(Por um 2010 mais sincero no que realmente interessa.)
O ano passado já acabou faz um tempinho, mas demorei pra comprar uma agenda para 2010. Já falei que sou louca-tarada-demente por agendas? Pois é.
Não que eu as use todos os dias; normalmente, utilizo minhas agendas como scrapbook, algo do tipo "vou colar essa figura bonita aqui", "vou escrever essa frase bonita com créditos errados ali", "vou rabiscar esse desenho homoerótico satírico acolá" etc. Fora todos os ingressos de cinema, os catálogos de chás, perfumes, restaurantes de Caxias do Sul, entre outras recordações do ano correspondente.
Por exemplo, no primeiro dia do ano, costumo anotar a última playlist do ano passado - só pra ter uma ideia das músicas ouvidas. Este ano não fiz isso. Aliás, este ano, comecei escrevendo um conto looooongo que ainda não terminei, pra variar. Ahem. :P
Enfim, olhando todas as "features" das minhas agendas, pensei: "e se alguém resolvesse fazer uma agenda menos artificial"? "Bom, provavelmente acabaria sendo o 'livro negro' de cada um"...
01. A capa
No meu livro negro, a capa não seria feia, porque isso é muito clichê. E já tem agendas o suficiente com capas feias por aí.
Talvez fosse uma paisagem - para não desvirtuar completamente o objetivo do negócio, poderia ser um deserto, ou uma geleira. Algum lugar árido, inóspito, ou, para efeitos cômicos, uma daquelas fotos motivacionais com pessoas de várias etnias se dando as mãos e sorrindo. Em algum canto da capa, uma citação bíblica - de preferência do Apocalipse ou inventada; algo como "E disse Deus em sua ira: 'Olha o que fizeram com o meu guri, bando de putos!' Judas I. 23,1-13".
Logo de cara teria aquele espaço para pôr o nome: "Este livro negro pertence a (Fulano de Tal)".
02. Cartela de adesivos
Nada de viadagens do tipo "Te adoro!", "Estudar", "Urgente", "Médico", "Prova", "Oba!", "Curti!", "Para/de...".
Adesivos de bichinhos, tudo bem. Mas tudo voltado para o propósito da agenda: adesivo fofo de sapinho estilo Keroppi? Só se vier com a legenda "Para botar na boca do sapo". Borboletas? Legenda "Enrustido". Cãezinhos? Tag "Mijou fora do penico". Gatinhos? "Deu pra todo mundo". Peixinhos? "Se fez de peixe morto". E assim por diante.:)
Os adesivos de "Telefonar" virariam "Arranjar desculpa pra cancelar". Os de "Prova" seriam "Fingir estudar para". Incluiria alguns outros interessantes: "Falta de laço", "Me aguarde", além de uns mais positivos como "Diversão adulta fácil e gratuita" e "Amigo rico".
De um modo geral, passaríamos dos adesivos de florzinha para adesivos de cocozinhos.:)
Os únicos adesivos normais seriam os de "Lembrar". Veremos por que no quarto item.
03. Dados pessoais
Pra quê dados pessoais? Isso é um blackbook! Você não quer que as pessoas saibam o seu endereço pra mandar ratos mortos, nem o seu telefone para passar trotes de madrugada, nem o seu e-mail para mandar spams e correntes "da paz", muito menos o seu tipo sanguíneo para melarem com o seu teste de HIV!
O nome (caso você tenha sido burro de colocar um de verdade) ou pseudônimo da capa deve bastar.
04. Componentes
Calendário: nenhum feriado marcado, de modo a dar liberdade para seu usuário escolher quais os dias serão feriados. Afinal de contas, não é todo o vagabundo que tem o dia 12 de outubro como feriado (médicos, taxistas, motoristas de ônibus, atendentes de 1,99, spammers...). Por outro lado, para alguns, segunda-feira pela manhã é feriado em qualquer dia, mês e ano. Dias que sucedem festas universitárias também.
Agenda de telefones e aniversários: 1 (uma) página, no máximo. Pra quê agenda se o seu celular provavelmente já tem gravado todo mundo (especialmente aqueles que você tem gravado com a única função de ignorar as chamadas)? E aniversários o Orkut/Facebook avisa (afinal de contas, os que interessam você provavelmente já tem na cabeça).
Planejamentos financeiros: meia página, no máximo. Você é pobre; vai planejar o quê, com que dinheiro? E não queira me provar o contrário, porque rico não tem agenda; tem secretária, contador, personal stylist e carolho a quatro.:)
Lista de livros: inexistente. A maior parte da população brasileira não lê nem rótulo de cerveja e você acha que vai ler livro, que é coisa de bichinha aviadada? A outra parte acha livro muito caro e prefere comprar TV de LCD pra ver a novela das oito ou pei-per-viu pornô.
Lista de CDs: inexistente. Já ouviu falar em download? Mas se bem que ainda tem camelô, peraí... Tá, concedo meia página pra você colocar aquela coletânea do Furacão 2000 que o tiozinho tá fazendo por um preço camarada...
Lista de filmes: uma página com umas dez linhas pra você enumerar todos os seus preferidos, a maioria provavelmente da Sessão da Tarde (que com muita sorte, e contando a continuação de Lagoa Azul, deve dar dez mesmo).
Amigos legais: você tem três linhas e dez segundos para preencher com nomes antes que a página se autodestrua. E não vale olhar no Orkut nem escolher entes familiares, imaginários ou não-humanos!
Lista negra: o grande filé da agenda. Aqui você tem cerca de 50 (cinqüenta com trema porque eu quero!) páginas para preencher com os nomes dos seus desafetos, gente que vai de inimigo íntimo a vizinho desconhecido, celebridade fatalmente odiada e atendente de telemarketing do Bradesco. Aqui você pode usar aquela cartela de adesivos do início conforme lhe aprouver. E antes que me digam que isso é ideia das "Mean Girls", eu digo que é verdade! Mas listas negras são mais antigas do que esse filme... Além disso, aqui nós teríamos uma agenda completa, com adendos ultracharmosos, sempre privilegiando a sinceridade destrutiva de seus usuários.
Páginas dos dias do mês: componentes de uma agenda normal. Mas com um charme a mais: adicionada a seção "Incomodação do dia" com a subseção "Responsáveis". Aqui seriam usados aqueles adesivos de "Lembrar" supracitados, para que você JAMAIS esqueça os nomes dos filhos-da-puta que já atravancaram sua vida. Nem que seja para preencher com "Sr. Bill Gates" naquele dia em que seu Windows executar uma operação ilegal e fechar sua monografia de 200 páginas não salvas.
05. Plus
Botão de autodestruição: você certamente não gostaria de se desgastar com explicações sobre um ou outro beltraninho mencionado na agenda. Processo por difamação deve ser chato, muito embora o Brasil seja uma das capitais mundiais da fofoca e do boato infundado iniciado por recalcado fracassado (sigla BIIRF).
Espelho interativo: na contracapa interior da agenda, um espelhinho no melhor estilo "rainha-bruxa-malvada-da-Branca-de-Neve". Interativo por causa de algum mecanismo toscamente desenvolvido (provavelmente um disco giratório de papelão, ou algo assim), com a função de escolher frases aleatórias para presenteá-lo com um pouco de autocrítica após tanto falar mal dos outros. Sugestões de frases: "Sintoma: cara de cu; diagnóstico: falta de foda"; "Já arranjou trabalho? Dica: é nos classificados, não no espelho"; "O que você chama de poros eu chamo de crateras"; "Inchado? A não ser que você seja um baiacu, meu filho, você tá é gordo!:)"; "Se existe alguém mais belo? Erro: excesso de informação" etc.
Um Feliz 2010 pra todos vocês! :)
(E façam(-se) o favor de priorizar a própria vida sobre a vida dos outros. Tenham certeza de que os problemas de vocês são bem piores do que os de qualquer um dos "brothers" de qualquer um dos 10 Big Brothers.)
Jaa!o/
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
sábado, 19 de dezembro de 2009
Yomu, yomimasu, yondeiru
Gostaria de fazer uma denúncia: neste ano, Livraria Cultura, sebo Traça, Estante Virtual, livraria Londres e Instituto de Letras fizeram um complô contra a minha pessoa.
Cada vez que adentrava esses lugares (física ou virtualmente), exceto pelo IL, minhas finanças diminuíam. /emoticonmagoado
E mimimi.
No fim das contas, sobrou essa checklist de livros comprados esperando leitura:
1) "Eu sou um gato" (Wagahai wa neko de aru), Sôseki Natsume.
2) "Há quem prefira urtigas" (Tade kuu mushi), Jun'ichirô Tanizaki.
3) "Contos da palma da mão" (Tenohira no shosetsu), Yasunari Kawabata.
4) "A casa dos espíritos" (La casa de los espíritus), Isabel Allende.
5) "Todos os nomes", José Saramago.
6) "Ficções" (Ficciones), Jorge Luis Borges.
7) "Diário de um velho louco" (Futen rojin nikki), Jun'ichirô Tanizaki.
8) "O livro de areia" (El libro de arena), Jorge Luis Borges.
9) "O livro dos seres imaginários" (El libro de los seres imaginarios), Jorge Luis Borges.
10) "Recordações do escrivão Isaías Caminha", Lima Barreto.
11) "Os sertões", Euclides da Cunha.
12) "O pai Goriot" (Le père Goriot), Honoré de Balzac.
13) "Bestiário" (Bestiario), Julio Cortázar.
14) "Contos de Grimm - Volume I" (edição da L&PM Pocket), irmãos Grimm.
15) "Contos de Grimm - Volume II" (edição da L&PM Pocket), irmãos Grimm.
16) "Odisséia II - Regresso" (edição bilíngue e em três volumes da L&PM Pocket), Homero.
17) "Odisséia III - Ítaca" (edição bilíngue e em três volumes da L&PM Pocket), Homero.
18) "Miso Soup", Ryu Murakami.
19) "Crônica da estação das chuvas" (Tsuyu no atosaki), Nagai Kafu.
20) "O país das neves" (Yukiguni), Yasunari Kawabata.
21) "Todos os fogos o fogo" (Todos los fuegos el fuego), Julio Cortázar.
22) "Contos completos", Virginia Woolf.
23) "Contos gauchescos", Simões Lopes Neto.
24) "Mulher das dunas" (Suna no onna), Kobo Abe.
25) "Caminhos cruzados", Erico Verissimo.
26) "O prisioneiro", Erico Verissimo.
27) "O resto é silêncio", Erico Verissimo.
28) "As histórias preferidas das crianças japonesas - Livro 1".
29) "As histórias preferidas das crianças japonesas - Livro 2".
30) "Admirável mundo novo" (Brave new world), Aldous Huxley.
31) Etc.
Releituras que quero fazer:
1) "As viagens de Gulliver" (Gulliver's Travels), Jonathan Swift.
2) "Decamerão" (Decameron), Giovanni Boccaccio.
3) "Caçando carneiros" (Hitsuji wo meguru bôken), Haruki Murakami.
4) Etc.
Leituras aguardando na biblioteca:
1) "Kitchen", Banana Yoshimoto.
2) Etc.
Leituras aguardando em algum lugar do universo:
1) "Livro das Mil e Uma Noites" (todos os volumes *_*), com tradução do Mamede Mustafa Jarouche.
2) "Shogun", James Clavell.
3) "Dom Casmurro", Machado de Assis. (yup, não li ainda)
4) "Mansfield Park" (edição bilíngue), Jane Austen.
5) "Musashi", Yoshikawa Eiji.
6) Qualquer livro de fábulas, folclores, mitologias, contos do imaginário popular.
7) (Insira aqui qualquer coisa, pois essa é uma lista de Letrista, ou seja, uma lista que vai ao infinito)
Já lidos:
1) "Dublinenses" (Dubliners), James Joyce.
2) "Coração" (Kokoro), Sôseki Natsume.
3) "A casa das belas adormecidas" (Nemureru bijo), Yasunari Kawabata.
4) "Crônica de uma morte anunciada" (Crónica de una muerte anunciada), Gabriel García Márquez.
5) "A metamorfose" (Die Verwandlung) e "O veredicto" (Das Urteil), Franz Kafka.
6) "Contos Fantásticos" (edição L&PM Pocket), Guy de Maupassant.
7) "Madame Bovary", Gustave Flaubert.
8) "Odisséia I - Telemaquia" (edição bilíngue e em três volumes da L&PM Pocket), Homero.
9) "O cortiço", Aluísio Azevedo.
10) "Esaú e Jacó", Machado de Assis.
11) "O Ateneu", Raul Pompéia.
12) "A dançarina de Izu" (Izu no odoriko), Yasunari Kawabata.
13) "Rashômon e outros contos", Ryûnosuke Akutagawa.
14) "Kyoto" (Koto), Yasunari Kawabata.
15) "Hojôki", Kamono Chômei.
16) Etc.
Fora as leituras, nestas férias quero catalogar direito meus livros, meus documentos do PC, fazer origamis bonitos, desenhar, ser relativamente sociável, escrever no meu diário, terminar minhas histórias. Isso enquanto me acabo de ansiedade pelos resultados do Nôryoku Shiken (exame de proficiência em Língua Japonesa), que por sinal me fez perder o reencontro com um amigo que eu não vejo há séculos, sendo que estou até agora sem cara pra marcar alguma coisa... Afs, enfim.
Fuckity fuck.
{Yomu = ler (simples); yomimasu = ler (polido); yondeiru = lendo (simples); JAP}
Cada vez que adentrava esses lugares (física ou virtualmente), exceto pelo IL, minhas finanças diminuíam. /emoticonmagoado
E mimimi.
No fim das contas, sobrou essa checklist de livros comprados esperando leitura:
1) "Eu sou um gato" (Wagahai wa neko de aru), Sôseki Natsume.
2) "Há quem prefira urtigas" (Tade kuu mushi), Jun'ichirô Tanizaki.
3) "Contos da palma da mão" (Tenohira no shosetsu), Yasunari Kawabata.
4) "A casa dos espíritos" (La casa de los espíritus), Isabel Allende.
5) "Todos os nomes", José Saramago.
6) "Ficções" (Ficciones), Jorge Luis Borges.
7) "Diário de um velho louco" (Futen rojin nikki), Jun'ichirô Tanizaki.
8) "O livro de areia" (El libro de arena), Jorge Luis Borges.
9) "O livro dos seres imaginários" (El libro de los seres imaginarios), Jorge Luis Borges.
10) "Recordações do escrivão Isaías Caminha", Lima Barreto.
11) "Os sertões", Euclides da Cunha.
12) "O pai Goriot" (Le père Goriot), Honoré de Balzac.
13) "Bestiário" (Bestiario), Julio Cortázar.
14) "Contos de Grimm - Volume I" (edição da L&PM Pocket), irmãos Grimm.
15) "Contos de Grimm - Volume II" (edição da L&PM Pocket), irmãos Grimm.
16) "Odisséia II - Regresso" (edição bilíngue e em três volumes da L&PM Pocket), Homero.
17) "Odisséia III - Ítaca" (edição bilíngue e em três volumes da L&PM Pocket), Homero.
18) "Miso Soup", Ryu Murakami.
19) "Crônica da estação das chuvas" (Tsuyu no atosaki), Nagai Kafu.
20) "O país das neves" (Yukiguni), Yasunari Kawabata.
21) "Todos os fogos o fogo" (Todos los fuegos el fuego), Julio Cortázar.
22) "Contos completos", Virginia Woolf.
23) "Contos gauchescos", Simões Lopes Neto.
24) "Mulher das dunas" (Suna no onna), Kobo Abe.
25) "Caminhos cruzados", Erico Verissimo.
26) "O prisioneiro", Erico Verissimo.
27) "O resto é silêncio", Erico Verissimo.
28) "As histórias preferidas das crianças japonesas - Livro 1".
29) "As histórias preferidas das crianças japonesas - Livro 2".
30) "Admirável mundo novo" (Brave new world), Aldous Huxley.
31) Etc.
Releituras que quero fazer:
1) "As viagens de Gulliver" (Gulliver's Travels), Jonathan Swift.
2) "Decamerão" (Decameron), Giovanni Boccaccio.
3) "Caçando carneiros" (Hitsuji wo meguru bôken), Haruki Murakami.
4) Etc.
Leituras aguardando na biblioteca:
1) "Kitchen", Banana Yoshimoto.
2) Etc.
Leituras aguardando em algum lugar do universo:
1) "Livro das Mil e Uma Noites" (todos os volumes *_*), com tradução do Mamede Mustafa Jarouche.
2) "Shogun", James Clavell.
3) "Dom Casmurro", Machado de Assis. (yup, não li ainda)
4) "Mansfield Park" (edição bilíngue), Jane Austen.
5) "Musashi", Yoshikawa Eiji.
6) Qualquer livro de fábulas, folclores, mitologias, contos do imaginário popular.
7) (Insira aqui qualquer coisa, pois essa é uma lista de Letrista, ou seja, uma lista que vai ao infinito)
Já lidos:
1) "Dublinenses" (Dubliners), James Joyce.
2) "Coração" (Kokoro), Sôseki Natsume.
3) "A casa das belas adormecidas" (Nemureru bijo), Yasunari Kawabata.
4) "Crônica de uma morte anunciada" (Crónica de una muerte anunciada), Gabriel García Márquez.
5) "A metamorfose" (Die Verwandlung) e "O veredicto" (Das Urteil), Franz Kafka.
6) "Contos Fantásticos" (edição L&PM Pocket), Guy de Maupassant.
7) "Madame Bovary", Gustave Flaubert.
8) "Odisséia I - Telemaquia" (edição bilíngue e em três volumes da L&PM Pocket), Homero.
9) "O cortiço", Aluísio Azevedo.
10) "Esaú e Jacó", Machado de Assis.
11) "O Ateneu", Raul Pompéia.
12) "A dançarina de Izu" (Izu no odoriko), Yasunari Kawabata.
13) "Rashômon e outros contos", Ryûnosuke Akutagawa.
14) "Kyoto" (Koto), Yasunari Kawabata.
15) "Hojôki", Kamono Chômei.
16) Etc.
Fora as leituras, nestas férias quero catalogar direito meus livros, meus documentos do PC, fazer origamis bonitos, desenhar, ser relativamente sociável, escrever no meu diário, terminar minhas histórias. Isso enquanto me acabo de ansiedade pelos resultados do Nôryoku Shiken (exame de proficiência em Língua Japonesa), que por sinal me fez perder o reencontro com um amigo que eu não vejo há séculos, sendo que estou até agora sem cara pra marcar alguma coisa... Afs, enfim.
Fuckity fuck.
{Yomu = ler (simples); yomimasu = ler (polido); yondeiru = lendo (simples); JAP}
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Por que a educação é uma palhaçada?
Eu gosto de estudar. É estranho, até nojento, para alguns. Claro que eu não gosto de estudar tudo, tenho predileções por determinados assuntos acadêmicos – e não-acadêmicos. Mas quando me interesso por um tema, ponho a cabeça para funcionar e vou em frente; estudo. Por isso sinto um asco tremendo quando escuto os "entendidos" no assunto falando sobre a educação de maneira desleixada, sem sequer questionarem a si próprios: “eu gosto de estudar”? "Eu sei qual é a importância do estudo"? Sinto que falta autocrítica.
Meus 7 anos de vida escolar em uma escola pública estadual me fizeram criar um quadro da decadência do ensino aqui no estado. Claro, na época, eu era criança, e crianças não sabem quando um professor é bom ou não. Acontece que notei que a maioria dos meus professores, especialmente na 5ª série, não davam uma aula com conteúdos, com um esquema previamente organizado... Mais tarde, deduzi que isso podia se dar porque os salários dos professores eram degradantes. Ninguém que tem que lidar com várias turmas de, no mínimo, 30 alunos, durante - sei lá - 200 dias letivos, merece ter remunerações tão ridículas. É um fator importante a se considerar, mas não é tudo.
Com o tempo, percebi que não se falava em vestibular, universidade; na verdade, às vezes, os professores me pareciam completamente descrentes nas nossas capacidades como alunos. Percebi que eles não queriam falar em lista de conteúdos, punições, etc. Isso é feio de se falar. “Pobres alunos! O ensino não tem que ser doloroso, tem que ser prazeroso, e as novas pedagogias me dizem para respeitarmos as capacidades individuais de cada um dos 30 alunos enquanto pergunto para cada um dos 30 alunos o que eles querem aprender em sala de aula. Para quê uma lista de conteúdos, não é? Eles nem vão prestar vestibular mesmo, afinal, já estão em uma escola pública, já são uns pobres derrotados que precisarão de auxílio do governo e de medidas paternalistas ad infinitum... Além do mais, pra quê aprender Trigonometria, pra quê aprender Português, pra quê aprender Ciências? Eles não vão ser nem engenheiros, nem advogados, nem médicos! E nem eu aprendi isso direito, já que matava as aulas do magistério e da faculdade, colava nas provas e fumava maconha enquanto pregava o amor livre”...
A sensação de uma escola pública era essa. “Não estou sendo pago e acredito nos novos métodos revolucionários de ensino da tia Zenaide, formada na universidade de Harvard em pedagogia sem um dia de trabalho em salas de aula reais”. A verdade é que ninguém quer se incomodar por tão poucos vinténs. Acontece que o preço a se pagar no futuro (aliás, no presente) é caro, pois aqueles alunos para os quais você não quis ensinar pormenores da Ciência, podem estar por aí, como auxiliares nos hospitais os quais você freqüenta. Mas isso ninguém considera quando vê aquele pirralhinho de 9 anos na sala de aula.
Na escola particular de freiras, eu notei com mais intensidade outra área da sociedade que está contribuindo para que a educação seja a merda que é hoje. Todo mundo sabe que a filosofia básica de uma escola paga é a mesma de qualquer outro estabelecimento de comércio: “O cliente tem sempre razão”. O problema disso é que dinheiro não é necessariamente sinônimo de boa educação. Os professores, em comparação com os da outra escola, deviam ganhar uma remuneração mais digna, ou seja, um estímulo a mais para trabalhar. Entretanto, o professor é um mero empregado, um serviçal, alguém que deve se curvar ao principezinho de boné e tênis da Nike, à princesinha de chapinha e bolsa Louis Vitton.
Acho que nunca em minha curta vida fui obrigada a presenciar disparates maiores do que os cometidos por colegas da escola particular. Afinal de contas, a falta de respeito era endossada pelos pais. E os professores eram contratados, logo, tinham que se submeter a grandes provações para (alcançarem o Reino dos Céus? não) receberem seu salário no fim do mês.
A outra ponta podre da sociedade são os pais, obviamente. É tão fácil dizer “sim, filhinho” e ser agradável, em vez de dizer “não, senta a bunda na cadeira e vai estudar!”... Agora, é engraçado que esses mesmos pais que adoram vestir os filhos como bonecos, com as melhores roupas do momento, com os melhores acessórios, ficam indignados com a mensalidade do colégio, com o preço dos livros e do material escolar.
O problema maior é que toda a sociedade enxerga a escola como um clubinho de passar o tempo e fazer novas amizades. Ensino, estudar? O que é isso? Para que serve se não me dá dinheiro, se não me dá resultados imediatos? Por que eu estou aprendendo isso se, como sei prever o futuro (assim como todos os adolescentes), estou ciente de que não vou usar esse conhecimento nunca na minha vida?
Poucos querem estudar porque vêem a importância do conhecimento, porque vêem que a educação abre portas dentro e fora do Brasil. As pessoas não querem entrar em uma universidade para aperfeiçoarem o seu saber; a maioria só quer entrar porque sabe que o diploma dará um emprego com melhor remuneração, será bonito no currículo.
E os jovens não são, em sua maioria, sábios, conscientes e bonzinhos a ponto de saberem o que é melhor para eles na época da escola. Quem acredita no contrário certamente nunca teve contato com crianças e adolescentes, ou simplesmente não quer enxergar a realidade.
O que algumas pessoas defendem é que o ensino tem que ser democrático, que o aluno tem que escolher os conteúdos que quer aprender, que a universidade tem que ser aberta a todos, que o conteudismo é mau, feio e bobo e que o estudante que bate nos coleguinhas, nos professores e se recusa a prestar atenção nas aulas é só um coitadinho, um produto dessa sociedade má, feia boba e capitalista.
Está na hora de as pessoas que defendem essa realidade rosa e bege botarem o pé na realidade e notarem que, uma vez que você virou adulto, ninguém vai querer ouvir a sua opinião para tudo. Ambientes de trabalho são democráticos de uma forma geral? Ambientes de convivência? As ruas são democráticas? Se eu um dia decidir que posso andar com o carro em cima da calçada, por cima dos pedestres, vou ficar impune?
Além do mais, o que uma criança normal, o que um adolescente sabe sobre áreas do conhecimento? Uma criança "média" brasileira não está nem aí para as continhas e as letrinhas; ela só quer brincar, jogar futebol, saber de cor a letra e a coreografia do último funk da moda. E do que adolescentes, de qualquer classe social, etnia e time de futebol querem saber? Sexo, drogas, BBB, Pânico, A Fazenda, futebol e a letra e a coreografia do último funk. Trigonometria, Machado de Assis, Química Orgânica e revolução de 1968 não estão em pauta.
Nenhum desses alunos entende, se um professor não explica, que a gente aprende Gramática e estuda Literatura para escrever melhor e se expressar melhor na hora de falar; que aprendemos Matemática porque ela está simplesmente presente em TUDO, e você vai precisar dela pelo menos para não ser enganado pelo Governo, pelos bancos e pelo monte de espertinhos que a cultura do jeitinho brasileiro criou; que aprendemos Ciências para não cairmos no conto do primeiro milagreiro que aparecer com um santo remedinho para curar todos os nossos problemas; que aprendemos Geografia para nos orientarmos (ou nortearmos) e sabermos que entrar na Coréia do Norte de gaiato e perguntar pelo McDonald's e pela liberdade de expressão não são atitudes sábias; que estudamos História para entender o mundo de agora e para não cair nas mesmas falácias que nossos antepassados.
Já a história da universidade aberta a todos, estou até agora sem entender.
É curioso como todos querem ganhar o diploma, mas ninguém quer suar a camisa para consegui-lo. Usam o argumento de que o processo do vestibular é elitista e excludente, mas, filhos, a idéia É ESSA! Nem todo mundo pode ou consegue continuar estudando depois que já virou maior de idade, ou porque tem que trabalhar para se sustentar, ou porque simplesmente nunca se interessou muito por estudo.
Vocês têm idéia do preço de cada aluno que resolve se matricular, vocês tem idéia da estrutura física e acadêmica necessária para comportar tantos alunos sem perder a qualidade do ensino? Aliás, melhor dizendo, vocês tem idéia de quanto custa um aluno que vive rodando em cadeiras por não ser apto a entender os conteúdos ensinados?
Ninguém pode chegar na universidade sem base para suportar a carga de conteúdo passada, e se você abre as portas da faculdade para todo mundo, sem se perguntar se o aluno é capaz de ler, interpretar, resolver equações matemáticas mais refinadas, diferenciar aspectos do relevo do próprio país, reconhecer obras da literatura, compreender e memorizar fatos históricos, etc., muita gente acaba rodando, muita gente acaba gerando gastos excessivos, e o país não ganha absolutamente nada em qualidade de ensino.
Sejamos realistas: vocês acham que o fato de o Governo obrigar as universidades a admitir todo mundo e entupir salas de aula vai resultar em salários para os professores universitários proporcionais ao tamanho da incomodação? Vocês acham que as verbas vão aumentar gritantemente para o melhor acomodamento dos alunos? Não. Isso vai criar para as universidades o mesmíssimo problema que eu, com 11/12 anos de idade, fui capaz de notar na minha escola pública: remunerações humilhantes, professores desmotivados e com formação acadêmica duvidosa e autoconfiança minada, alunos mimados pelo próprio sistema.
O que me dá mais medo é escutar de colegas da Licenciatura, um entusiasmo quase infantil com novos métodos revolucionários de ensino que vêm para derrubar o autoritarismo e o conteudismo vigente na educação brasileira. De que ano são essas pessoas? De que escolas elas vêm?
Porque, dos três colégios que eu estudei - o público estadual, o particular de freiras e o federal militar -, só o militar tinha lista de conteúdos, objetivos de aula, avaliações bimestrais pesadíssimas, e ele é considerado hoje o melhor colégio de Porto Alegre, um dos únicos que realmente dá a base necessária para o aluno entrar em uma universidade. Então elas criticam um método que dá certo, que é uma ilha de eficiência em meio ao ensino caótico e mambembe do resto do país? Eu posso dizer com toda segurança que os conteúdos que tive que memorizar para as provas do colégio e para o vestibular me fizeram criar mecanismos para estudar melhor. Graças à tão odiada decoreba, tenho base para compreender idéias mais refinadas. Se não tivesse decorado a tabuada do 9, eu levaria anos para entender por que raios o dono do armazém me deu o troco de 65 centavos para os 5 reais que eu dei para comprar minha 29 balinhas bagaceiras de 15 centavos.
Eu sofri na hora de estudar Matemática, Física, Química, mas o sofrimento faz parte do processo. Para cada direito, um dever. Para cada conquista, várias gotas de suor. Hoje em dia todo mundo só quer o bônus, ninguém quer o ônus. Todos querem ser médicos, mas ninguém quer estudar fisiologia, microbiologia, parasitologia, patologia. Todos querem ser advogados, mas ninguém quer redigir o processo. Todos querem ser políticos, mas ninguém quer ter o trabalho de melhorar o país.
O que me dói é que a média mínima para entrar no curso de Pedagogia da UFRGS é 463,5 - isso sem citar as vagas com cotas raciais e sociais -, segundo o vestibular de 2009. Vocês sabem o que é isso? São pessoas que não conseguiram um resultado sequer medíocre em todas as matérias cobradas; pessoas que tem um resultado abaixo da média em Português, Matemática, História, Geografia, Literatura, Biologia, Química, Física e Língua Estrangeira. São as pessoas que vão dizer, ou melhor, já dizem como a educação tem que se comportar no nosso país.
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Resumo para os preguiçosos:
1) Nossos professores tem salários humilhantes;
2) Muitos professores são desqualificados, não entendem os próprios conteúdos, não têm confiança nos próprios métodos, acreditam nas histórias da tia Zenaide, a pedagoga formada em Harvard com experiência prolífica em salas de aula imaginárias, e o Governo está pouco se lixando para isso, porque o que interessa é que tá todo mundo na sala de aula, independente da qualidade do ensino (aliás, pra quê ensino se você tem um curral eleitoral?);
3) A escola virou um clubinho de socialização, para integrar o pessoal da comunidade, com galeto de Dia das Mães, grafitagem e futebol;
4) Como os pais não querem se incomodar com a educação básica dos filhos, o professor ganhou um novíssimo título: educador (também conhecido como "babá que cuida da criança no clubinho de socialização");
5) Querem que o aluno diga para o professor o que tem que ser ensinado em sala de aula, mas querem que o aluno respeite o professor. Uma contradição, enfim;
6) Querem que todos sejam igualmente, democraticamente e pessimamente formados em instituições de ensino fundamental, médio e superior de qualidade sofrível e risível;
7) Quem não gosta de estudar e não entende a lógica de receber conhecimento é quem dita os parâmetros da educação;
8) Facilitar os processos seletivos das universidades é, pela lógica moderna, democratizar o acesso à universidade. Até aí, ninguém sequer falou em qualidade, ninguém falou em melhorar o ensino básico para tornar alunos de classe baixa aptos a disputar um vestibular com um filho de uma pedagoga de classe média/alta. O importante, afinal é botar todo mundo dentro, bem democraticamente. Democrático como a reforma ortográfica, democrático como o seu chefe perguntando qual salário você acha que merece, democrático como todas as leis criadas para aumentar os salários dos deputados, democrático como a determinação de trocar os vestibulares das universidades pelo ENEM. Ou seja, uma educação voltada para a realidade democrática do mundo lá fora.
(Saio voando, feliz como uma borboleta pelos campos estercados da vida.)
Meus 7 anos de vida escolar em uma escola pública estadual me fizeram criar um quadro da decadência do ensino aqui no estado. Claro, na época, eu era criança, e crianças não sabem quando um professor é bom ou não. Acontece que notei que a maioria dos meus professores, especialmente na 5ª série, não davam uma aula com conteúdos, com um esquema previamente organizado... Mais tarde, deduzi que isso podia se dar porque os salários dos professores eram degradantes. Ninguém que tem que lidar com várias turmas de, no mínimo, 30 alunos, durante - sei lá - 200 dias letivos, merece ter remunerações tão ridículas. É um fator importante a se considerar, mas não é tudo.
Com o tempo, percebi que não se falava em vestibular, universidade; na verdade, às vezes, os professores me pareciam completamente descrentes nas nossas capacidades como alunos. Percebi que eles não queriam falar em lista de conteúdos, punições, etc. Isso é feio de se falar. “Pobres alunos! O ensino não tem que ser doloroso, tem que ser prazeroso, e as novas pedagogias me dizem para respeitarmos as capacidades individuais de cada um dos 30 alunos enquanto pergunto para cada um dos 30 alunos o que eles querem aprender em sala de aula. Para quê uma lista de conteúdos, não é? Eles nem vão prestar vestibular mesmo, afinal, já estão em uma escola pública, já são uns pobres derrotados que precisarão de auxílio do governo e de medidas paternalistas ad infinitum... Além do mais, pra quê aprender Trigonometria, pra quê aprender Português, pra quê aprender Ciências? Eles não vão ser nem engenheiros, nem advogados, nem médicos! E nem eu aprendi isso direito, já que matava as aulas do magistério e da faculdade, colava nas provas e fumava maconha enquanto pregava o amor livre”...
A sensação de uma escola pública era essa. “Não estou sendo pago e acredito nos novos métodos revolucionários de ensino da tia Zenaide, formada na universidade de Harvard em pedagogia sem um dia de trabalho em salas de aula reais”. A verdade é que ninguém quer se incomodar por tão poucos vinténs. Acontece que o preço a se pagar no futuro (aliás, no presente) é caro, pois aqueles alunos para os quais você não quis ensinar pormenores da Ciência, podem estar por aí, como auxiliares nos hospitais os quais você freqüenta. Mas isso ninguém considera quando vê aquele pirralhinho de 9 anos na sala de aula.
Na escola particular de freiras, eu notei com mais intensidade outra área da sociedade que está contribuindo para que a educação seja a merda que é hoje. Todo mundo sabe que a filosofia básica de uma escola paga é a mesma de qualquer outro estabelecimento de comércio: “O cliente tem sempre razão”. O problema disso é que dinheiro não é necessariamente sinônimo de boa educação. Os professores, em comparação com os da outra escola, deviam ganhar uma remuneração mais digna, ou seja, um estímulo a mais para trabalhar. Entretanto, o professor é um mero empregado, um serviçal, alguém que deve se curvar ao principezinho de boné e tênis da Nike, à princesinha de chapinha e bolsa Louis Vitton.
Acho que nunca em minha curta vida fui obrigada a presenciar disparates maiores do que os cometidos por colegas da escola particular. Afinal de contas, a falta de respeito era endossada pelos pais. E os professores eram contratados, logo, tinham que se submeter a grandes provações para (alcançarem o Reino dos Céus? não) receberem seu salário no fim do mês.
A outra ponta podre da sociedade são os pais, obviamente. É tão fácil dizer “sim, filhinho” e ser agradável, em vez de dizer “não, senta a bunda na cadeira e vai estudar!”... Agora, é engraçado que esses mesmos pais que adoram vestir os filhos como bonecos, com as melhores roupas do momento, com os melhores acessórios, ficam indignados com a mensalidade do colégio, com o preço dos livros e do material escolar.
O problema maior é que toda a sociedade enxerga a escola como um clubinho de passar o tempo e fazer novas amizades. Ensino, estudar? O que é isso? Para que serve se não me dá dinheiro, se não me dá resultados imediatos? Por que eu estou aprendendo isso se, como sei prever o futuro (assim como todos os adolescentes), estou ciente de que não vou usar esse conhecimento nunca na minha vida?
Poucos querem estudar porque vêem a importância do conhecimento, porque vêem que a educação abre portas dentro e fora do Brasil. As pessoas não querem entrar em uma universidade para aperfeiçoarem o seu saber; a maioria só quer entrar porque sabe que o diploma dará um emprego com melhor remuneração, será bonito no currículo.
E os jovens não são, em sua maioria, sábios, conscientes e bonzinhos a ponto de saberem o que é melhor para eles na época da escola. Quem acredita no contrário certamente nunca teve contato com crianças e adolescentes, ou simplesmente não quer enxergar a realidade.
O que algumas pessoas defendem é que o ensino tem que ser democrático, que o aluno tem que escolher os conteúdos que quer aprender, que a universidade tem que ser aberta a todos, que o conteudismo é mau, feio e bobo e que o estudante que bate nos coleguinhas, nos professores e se recusa a prestar atenção nas aulas é só um coitadinho, um produto dessa sociedade má, feia boba e capitalista.
Está na hora de as pessoas que defendem essa realidade rosa e bege botarem o pé na realidade e notarem que, uma vez que você virou adulto, ninguém vai querer ouvir a sua opinião para tudo. Ambientes de trabalho são democráticos de uma forma geral? Ambientes de convivência? As ruas são democráticas? Se eu um dia decidir que posso andar com o carro em cima da calçada, por cima dos pedestres, vou ficar impune?
Além do mais, o que uma criança normal, o que um adolescente sabe sobre áreas do conhecimento? Uma criança "média" brasileira não está nem aí para as continhas e as letrinhas; ela só quer brincar, jogar futebol, saber de cor a letra e a coreografia do último funk da moda. E do que adolescentes, de qualquer classe social, etnia e time de futebol querem saber? Sexo, drogas, BBB, Pânico, A Fazenda, futebol e a letra e a coreografia do último funk. Trigonometria, Machado de Assis, Química Orgânica e revolução de 1968 não estão em pauta.
Nenhum desses alunos entende, se um professor não explica, que a gente aprende Gramática e estuda Literatura para escrever melhor e se expressar melhor na hora de falar; que aprendemos Matemática porque ela está simplesmente presente em TUDO, e você vai precisar dela pelo menos para não ser enganado pelo Governo, pelos bancos e pelo monte de espertinhos que a cultura do jeitinho brasileiro criou; que aprendemos Ciências para não cairmos no conto do primeiro milagreiro que aparecer com um santo remedinho para curar todos os nossos problemas; que aprendemos Geografia para nos orientarmos (ou nortearmos) e sabermos que entrar na Coréia do Norte de gaiato e perguntar pelo McDonald's e pela liberdade de expressão não são atitudes sábias; que estudamos História para entender o mundo de agora e para não cair nas mesmas falácias que nossos antepassados.
Já a história da universidade aberta a todos, estou até agora sem entender.
É curioso como todos querem ganhar o diploma, mas ninguém quer suar a camisa para consegui-lo. Usam o argumento de que o processo do vestibular é elitista e excludente, mas, filhos, a idéia É ESSA! Nem todo mundo pode ou consegue continuar estudando depois que já virou maior de idade, ou porque tem que trabalhar para se sustentar, ou porque simplesmente nunca se interessou muito por estudo.
Vocês têm idéia do preço de cada aluno que resolve se matricular, vocês tem idéia da estrutura física e acadêmica necessária para comportar tantos alunos sem perder a qualidade do ensino? Aliás, melhor dizendo, vocês tem idéia de quanto custa um aluno que vive rodando em cadeiras por não ser apto a entender os conteúdos ensinados?
Ninguém pode chegar na universidade sem base para suportar a carga de conteúdo passada, e se você abre as portas da faculdade para todo mundo, sem se perguntar se o aluno é capaz de ler, interpretar, resolver equações matemáticas mais refinadas, diferenciar aspectos do relevo do próprio país, reconhecer obras da literatura, compreender e memorizar fatos históricos, etc., muita gente acaba rodando, muita gente acaba gerando gastos excessivos, e o país não ganha absolutamente nada em qualidade de ensino.
Sejamos realistas: vocês acham que o fato de o Governo obrigar as universidades a admitir todo mundo e entupir salas de aula vai resultar em salários para os professores universitários proporcionais ao tamanho da incomodação? Vocês acham que as verbas vão aumentar gritantemente para o melhor acomodamento dos alunos? Não. Isso vai criar para as universidades o mesmíssimo problema que eu, com 11/12 anos de idade, fui capaz de notar na minha escola pública: remunerações humilhantes, professores desmotivados e com formação acadêmica duvidosa e autoconfiança minada, alunos mimados pelo próprio sistema.
O que me dá mais medo é escutar de colegas da Licenciatura, um entusiasmo quase infantil com novos métodos revolucionários de ensino que vêm para derrubar o autoritarismo e o conteudismo vigente na educação brasileira. De que ano são essas pessoas? De que escolas elas vêm?
Porque, dos três colégios que eu estudei - o público estadual, o particular de freiras e o federal militar -, só o militar tinha lista de conteúdos, objetivos de aula, avaliações bimestrais pesadíssimas, e ele é considerado hoje o melhor colégio de Porto Alegre, um dos únicos que realmente dá a base necessária para o aluno entrar em uma universidade. Então elas criticam um método que dá certo, que é uma ilha de eficiência em meio ao ensino caótico e mambembe do resto do país? Eu posso dizer com toda segurança que os conteúdos que tive que memorizar para as provas do colégio e para o vestibular me fizeram criar mecanismos para estudar melhor. Graças à tão odiada decoreba, tenho base para compreender idéias mais refinadas. Se não tivesse decorado a tabuada do 9, eu levaria anos para entender por que raios o dono do armazém me deu o troco de 65 centavos para os 5 reais que eu dei para comprar minha 29 balinhas bagaceiras de 15 centavos.
Eu sofri na hora de estudar Matemática, Física, Química, mas o sofrimento faz parte do processo. Para cada direito, um dever. Para cada conquista, várias gotas de suor. Hoje em dia todo mundo só quer o bônus, ninguém quer o ônus. Todos querem ser médicos, mas ninguém quer estudar fisiologia, microbiologia, parasitologia, patologia. Todos querem ser advogados, mas ninguém quer redigir o processo. Todos querem ser políticos, mas ninguém quer ter o trabalho de melhorar o país.
O que me dói é que a média mínima para entrar no curso de Pedagogia da UFRGS é 463,5 - isso sem citar as vagas com cotas raciais e sociais -, segundo o vestibular de 2009. Vocês sabem o que é isso? São pessoas que não conseguiram um resultado sequer medíocre em todas as matérias cobradas; pessoas que tem um resultado abaixo da média em Português, Matemática, História, Geografia, Literatura, Biologia, Química, Física e Língua Estrangeira. São as pessoas que vão dizer, ou melhor, já dizem como a educação tem que se comportar no nosso país.
-----------------------------------------------------------------------Resumo para os preguiçosos:
1) Nossos professores tem salários humilhantes;
2) Muitos professores são desqualificados, não entendem os próprios conteúdos, não têm confiança nos próprios métodos, acreditam nas histórias da tia Zenaide, a pedagoga formada em Harvard com experiência prolífica em salas de aula imaginárias, e o Governo está pouco se lixando para isso, porque o que interessa é que tá todo mundo na sala de aula, independente da qualidade do ensino (aliás, pra quê ensino se você tem um curral eleitoral?);
3) A escola virou um clubinho de socialização, para integrar o pessoal da comunidade, com galeto de Dia das Mães, grafitagem e futebol;
4) Como os pais não querem se incomodar com a educação básica dos filhos, o professor ganhou um novíssimo título: educador (também conhecido como "babá que cuida da criança no clubinho de socialização");
5) Querem que o aluno diga para o professor o que tem que ser ensinado em sala de aula, mas querem que o aluno respeite o professor. Uma contradição, enfim;
6) Querem que todos sejam igualmente, democraticamente e pessimamente formados em instituições de ensino fundamental, médio e superior de qualidade sofrível e risível;
7) Quem não gosta de estudar e não entende a lógica de receber conhecimento é quem dita os parâmetros da educação;
8) Facilitar os processos seletivos das universidades é, pela lógica moderna, democratizar o acesso à universidade. Até aí, ninguém sequer falou em qualidade, ninguém falou em melhorar o ensino básico para tornar alunos de classe baixa aptos a disputar um vestibular com um filho de uma pedagoga de classe média/alta. O importante, afinal é botar todo mundo dentro, bem democraticamente. Democrático como a reforma ortográfica, democrático como o seu chefe perguntando qual salário você acha que merece, democrático como todas as leis criadas para aumentar os salários dos deputados, democrático como a determinação de trocar os vestibulares das universidades pelo ENEM. Ou seja, uma educação voltada para a realidade democrática do mundo lá fora.
(Saio voando, feliz como uma borboleta pelos campos estercados da vida.)
terça-feira, 14 de julho de 2009
Pecados sociais?
A Igreja Católica sempre gostou de ter a imagem de reduto moral, mesmo porque isso lhe conferia grande influência entre os fiéis. Hoje, com o surgimento sem resistência e a rápida popularização de inúmeras igrejas evangélicas, ela tenta reaver a sua fama atualizando a lista de pecados para se adequar a uma realidade que os antigos parâmetros não previam. Na prática, pelo menos dois dos novos "atos pecaminosos" são revestidos de um pensamento simplista que pode interferir em questões importantes de maneira negativa.
Um dos novos pecados incorporados à lista diz respeito às modificações genéticas, as quais a Igreja considera erradas. A idéia por trás disso é simples, mas denota falta de visão e de conhecimento do assunto: o alto clero não quer que seres humanos "brinquem" de Deus. Todavia, ser capaz de manipular genes e criar ou modificar espécies em laboratório não significa criar quimeras ou monstros, diferente do que muitos pensam. O rebaixamento de uma técnica a pecado demonstra que a Igreja não sabe muito bem do que está falando. A modificação genética, em geral, diz respeito ao melhoramento de vegetais ou animais para produção em larga escala e sem perdas, com finalidade de abastecer o consumo humano. Assim, a Igreja ignora que, se não existissem essa e outras técnicas semelhantes, o mundo provavelmente viveria como na Idade Média, passando por ondas de fome e apresentando casos de canibalismo humano decorrentes dessas.
Outro ato considerado "pecaminoso" agora é o de enriquecer muito. Isso se baseia na idéia deturpada de que, para tornar-se rico, é necessário roubar ou "pisar" em outras pessoas. Na verdade, isso já é defendido pela Igreja Católica há muito tempo; a pobreza sempre foi vista por ela, pelo menos oficialmente, como uma virtude. Esse tipo de conceito, vindo de uma instituição que influencia tantas pessoas, representa um preconceito social - como há alguns séculos essa mesma organização instituiu o preconceito étnico e cultural ao dizer que negros não tinham alma e que a cultura indígena era mais atrasada. O clero esquece que a própria instituição católica é extremamente rica - possui um país, com guardas, catedrais e igrejas com ouro, além de funcionários em vários países - e, pelo que se sabe de sua história, não alcançou isso sem roubar terras, matar "infiéis", mentir para populações inteiras e consentir com atos não tão nobres que lhe fossem convenientes.
Desse modo, a Igreja interfere, com suas idéias pouco lógicas e bastante hipócritas, em melhorias tanto no nível pessoal, como no mundial. O seu repúdio às modificações genéticas feitas por humanos e o seu pensamento simplista quanto ao acúmulo de dinheiro podem contribuir enormemente para o atraso humano, uma vez que uma organização com o seu porte ainda tem poder de influenciar pessoas que não sabem diferenciar o pessoal do social, o religioso do laico. Em vez de criar listas inúteis, a Igreja Católica poderia usar seu tempo para distribuir suas riquezas, que agora viraram pecado, ou seguir o exemplo de Mendel, monge católico e pai da genética, e ir estudar algo mais proveitoso.
(Publicado no Jornal da Redação do curso Unificado, na edição de Agosto de 2008 - ano 12, nº 40.)
-----------------------------------------------------------------------------------Vocês não têm idéia da dor que dá ao reler um texto escrito há um ano...:S
Eu basicamente quero reescrever tudo, cortar coisas, adicionar outras... Gaaaaaaah!
Bom, dirty little secrets: eu esqueci o título dessa redação. O que inicia essa postagem foi atribuído pelos professores do Unificado para poder publicar o meu texto. Morri de vergonha quando recebi essa tranqueira corrigida e vi que tinha esquecido de, digamos, A PORRA DA PARTE MAIS IMPORTANTE DA REDAÇÃO!!!Dx
(Tá, não é a parte mais importante, mas poxa, é a apresentação de todo o conteúdo em síntese!)
Na UFRGS eu não teria passado, mas o corretor do meu texto foi bonzinho.:)
Lendo todas as outras redações publicadas, percebi que, bom, eu me exaltei um pouco.
Mas religião é ódio.;)
Jaa!o/
Precisamos de Luxo
A humanidade precisa de luxo tanto quanto precisa de artigos de primeira necessidade. Levando-se em conta a sua definição de "exclusivo", e ignorando-se a superficialidade com que o caracterizam, luxo é ter tempo, assim como é deter individualidade.
À parte do seu conceito clássico, uma vida luxuosa não precisa ser propriamente repleta de riquezas materiais, futilidades e inutilidades. Na situação do mundo moderno, o tempo, por exemplo, é um recurso do qual poucos desfrutam, sendo, portanto, raro e custoso. No ritmo acelerado em que muitos vivem, ter alguns minutos do dia para dedicar-se a fazer algo relaxante, ou para simplesmente gastar sem fazer nada específico, é uma dificuldade. Para aqueles que exercem ofícios com baixa remuneração, deixar de trabalhar não é escolha; necessidades mais primárias precisam ser supridas, afinal. Para os não tão pobres, mas que visam ao lucro, parar é desperdiçar tempo e chances de adquirir artigos menos importantes. Quem realmente pode ou não se aflige ao desfrutar desse recurso exclusivo tem um pouco de luxo em sua vida.
Além de tempo, personalidade própria também é algo a se considerar um artigo de luxo. São poucos aqueles que conseguem, mesmo com toda a influência das mídias, das dificuldades da vida, dos discursos sedutores, manter a individualidade - a propriedade de ser único e ter também idéias próprias -, sem que essa característica se alie necessariamente ao egoísmo. Há uma tendência de os seres humanos naturalmente se guiarem pelos seus semelhantes, o que não é ruim, nem condenável. Entretanto, a maioria acaba se acomodando a essa situação e dependendo quase que totalmente das ações de seus grupos religiosos, sociais, econômicos, políticos. Essa acomodação acaba por descaracterizar os homens como indivíduos e torna-os o que popularmente se chama de "massa de manobra", fazendo com que a personalidade própria seja uma raridade.
O luxo, portanto, não se restringe a bens materiais e fúteis. Ele pode ser muito bem-representado pelo tempo livre, do qual determinadas pessoas sequer ouviram falar, bem como pela individualidade, pela capacidade de não só seguir, como também criar tendências e idéias e ser reconhecido por elas. Desse modo, pode-se dizer que pensar, refletir, indagar é também um luxo, visto que, para isso, é necessário tempo e ponto de vista próprio.
(Publicado na Antologia do Velho Casarão da Várzea, impresso do CMPA, no ano de 2008, quando eu estava no 3º ano do Ensino Médio. Também publicado no Jornal da Redação do curso Unificado, na edição de Junho de 2008 - ano 12, nº 39.)
---------------------------------------------------------------------------------
Fora de contexto, minha redação ficou meio retardada, mas acho que dá pra entender o espírito da coisa... O tema era, obviamente, "luxo". Eu estava no 3º ano do Ensino Médio, há muito tempo... em 2008. ;D
A redação do outro simulado do Unificado foi publicada em outro Jornal da Redação, pra minha felicidade. Mas... fica pra próxima. Ai, aquelas aulas com o Wolf...*-*
(Nem posso falar, matei muitas.:B)
Ah, a pessoa da imagem é a Coco Chanel, pra quem não conhece.
Jaa!o/
À parte do seu conceito clássico, uma vida luxuosa não precisa ser propriamente repleta de riquezas materiais, futilidades e inutilidades. Na situação do mundo moderno, o tempo, por exemplo, é um recurso do qual poucos desfrutam, sendo, portanto, raro e custoso. No ritmo acelerado em que muitos vivem, ter alguns minutos do dia para dedicar-se a fazer algo relaxante, ou para simplesmente gastar sem fazer nada específico, é uma dificuldade. Para aqueles que exercem ofícios com baixa remuneração, deixar de trabalhar não é escolha; necessidades mais primárias precisam ser supridas, afinal. Para os não tão pobres, mas que visam ao lucro, parar é desperdiçar tempo e chances de adquirir artigos menos importantes. Quem realmente pode ou não se aflige ao desfrutar desse recurso exclusivo tem um pouco de luxo em sua vida.
Além de tempo, personalidade própria também é algo a se considerar um artigo de luxo. São poucos aqueles que conseguem, mesmo com toda a influência das mídias, das dificuldades da vida, dos discursos sedutores, manter a individualidade - a propriedade de ser único e ter também idéias próprias -, sem que essa característica se alie necessariamente ao egoísmo. Há uma tendência de os seres humanos naturalmente se guiarem pelos seus semelhantes, o que não é ruim, nem condenável. Entretanto, a maioria acaba se acomodando a essa situação e dependendo quase que totalmente das ações de seus grupos religiosos, sociais, econômicos, políticos. Essa acomodação acaba por descaracterizar os homens como indivíduos e torna-os o que popularmente se chama de "massa de manobra", fazendo com que a personalidade própria seja uma raridade.
O luxo, portanto, não se restringe a bens materiais e fúteis. Ele pode ser muito bem-representado pelo tempo livre, do qual determinadas pessoas sequer ouviram falar, bem como pela individualidade, pela capacidade de não só seguir, como também criar tendências e idéias e ser reconhecido por elas. Desse modo, pode-se dizer que pensar, refletir, indagar é também um luxo, visto que, para isso, é necessário tempo e ponto de vista próprio.
(Publicado na Antologia do Velho Casarão da Várzea, impresso do CMPA, no ano de 2008, quando eu estava no 3º ano do Ensino Médio. Também publicado no Jornal da Redação do curso Unificado, na edição de Junho de 2008 - ano 12, nº 39.)
---------------------------------------------------------------------------------Fora de contexto, minha redação ficou meio retardada, mas acho que dá pra entender o espírito da coisa... O tema era, obviamente, "luxo". Eu estava no 3º ano do Ensino Médio, há muito tempo... em 2008. ;D
A redação do outro simulado do Unificado foi publicada em outro Jornal da Redação, pra minha felicidade. Mas... fica pra próxima. Ai, aquelas aulas com o Wolf...*-*
(Nem posso falar, matei muitas.:B)
Ah, a pessoa da imagem é a Coco Chanel, pra quem não conhece.
Jaa!o/
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Carta de Não-Suicídio
[por Luísa Vanik]
Destino essa pequena carta a aqueles que culpo diretamente pelo meu não-suicídio: minha família e amigos.
Informo-os desde já os motivos pelos quais venho me não-suicidando. Começando pela razão supracitada: o fato de vocês serem tão imperfeitos e não me compreenderem durante cem por cento do tempo. Isso me obriga a procurar cada vez mais pessoas que tenham algo em comum comigo. Pessoas que preencham as lacunas deixadas por vocês. Assim, meu círculo e minha variação de tipos de amigos aumenta, do mesmo modo, cada vez mais; conseqüentemente crio mais laços, algo que praticamente me obriga ao não-suicídio!
Outro motivo para esse ato (ou não-ato) é o mundo. O mundo é deprimente, considerando sua situação geral. Veja bem: as pessoas se odeiam, vivem na miséria material e na miséria intelectual ou espiritual. Elas fazem mal aos outros e a si próprias e depois não entendem porque suas vidas andam para trás (ou simplesmente param). Aí sinto um aperto imenso no coração, um misto de raiva e vontade de fazer algo para melhorar o mundo – então vem à minha cabeça a louca idéia do não-suicídio, novamente...
O que também me provoca essa vontade insana é a minha própria situação. Não nasci rica, superdotada, bonita e plenamente satisfeita na vida. E, como se não bastasse, o passar do tempo não me espera decidir por onde começo! Agora vocês entendem, não é? É inevitável essa fixação pela idéia de não conceder a morte a si mesmo. Acabo sentindo um crescente desejo de buscar tudo o que não tenho...
Por último motivo – e talvez seja este o mais poético -, tomo a janela de meu apartamento de terceiro andar. Neste exato momento, olho-a com um pensamento insensato. Lembro-me de pessoas que vivem a alguns seis ou sete andares acima do meu e também olham para a janela, mas com outro tipo de idéia. E então reflito: onde está a poesia em mergulhar no concreto sujo das ruas, em meio a carros barulhentos e transeuntes indiferentes? Ainda prefiro minha idéia não-suicida de olhar para o céu e imaginar mil coisas que possam me ajudar a alcançar as nuvens alaranjadas do pôr-do-sol, sem ter que para isso chegar perto do trânsito e dos passantes.
É, parece-me mais razoável o meu doido suicídio ao contrário. Talvez meu próximo passo seja propor um não-suicídio coletivo...
Sem mais considerações a fazer, saúdo-os com um enérgico “olá, mundo cruel; aqui estou para desafiá-lo (e sensibilizá-lo, se o senhor permitir)”...
(Publicado na Antologia do Velho Casarão da Várzea, impresso do CMPA, no ano de 2006, quando eu estava no 1º ano do Ensino Médio.)
-------------------------------------------------------
Texto antigo, mas vale ainda.
Ainda mais depois que duas cadeiras diferentes decidem cobrar "Os Sofrimentos do Jovem Werther", do seu Goethe...:S
O Werther é um chato, assim como todos os indivíduos com tendências suicidas. Tanto que a minha interpretação para o suicídio do Werther não tem nada a ver com o amor impossível pela Charlotte. É só egoísmo mesmo. Tanto que ele resolve se matar próximo ao Natal, com uma sordidez impressionante, pra dar um impacto maior. Ele chega a se regozijar em antecipação só de pensar nas lágrimas que a sua querida Lotte vai derramar por ele. Ah, vá a merda. Isso não é amor.:P
Mas esse até é um bom livro. Tem alguns momentos de reflexão e de análise do amor bastante encantadores.:)
Jaa!o/
Informo-os desde já os motivos pelos quais venho me não-suicidando. Começando pela razão supracitada: o fato de vocês serem tão imperfeitos e não me compreenderem durante cem por cento do tempo. Isso me obriga a procurar cada vez mais pessoas que tenham algo em comum comigo. Pessoas que preencham as lacunas deixadas por vocês. Assim, meu círculo e minha variação de tipos de amigos aumenta, do mesmo modo, cada vez mais; conseqüentemente crio mais laços, algo que praticamente me obriga ao não-suicídio!
Outro motivo para esse ato (ou não-ato) é o mundo. O mundo é deprimente, considerando sua situação geral. Veja bem: as pessoas se odeiam, vivem na miséria material e na miséria intelectual ou espiritual. Elas fazem mal aos outros e a si próprias e depois não entendem porque suas vidas andam para trás (ou simplesmente param). Aí sinto um aperto imenso no coração, um misto de raiva e vontade de fazer algo para melhorar o mundo – então vem à minha cabeça a louca idéia do não-suicídio, novamente...
O que também me provoca essa vontade insana é a minha própria situação. Não nasci rica, superdotada, bonita e plenamente satisfeita na vida. E, como se não bastasse, o passar do tempo não me espera decidir por onde começo! Agora vocês entendem, não é? É inevitável essa fixação pela idéia de não conceder a morte a si mesmo. Acabo sentindo um crescente desejo de buscar tudo o que não tenho...
Por último motivo – e talvez seja este o mais poético -, tomo a janela de meu apartamento de terceiro andar. Neste exato momento, olho-a com um pensamento insensato. Lembro-me de pessoas que vivem a alguns seis ou sete andares acima do meu e também olham para a janela, mas com outro tipo de idéia. E então reflito: onde está a poesia em mergulhar no concreto sujo das ruas, em meio a carros barulhentos e transeuntes indiferentes? Ainda prefiro minha idéia não-suicida de olhar para o céu e imaginar mil coisas que possam me ajudar a alcançar as nuvens alaranjadas do pôr-do-sol, sem ter que para isso chegar perto do trânsito e dos passantes.
É, parece-me mais razoável o meu doido suicídio ao contrário. Talvez meu próximo passo seja propor um não-suicídio coletivo...
Sem mais considerações a fazer, saúdo-os com um enérgico “olá, mundo cruel; aqui estou para desafiá-lo (e sensibilizá-lo, se o senhor permitir)”...
(Publicado na Antologia do Velho Casarão da Várzea, impresso do CMPA, no ano de 2006, quando eu estava no 1º ano do Ensino Médio.)
-------------------------------------------------------Texto antigo, mas vale ainda.
Ainda mais depois que duas cadeiras diferentes decidem cobrar "Os Sofrimentos do Jovem Werther", do seu Goethe...:S
O Werther é um chato, assim como todos os indivíduos com tendências suicidas. Tanto que a minha interpretação para o suicídio do Werther não tem nada a ver com o amor impossível pela Charlotte. É só egoísmo mesmo. Tanto que ele resolve se matar próximo ao Natal, com uma sordidez impressionante, pra dar um impacto maior. Ele chega a se regozijar em antecipação só de pensar nas lágrimas que a sua querida Lotte vai derramar por ele. Ah, vá a merda. Isso não é amor.:P
Mas esse até é um bom livro. Tem alguns momentos de reflexão e de análise do amor bastante encantadores.:)
Jaa!o/
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Ninguém que ficar só
[por Luísa Vanik]
Existe, nas sociedades humanas, uma cultura de supervalorização do relacionamento conjugal. Em decorrência disso, as relações entre indivíduos freqüentemente acabam se estabelecendo sobre os princípios da hipocrisia e da comodidade, o que resulta em sentimentos de insatisfação emocional, e pode criar para as pessoas uma impressão negativa de uma associação humana que deveria ser encarada com prazer e alegria.

Fazia um tempinho que eu não tinha que escrever uma dissertação...@_@
Devido às comemorações de Dia dos Namorados, acabei tendo idéia para esse tema.
Antes que venham as pedras, as cruzes e os insultos, um esclarecimento: não sou contra relacionamentos (o que seria uma completa burrice, se fosse o caso). Sou contra relacionamentos convencionais, que se dão por moda, necessitam de aprovação alheia e se baseam meramente na idéia de "vamos fazer, já que tá todo mundo fazendo". Tenho até um certo romantismo por acreditar em amor único e verdadeiro; contudo, não consigo acreditar que seja possível encontrá-lo na primeira esquina disponível.
Fora isso, sou solteira e mal-amada - e uma das tantas que se deprime com o Dia dos Namorados.;)
Jaa!o/
Existe, nas sociedades humanas, uma cultura de supervalorização do relacionamento conjugal. Em decorrência disso, as relações entre indivíduos freqüentemente acabam se estabelecendo sobre os princípios da hipocrisia e da comodidade, o que resulta em sentimentos de insatisfação emocional, e pode criar para as pessoas uma impressão negativa de uma associação humana que deveria ser encarada com prazer e alegria.
A idéia de que “socialmente correto” é nunca estar sozinho tem explicação racional. A combinação de indivíduos sempre foi uma estratégia biológica, com a finalidade de principalmente gerar descendência; desde a Antigüidade Oriental até tempos mais recentes, sabe-se que as uniões, para os nobres, também tinham parte no estabelecimento das relações de poder e, para o povo, representavam uma estratégia de sobrevivência no mundo. Essas concepções de casamento como “necessidade” ou como “ferramenta de domínio” continuam, mesmo que inconscientemente, arraigadas no imaginário humano. A sociedade de hoje concebe o relacionamento entre duas pessoas como prova irrefutável de competência fisiológica; afinal, se uma pessoa é capaz de se unir a outra, ela cumpre teoricamente o seu papel na perpetuação da espécie. Por conta disso, criou-se o mito de que o “casal” seria uma entidade superior ao “indivíduo”, e, portanto, para que um sujeito se realizasse como ser humano, seria necessária a sua união a outrem.
Por conseqüência dessas idéias, muitas pessoas assumem relacionamentos sem estrutura para tal, crentes de que se completarão com a outra pessoa, independente da qualidade dos sentimentos envolvidos. Na prática, esses indivíduos frustram-se ao descobrir que os sentimentos de necessidade, curiosidade e interesse que os uniram não são suficientes para manter uma relação baseada em carências individuais e reconhecimento social. Por comodidade, muitos prosseguem com a convivência. Disso decorrem as crises de auto-estima, os assomos de egoísmo e as traições, como forma de punição ao outro – por não corresponder às expectativas de tornar feliz o seu par – e a si próprio – por não ter sido capaz de alcançar a satisfação plena, o que deveria ter ocorrido pelo simples fato de ser cumprida a convenção de se unir a alguém.
O culto ao pareamento de pessoas deve ser, portanto, analisado com certo cuidado. Embora a tendência de associação entre indivíduos cumpra um papel importante na História da humanidade, o costume de ver o casamento como atestado de competência social e como reduto de soluções e felicidades frente às carências e questões individuais pode ser nocivo para todos os envolvidos. Uma relação que requer a anulação de sentimentos individuais não sobrevive aos menores atritos.
Por conseqüência dessas idéias, muitas pessoas assumem relacionamentos sem estrutura para tal, crentes de que se completarão com a outra pessoa, independente da qualidade dos sentimentos envolvidos. Na prática, esses indivíduos frustram-se ao descobrir que os sentimentos de necessidade, curiosidade e interesse que os uniram não são suficientes para manter uma relação baseada em carências individuais e reconhecimento social. Por comodidade, muitos prosseguem com a convivência. Disso decorrem as crises de auto-estima, os assomos de egoísmo e as traições, como forma de punição ao outro – por não corresponder às expectativas de tornar feliz o seu par – e a si próprio – por não ter sido capaz de alcançar a satisfação plena, o que deveria ter ocorrido pelo simples fato de ser cumprida a convenção de se unir a alguém.
O culto ao pareamento de pessoas deve ser, portanto, analisado com certo cuidado. Embora a tendência de associação entre indivíduos cumpra um papel importante na História da humanidade, o costume de ver o casamento como atestado de competência social e como reduto de soluções e felicidades frente às carências e questões individuais pode ser nocivo para todos os envolvidos. Uma relação que requer a anulação de sentimentos individuais não sobrevive aos menores atritos.

Fazia um tempinho que eu não tinha que escrever uma dissertação...@_@
Devido às comemorações de Dia dos Namorados, acabei tendo idéia para esse tema.
Antes que venham as pedras, as cruzes e os insultos, um esclarecimento: não sou contra relacionamentos (o que seria uma completa burrice, se fosse o caso). Sou contra relacionamentos convencionais, que se dão por moda, necessitam de aprovação alheia e se baseam meramente na idéia de "vamos fazer, já que tá todo mundo fazendo". Tenho até um certo romantismo por acreditar em amor único e verdadeiro; contudo, não consigo acreditar que seja possível encontrá-lo na primeira esquina disponível.
Fora isso, sou solteira e mal-amada - e uma das tantas que se deprime com o Dia dos Namorados.;)
Jaa!o/
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