta de rapazes “fazidos”). Por exemplo:

"Pelo amor desse jogo, escolha uma opção com contato físico, Ohime-sama."
Opções: 1) Vamos jogar xadrez. 2) Vamos observar as cerejeiras em flor. 3) Vamos fazer algo quente!
 E dependendo das suas opções, da situação e do personagem escolhido, você pode acabar em uma cena como esta:
Jackpot.
Ou como esta:
"Suas habilidades no xadrez me impressionam, Ohime-sama!"
Os chamados “simuladores de namoro” são jogos bem populares entre otakus japoneses, inclusive entre os homens. Nem sempre esses jogos incluem sexo, mas quando incluem são chamados de eroge (abreviação de “erotic game”).
Eles podem ter uma história “original” (que normalmente não é nem um pouco original), ou ser baseados em mangás/animes. 
Por exemplo, o único jogo do gênero que eu já joguei até o fim foi um Love Hina para o console Gameboy Advance. Nesse caso, o jogo permite que você subverta as regras do mangá, e, em vez da chata da Narusegawa, o Keitarô termine ficando com a Mitsune, a Motoko ou qualquer personagem mais interessante que a Naru.:P

Naturalmente, todos os otome game têm um personagem masculino principal, mas você é livre para escolher entre o mundo de homens que aparece na sua jornada. O harém é seu. :D
Mas, em resumo, até a Shinsengumi já virou tema principal de jogo de donzelas. (O chonmage, aquele penteadinho desgraçadamente feio dos guerreiros, é que não teve muita popularidade entre os character designers... Nem entre as otome. Pergunto-me por quê.)

Foi o que comecei a jogar anteontem, o tal do Hakuôki: Shinsengumi Kitan. E em japonês, o que muito me frustra porque não dá pra avançar praticamente nada em um jogo desse tipo sem ter vocabulário – e, no caso, vocabulário “de época”.
Daí, impaciente como eu sou, resolvi ver o anime que criaram baseado nesse jogo.

Hakuôki, uma resenha.
Tudo isso posto, resolvi fazer uma resenha.

Um resumo sem spoilers: Chizuru Yukimura vai para Quioto em busca de seu pai, um médico que sumiu em meio à confusão do fim do xogunato quando resolveu ir até a capital. Anoitece, e Chizuru (que aparentemente não sabe que depois de certo horário as coisas ficam meio tensas) acaba sendo perseguida por alguns samurai sem mestre arruaceiros que se interessam pela espada curta que ela carrega. Uma fugidinha daqui, outra dali, enquanto a mocinha acha um esconderijo precário, os seus perseguidores são atacados por guerreiros da Shinsengumi que estão aparentemente fora de si (= olhos vermelhos, cabelos brancos e risadinhas estridentes – “coelhinho da páscoa mode on”) atrás de sangue e de entranhas espalhadas pelo chão. Os guerreiros malucos, por sua vez, são eliminados por outros membros da mesma Shinsengumi, esses sim normais e, claro, lindos. Eles dão de cara com a menina aterrorizada pela carnificina e, como ela viu algo que não devia ter sido visto, eles decidem levá-la como prisioneira – até porque a coitada da Chizuru desmaia como toda boa mocinha indefesa.
Ela acorda no quartel-general da Shinsengumi, conhece todos os membros, conta que está à procura do pai e que não pode morrer antes de achá-lo, porque se não isso não é um otome game! Tcharam. Eles a deixam viver porque aparentemente também estão procurando o pai dela, um médico que desenvolveu algum tipo de remédio que cura e potencializa a força de quem o toma, mas tem efeitos colaterais terríveis. E o resto é spoiler. Se você ainda quer ver e acha que pode ter algo imprevisível na história, SAIA JÁ DESSE TEXTO!
 
Se não... Pode te aprochegar por aí, vivente, que ainda tem muito mate pra... matear. (/gauchismofail)

Várias coisas me fizeram ver esse anime: os homens bonitos; a questão da Shinsengumi e dos fatos históricos; a parte de fantasia; o harém inverso (8D); a parte do sangue; a parte do romance; a tensão gender bender inicial (sim, porque se eu fiz uma resenha sobre, significa que tem gender bender em algum lugar). As ferramentas estavam ali, mas é claro que a montagem nunca é boa o suficiente... 

A protagonista, Chizuru, é um pequeno pé no saco. Começando pelo primeiro spoiler, a mocinha tem sangue de oni (demônio, ogro, entidade fantástica japonesa), então ela tem aquela capacidade Wolverínica de se regenerar com uma rapidez impressionante. Ela também carrega aquela espada curta que, até onde nos disseram, é “herança do clã dos demônios do leste” e, portanto, tem um poder considerável. Mas ela é uma mocinha tradicional: fraca, inútil, que só grita e desmaia.
Apesar de estar ligada a toda essa questão de, hmm, saúde (filha de um médico, consegue se regerar...), ela é incapaz de oferecer apoio médico satisfatório para os membros da Shinsengumi (o que é uma burrice, porque a quantidade de fanservice possível seria insanamente maior se eles arrumassem isso...8D). Porque não, eles já tem um médico que cuida de tudo.
Além disso, a Chizuru tem uma espada foderosa, mas – sem brincadeira nenhuma – toda a santa vez que ela vai sacar a dita-cuja, aparece algum dos lindos homens da milícia e luta por ela. E apesar do fato de começar a viver entre a milícia e até PATRULHAR as ruas com eles, em momento algum a Chizuru faz o favor de treinar qualquer coisa que seja com aquela espada. Não. Ela varre o chão o episódio inteiro. D:
Mas não é só isso! Quando algum dos homens da Shinsengumi entra em batalha, ela corre atrás para quê? Para ficar gritando, distraindo os caras e atrapalhando a luta de forma geral. Em resumo, muita gente acaba morrendo para defendê-la. (Claro, é tudo desculpa do jogo/anime, porque historicamente falando eles morreriam da mesma forma.)

Nem o Saitou aguenta mais essa ladainha.
O grande spoiler é que o remédio que o pai da protagonista criou para o pessoal da Shinsengumi transforma os seus usuários permanentemente em Rasetsu, seres que são basicamente vampiros. Então, pouco a pouco, a Shinsengumi inteira vai virando uma tropa de vampiros.

Na sequência, acabamos conhecendo os vilões de verdade na história, que também são demônios. E eles, claro, estão atrás da Chizuru a fim de... hihihi... Ok, esse spoiler nem eu sou capaz de dar. Na verdade, o vilão principal, o Kazama, é o personagem que fala as coisas mais sãs de todos os episódios em relação à Chizuru.

Tipo isso.
A Naru Narusegawa dessa história, o bonitão principal, é o vice-comandante Toshizou Hijikata, baseado em uma personagem real, capitão da Shinsengumi - originalmente tido como um homem rígido e sério, que fazia papel de "mãe" porque o comandante Isami Kondou não tinha pulso firme com os subordinados. É ele quem propõe que eles deixem a moça viver ali. Ele é o típico personagem “príncipe atormentado”, que parece que não liga para a mocinha, mas se declara nos momentos cruciais. Na verdade, nessa primeira temporada (o anime tem 2 temporadas e mais uns episódios especiais de encheção) praticamente nada aconteceu. Não para os meus parâmetros. Não parece que ele finge que não se importa. Ele parece realmente não se importar. Mas eu também tenho problemas com protagonistas – os secundários e os vilões sempre parecem mais interessantes.

"Vou aprisioná-la e tratá-la com indiferença. E você vai me amar de qualquer jeito porque eu sou o protagonista."
O que me lembra do Hajime Saitou. Parece que os japoneses têm uma imagem bem consolidada da personagem histórica, e isso acaba refletindo na ficção. Vocês se lembram do Saitou em Rurouni Kenshin? Ele era cruel, frio, o típico cara que parece que está contra você, mas que acaba salvando o time em momentos-chave (Ikki? Magus?).  Desde a época de RK acho ele um personagem muito bem desenvolvido e muito interessante por si só. Parece que a figura histórica Hajime Saitou era um homem de poucas palavras, misterioso, sem muita paciência pra mimimi – e feio (D:). E ele foi um dos membros que sobreviveu. Mas o mais curioso é que até os diferentes designs do personagem são relacionados de certa forma.

Céus, até o tom de azul do cabelo já está consolidado!
Outro membro da Shinsengumi que sempre me despertou uma certa curiosidade foi o tal do Souji Okita. Na verdade, de novo, devo isso ao Nobuhiro Watsuki, que baseou o Soujirou Seta, um dos meus personagens favoritos, vilão da fase do Shishio, nessa personagem histórica. Souji Okita era um prodígio como guerreiro; antes dos 18 anos ele já havia mestrado e desenvolvido técnicas avançadas de espada. As representações midiáticas tendem a mostrar o Souji como um garoto (ele realmente era um dos mais jovens entre os membros da milícia) talentoso, calmo, gentil, “puro”, quase “feminino”. Em Hakuouki, ele é aquele personagem meio malandro, que ri de tudo, o que foge um pouco das representações da personagem histórica. Souji Okita morreu jovem, aos 25 anos, mas não foi “de batalha”; ele contraiu tuberculose.

Not pictured: tuberculosis.
Enfim, acho que o que atrai tanta atenção sobre a Shinsengumi é o fato de ela ter sido composta por personalidades, por guerreiros inegavelmente talentosos e interessantes. E com personalidades distintas o suficiente para fazerem parte de um otome game como tipos.:D

Vi todos os 12 episódios em uma única madrugada porque a expectativa que a série criou em mim foi enorme – mas acabou sendo perdida no meio do caminho. Há uma tentativa de equilibrar as temáticas, mas eu sinto que isso torna tudo mais morno: a rigor, essa não é uma série sobre História, mas dá pra sentir a preocupação meio exagerada em situar os conflitos e as batalhas do bakumatsu, por exemplo, enquanto a parte de ficção e de fantasia fica relegada a um plano secundário.

Parece que faltam boas lutas, faltam boas cenas de romance, faltam boas cenas de humor e falta desenvolvimento na questão dos demônios.  A série é, como eu já disse, morna – e eu me pergunto porque criei tanta expectativa em cima de um otome game, no qual as situações são indefinidas por natureza, já que é a jogadora quem escolhe o final...
E por mais que eu ache interessante todos os conhecimentos sobre o bakumatsu, é muito difícil dissociar o que é liberdade artística e o que é História, motivo pelo qual acho que seria interessante se a questão histórica fosse chutada pra escanteio e a questão fictícia tomasse conta.

Senhoras e senhores: a verdade.
 Não digo que Hakuôki não valha a pena. Tem que haver uma explicação para eu estar me torturando com a segunda temporada, esperando o momento em que a Chizuru vai sacar aquela espada maldita, entrar em modo berserk e retalhar todos os inimigos, ou o momento em que o Hijikata vai tomar alguma atitude romântica mais... mmm, ativa em relação a ela. O anime tem o seu valor e até, vejam só, uma precisão histórica. Mas não é primordial. Vejam se vocês tiverem tempo. Ou se estiverem em busca de fanservice para meninas.

(Spoiler: Na segunda temporada, a moral é que os personagens vestem roupas ocidentais. E o Hijikata corta o cabelo e se torna igual ao Sebastian de Kuroshitsuji. E não fui só eu que percebi.)


Mas meu interesse em Shinsengumi perdura, e com todas as pesquisas feitas, fiquei com vontade de ver Peacemaker Kurogane, Kaze Hikaru e o dorama de época Shinsengumi! (estrelado por ninguém menos que o Katori “Shingo Mama”!).


Este cara.

sábado, 22 de outubro de 2011

A Biografia Semiautorizada

O mais deprimente sobre o seu aniversário é o fato de que ele é só um dia qualquer. Se você não faz nada deliberadamente, nada de realmente diferente acontece; ele passa, você não sente. Não tem um aviso no Gameboy de algum deus que diga que o Pokémon dele está evoluindo. O que até seria bem interessante, pensando nisso. Você não muda de forma, não desenvolve habilidades novas.

Maru has evolved from Squeezy (Marumugyun) to Squary (Marugotsu)
Em uma comparação tecnológica, essa coisa toda de crescer, envelhecer, amadurecer acontece mais como uma daquelas atualizações do Windows: quando você menos espera, quando você menos quer – mais especificamente quando você quer desligar o computador e aparece aquela notificação maldita de 21 atualizações sendo instaladas.
Especialmente pela função de envelhecer, decidi fazer desta postagem em particular uma espécie de retrospectiva de fatos que, de certa forma, moldaram minha vida e minhas idéias como elas são hoje. Se esse post parecer muito mimizento, é porque o escrevi na semana mais deprimente do mês, um pouco antes do meu aniversário. E também, né... é sobre meus mimimis pessoais; existe uma probabilidade de 98,9% de que você não queira saber das reclamações alheias, vivendo em um mundo em que 98,9% das pessoas que não tem problemas reais só sabem reclamar.
As said by the Annoying Facebook Girl.
Quando comecei a escrever na Internet (blog, flog, Orkut etc.) eu gostava principalmente de escrever o conteúdo dos perfis. Na minha fase final da adolescência, em vez de usar adjetivos, que não são nem um pouco esclarecedores, para me descrever passei a listar fatos sobre mim. Daí a mania dos “fatos”. Embora os fatos listados fossem banais - como o fato de eu odiar resolução 1024x768 e preferir a resolução de 800x600 lá nos meus 13 anos.

Então, primeiro fato marcante: a morte do meu pai quando eu tinha 11 anos. Câncer. Não estou evocando isso pra sensibilizá-los, meus caros leitores – embora saiba que esse é um recurso que funciona. Mas qualquer pessoa que passou pela morte de um ente querido extremamente próximo – e em uma idade em que, bom, você já está passando por coisas o suficiente para considerar sua vida um drama mexicano – sabe que todo o processo de lidar com a morte provoca um amadurecimento fora do comum nas pessoas envolvidas. O tipo de amadurecimento que você não enxerga em pessoas saudáveis com famílias completas e sãs, exceto em casos raríssimos (tão raros quanto o próprio status de “família completa e sã”). A morte do meu pai foi aquela marcação definitiva entre a infância nostálgica de Casimiro de Abreu e a adolescência ultra-romântica de Álvares de Azevedo, colocando em termos de clichês. 

Exceto que eu, aparentemente, acabo de ultrapassar os 20 anos. Chupa, tuberculose!
O negócio é assim: um dia você acorda e alguém que você via todos os dias e amava com todas as forças não está mais lá. Todos estão tristes e confusos. Você está triste e confusa – tão confusa que provavelmente só vai de fato entender a situação dias/meses/anos depois, quando finalmente vai conseguir chorar. Mas todos parecem ainda mais tristes e confusos, especialmente as pessoas que tinham em comum a mesma proximidade e o mesmo amor por esse alguém. Então você quer ajudá-los, quer ser uma espécie de pilar para eles – e provavelmente também é o que eles pensam quando olham para você -, motivo pelo qual você não quer ser a única criança com motivos egoístas do grupo, a criança que todos têm que se desdobrar para atender. 
Então você cresce, porque entende que mesmo a sua mãe, mesmo o seu irmão mais velho – mesmo os “adultos”, tão fortes e confiáveis – estão lutando contra a confusão e a tristeza e a saudade. Eles também não sabem o que fazer com esses sentimentos, tanto como qualquer outro ser humano. Não é humanamente possível manter toda a inocência de antes quando você vê a sua mãe, o seu principal apoio, tão fragilizada quanto você.
Mas não dá pra ficar brava com a morte depois que você conhece o Puro Osso.
O segundo fato marcante foi a minha admissão no colégio militar, que acontece mediante aprovação em um concurso (para civis). Na verdade, todo o processo de tentar, estudar, falhar, conviver com um ensino público (estadual) ruim, conviver com um ensino privado igualmente ruim, estudar novamente, tentar novamente e finalmente ser admitida, foi uma batalha mais longa e mais marcante do que certamente estou fazendo parecer.
É bem provável que eu não tivesse tentado mais vezes não fosse a influência em especial do meu pai, que sempre fez uma propaganda ultrapositiva do ensino nas escolas militares. E você pode odiar o quanto quiser essa instituição, mas vai ter que admitir que, sim, o ensino é comparativamente muito melhor. Especialmente quando a sua preocupação é sair de uma escola em que a maioria dos seus colegas considera professores meros serviçais, falta de educação a nova moda, e futuro (pessoal e profissional) uma coisa a não ser levada a sério quando se tem sexo, drogas, hormônios.

Sim, as minhas tentativas de ingressar em um colégio bom foram escolhas minhas (influenciadas, mas minhas). Escolhas que serviram para me tirar de uma depressão profunda que você só sente quando olha para os lados e enxerga apenas uma ou duas pessoas (valiosas amigas) que compartilham as suas preocupações. No colégio militar, eu finalmente pude olhar e enxergar mais pessoas, pessoas muito melhores do que eu própria (em todos os sentidos possíveis), mas, especificamente, pessoas com objetivos semelhantes (e melhores), amigos – amigos que eu suspeito às vezes nem ser digna. E ensino satisfatório.\o/

Deus, adolescência é uma fase negra - que fica ainda pior quando você lida com gente estúpida...
 Terceiro “fato”? Não sei se posso dizer assim. Minha escolha, em momentos diferentes, pelos três fatores da equação que rege minha vida acadêmica agora: Letras – Bacharelado – Japonês. Eu queria ser escritora, sempre gostei de palavras, especialmente as escritas; então a escolha do primeiro termo parece lógica. Desde a primeira série. Do ensino fundamental. O que parece uma escolha obstinada é obviamente fruto da minha ignorância infantil: escritores não cursam Letras. O presente aponta para a minha cara e ri ensandecido; escritores precisam de conhecimento, mas não de um curso específico, não de professores que não sabem ensinar, de colegas que não sabem aprender, etc. (Lembrem-se que há exceções, crianças.)

Reality hits you hard, bro'.
 Bacharelado foi uma escolha menos óbvia, talvez três anos antes do vestibular em si.
Primeiro ponto: “não quero que a palavra ‘Licenciatura’ limite meu campo de atuação a salas de aula”, por A e B motivos. A: é preciso talento para dar aulas, e esse “talento” envolve carisma, persuasão, domínio e calma frente a multidões de pessoas de idades variadas (e nenhuma das quais faz parte da minha lista de qualidades pessoais). B: sejamos realistas, as perspectivas de um professor no Brasil são terríveis, e não estou nem falando dos salários, mas da própria qualidade da educação dos alunos.
Segundo ponto: traduzir, ou trabalhar com textos de qualquer forma, me parecia mais atrativo do que ter que lidar com pessoas diretamente – e essa crença, obviamente, não passa de ilusão, porque qualquer que seja o seu trabalho, em níveis maiores ou menores, você vai ter que lidar com pessoas diretamente em algum ponto, por mais aterrorizante que isso seja (por mais que você tenha palpitações e acessos de pânico).
Terceiro ponto: a Licenciatura não tinha a opção de língua que eu priorizava, o japonês. O que já dá uma dica sobre qual das escolhas eu havia definido antes.

Parece estúpido, mas até hoje eu tento formular uma boa resposta para a pergunta: “por que você escolheu japonês?”; sim, eu ainda tento. Isso vai render uma postagem completamente nova, porque preciso de espaço, tempo e muita organização. Talvez a maior de todas as ironias: a pergunta mais simples e inocente de todas é a que gera a mais complexa das respostas no meu mundo interno. Eu sei qual o conteúdo da resposta, mas ainda preciso organizá-lo para que os outros entendam que um gosto pessoal é, às vezes, resultado de múltiplos fatores; às vezes, é só um gosto pessoal arbitrário. E quanto mais esse gosto influencia a sua vida, mais ele se encaixa na primeira opção.

Gosto de chocolate – mas suspeito que esse seja um daqueles gostos arbitrários...
Também posso citar outros fatos pessoais marcantes em outros níveis: minha imaturidade sentimental de forma geral; minha grande desilusão 2006-2009; meu enfrentamento pontual de preconceitos pessoais e de preconceitos alheios; os estrangeiros e a lição eterna de “como eu sou péssima com qualquer nacionalidade”; minha aventura em SP com pessoas relevantes; minhas desventuras acadêmicas, com professores e colegas. A lista sempre continua.
E esse é um fato per se: a lista sempre continua. Na verdade, mesmo se eu escrevesse uma postagem por dia, para cada coisa que me marca sempre teria algo novo, mesmo que fosse uma frustração ou uma paranóia injustificada (aliás, sou atleta qualificada em esportes de especulação e observação da realidade).

Paranoid Parrot sempre.
O que veio desde o início desse processo de “maioridadezação” foi o medo. Medo de perder a relevância para todos, de não sobreviver às mudanças, de não sobreviver às pessoas, de não sobreviver ao mundo. Medo de não conseguir me independer (trabalhar, morar sozinha, pagar as contas e os impostos...), ou de ficar completamente sozinha, deixada aos meus próprios pensamentos e minhas próprias depressões. Medo de nunca receber nenhum tipo de reconhecimento, nenhum tipo de apoio ou de elogio. De me abandonar e de ficar de mimimi o tempo inteiro, lamentando por coisas que eu perdi porque tive medo de fazer – e esse tipo de medo é a maior e mais lamentável de todas as auto-sabotagens possíveis! Ainda me assombra essa coisa de ser adulta, de responder pelas próprias incompetências. Nesse ponto, já sei que não existe volta. Sei que vou tentar e falhar e tentar e conseguir.
 
Viver eu ainda não sei. Vou lá pesquisar mais sobre o assunto e depois conto para vocês.:) 

sábado, 15 de outubro de 2011

De Inertia

Éramos mais ou menos quinze na fila do ônibus, seis horas e pouquinho, mais um monte de transeuntes passando perto da parada. Não saiu no jornal – provavelmente porque não valia a manchete, “era coisa pequena”, e eu sei que você também diria exatamente assim, “coisa pequena”, porque a verdade é que nós nos tornamos uns insensíveis a tudo isso (se é que algum dia nós já fomos sensíveis).

A primeira da fila era uma mulher, negra, aparência normal, um pouco cansada. Uma camiseta, um jeans surrado (não surrado de marca, surrado de uso mesmo), uns tênis bem simples, uma bolsa no ombro. Acho que ela foi o alvo mais pela posição e pela facilidade do que por qualquer outra coisa. Por ser mulher, magra e estar lá, cansada de um dia estafante de trabalho.

Eles chegaram em três. Já percebeu que esse bostas sempre chegam em bando? Vivem em bando, caçam em bando, provavelmente até se comem entre si só porque é mais cômodo. Com aqueles tênis cor de neon, de marca, calça caída, sempre falando no último volume e gordos, ocupando espaço em todos os sentidos. Nosso sistema é muito bom para engordar vagabundo, e isso vale pra qualquer classe social, dos que comem dez vezes o seu salário aos que ganham “Bolsa Explore O Seu Filho Com O Apoio Do Governo”. Até porque a única maneira que eles têm de chamar a sua atenção é ocupando espaços físicos e sonoros e incomodando o máximo possível; não são inteligentes, bonitos, agradáveis, só resta serem estupidamente incômodos. E eles foram chegando perto dela como se fossem conhecidos.

E no início, parecia isso. Parecia que eles se conheciam, foram se encostando nela como velhos conhecidos, como amigos. Daí ela olhou para nós todos e eu soube. Eu soube que eles não eram conhecidos porra nenhuma e me lembrei que já tinham usado a mesma tática com uma amiga que tinha sido assaltada mês passado... Com essa moça, era o mesmo. Ela me olhava, assustada, apavorada, suplicante. 

Eu tenho vergonha, tenho vontade de me matar só de me lembrar daquele olhar. Ela olhou para todos nós, todos os 15 ou 16, mais os transeuntes, o mundo!... e todo mundo se encolhendo, fazendo cara de paisagem, baixando o rosto, ignorando, passando, dando espaço pra que aqueles três merdinhas de, o quê?, dezesseis, dezessete anos?, fizessem o que eles estavam fazendo ali.
A moça ficou em choque enquanto eles pegavam a bolsa dela, abriam, olhavam, na maior calma porque sabiam que ninguém ia fazer nada mesmo. Um deles chegava a se virar para nós, sorrindo malicioso, como quem diz “valeu pela cooperação”. Ela começou a chorar, e algum deles fez uma piadinha. Ela perguntou, com a voz trêmula, talvez juntando um fiapo de coragem dos frangalhos em que situações como essa transformam a nossa sanidade: “Posso só pegar as fotos dos meus pequenos na carteira?”, e foi só isso mesmo que ela disse.

Uma pergunta inocente dessa e foi o que bastou para um dos assaltantes dar um soco direto no rosto dela - eu cheguei a ouvir o barulho de um dente caindo no chão. Tudo isso pelo quê? Por uma carteira, por um celular, por algum dinheiro magro, que provavelmente sequer cobriria um plano dentário pra que ela consertasse os dentes quebrados? A verdade é que isso não é pelo dinheiro pra comprar os Nikes, os Adidas, etc., pra bancar o churrasquinho de quarta-feira que acompanha o jogo, não é pelo crack, pela cerveja, pelos cigarros, não é sequer pra sustentar os filhos que eles provavelmente já tem – e que criam no mesmo abandono no qual foram criados. A partir daquele momento, ficou bem claro que o assalto não era por nada disso, era pela violência, sempre foi pela violência. Porque a violência é o único modo de esses filhos-da-puta sentirem que têm algum poder sobre algo, mesmo que seja sobre uma mulher cansada em uma parada de ônibus, que seja sobre uma criança indefesa, que seja sobre um cachorro sarnento na rua. A violência é a única capacidade democrática em toda a raça humana, e infelizmente até esses chinelões sabem disso.

Mas você sabe que não é isso que me perturba. O que me perturba é que naqueles minutos nenhum de nós foi capaz de mover um dedo para ajudar a moça sendo assaltada. Eram três! Nós éramos quinze, até mais gente! Questão numérica! E o que é pior: eu não estou me excluindo dessa maioria burra e covarde. Eu estava lá e desviei o olhar, fiquei quieta, fingi que não era comigo! (E seria inocente acreditar que nada daquilo “era comigo”...) Justo eu!

Talvez eu até conseguisse perdoar os outros por saber que a maioria é composta de cordeiros. Séculos de cultura, religião, filosofia, ficção, etc. que nos dizem que existem “bons” e “maus”, que estes são distinguíveis sem muita dificuldade, e que os “bons” são passivos, inertes, oferecem a cara a tapa, perdoam, esquecem, são cândidos, pobres, submissos, silenciosos e aceitam todos... Os “bons” somos nós, daquela fila da parada do ônibus, perdoando os três coitadinhos porque eles nasceram na vila, provavelmente não tiveram uma família estruturada, não tiveram uma boa educação, e agora cobram da sociedade a sua “dívida” – o que para mim sempre foi uma desculpa de merda, criada por uma classe média-alta com aquela inerente culpa judaico-cristã-ocidental por ter algum dinheiro; porque, seja qual for o seu status social ou a sua etnia, ser filho-da-puta não é desculpa para nada. E se você enxerga com esses seus olhos algum tipo de justiça social no que aqueles três fizeram, então eu realmente espero que algum assaltante faça o favor de espancá-lo até você perder a sua visão, já que ela obviamente é um sentido inútil em você.

Eu sei que, no fim, não conseguiria perdoar a multidão de covardes também. Mas eu nunca acreditei nessa coisa de justiça social, e de que nós “merecemos” ser assaltados, porque é o nosso pagamento e porque Deus é maior que isso tudo e porque o Reino dos Céus é daqueles que sofrem, e que são pobres, e que são dependentes, e que choram em vez de tentarem algo. Não, isso não sou eu. Por isso mesmo sei que, naquele momento em que a moça era assaltada, eu não estava pensando em justiça social, em justificativas e etc. Não. Eu estava agindo pelo instinto vergonhoso de defender o meu próprio umbigo e esperar que “os outros” dessem o primeiro passo. Eu estava na mesma expectativa que todos ali: a expectativa de que um suposto “alguém” chamaria a polícia, que então passaria a responsabilidade para a “Justiça”, que então entregaria os criminosos para os carcereiros, que por fim deixariam que os próprios presos se encarregassem de exercer a tal da “Justiça”. Funciona da mesma maneira que alguns pais esperam que as babás ou - mais modernamente - as professoras se encarreguem da educação de seus filhos; é uma delegação infinita de responsabilidades que culmina na não-resolução de problema algum.

Eu não tenho desculpa, não tenho desculpa mesmo. Meu instinto me disse que me meter naquilo poderia resultar negativamente, e eu me coloquei acima daquela pobre mulher, mesmo também havendo a possibilidade de que, se eu desse o primeiro passo, mais duas ou três pessoas também se animassem a correr com os assaltantes dali. Eu também sabia disso inconscientemente, mas fiquei ali, inerte, olhando como quem olha um capítulo de novela se desenrolar. 

Não, eu não me perdôo por isso. Mas também sei que estou propensa a fazer o mesmo em uma próxima situação semelhante, tendo plena consciência disso tudo. Então por que estou contando isso? Porque não quero que o olhar aterrorizado daquela mulher se perca no tempo. Não quero que aqueles dentes quebrados sejam “coisa pequena”, indigna de nota. Não quero que você esqueça – e também não quero me esquecer – de que nós também podemos ser os primeiros da fila um dia, e que nosso olhar aterrorizado vai ser só a entrada para mais um desses banquetes de demonstrações de poder.


 Esse texto foi escrito para a cadeira de Produção Textual, em que a proposta era reescrever o conto "Pai contra mãe", de Machado de Assis. Eu, pessoalmente, acho que reescrever Machado não só é impossível como é praticamente um insulto - e chorei sangue por isso.
A minha interpretação desse conto é a de que o autor, sim, tratou o tema social, a estrutura escravagista estúpida (cinco "vivas!" para aliterações/assonâncias, por favor) da época; mas o que eu enxergo como foco principal é a questão individual, da violência, do descaso com o outro. 
E foi isso que eu resolvi trabalhar, com alguma inspiração débil em The Boondock Saints. Mas mais pela parte da moral do que pela parte da fodasticidade.:(
Também não gosto tanto de trabalhar com crítica social em ficção, mas às vezes é inevitável. Tive que rezar alguns pai-nossos para o São Rubem Fonseca nesse quesito.